O COADJUVANTE - A justiça do imponderável é ponderável
09:17.
Sobre Gaza o céu sumiu.
Uma mancha preta do tamanho de um país engoliu o azul e apagou o som das bombas. A guerra parou. Pela primeira vez em muito tempo, todo mundo olhou para o mesmo lugar.
Ele apareceu no meio de uma rua destruída. Dois metros e meio. Pele feita de mil olhos que piscavam fora de ritmo. Sem boca. A voz chegou dentro da cabeça de cada pessoa viva, na sua própria língua:
— Chega.
Um milhão e duzentos mil anos observando. Quarenta e sete civilizações. Quarenta e seis apagadas por fazerem exatamente isso. Vocês transformaram o jardim em matadouro.
No mesmo instante todas as armas do planeta pararam. Mísseis em voo congelaram e caíram sem explodir. Gatilhos não responderam. Sistemas de lançamento apagaram. Silêncio absoluto.
Em Washington, Pequim, Moscou, Londres, Paris, Berlim, Tóquio e Ottawa os chefes de Estado se levantaram ao mesmo tempo. Líderes religiosos de todos os credos também. A voz ecoou dentro deles:
— Vocês querem falar. Falem.
A sala branca se abriu. Sem tronos, sem bandeiras, sem assessores. Só homens velhos em pé.
O presidente americano foi o primeiro:
— Nós somos os líderes do mundo livre. Temos a responsabilidade de…
— De empurrar o botão ou de não empurrar?
O líder chinês:
— Nossa civilização tem cinco mil anos. Somos o povo mais antigo e estável.
— E ainda matam os próprios cidadãos por opinião. Cinco mil anos e ainda não aprenderam a diferença entre ordem e medo.
O papa, o grande imã, o rabino-chefe e o dalai-lama, juntos:
— Representamos a fé de bilhões. Somos os intermediários entre o divino e…
— Vocês são intermediários de vocês mesmos. Cada um já usou o nome de Deus para justificar o sangue do outro.
O primeiro-ministro britânico tentou o tom diplomático:
— Estamos dispostos a negociar. Podemos oferecer…
— Oferecer o quê? O planeta que já é de vocês? Ou a humildade que nunca tiveram?
Silêncio pesado.
— Vocês se julgam mais aptos. Mais preparados. Mais acima. Por isso mesmo são os menos indicados. O orgulho de quem se acha indispensável foi o que destruiu as outras quarenta e seis.
A sala branca se fechou na cara deles.
O Ser abriu a mão. De dentro saiu uma borboleta-lagarta feita de luz viva. A Guardiã. Ela nunca errou.
— Ela vai escolher um de vocês para defender todos. Sessenta minutos.
A borboleta subiu. Cruzou o Atlântico. Desceu o Brasil. Nordeste. Paraíba.
Esperança.
O nome da cidade já era um aviso.
No mercado público a TV de tubo mostrava Gaza ao vivo. Na fila do pão, Jacó Martins, trinta e oito anos. Camiseta da oficina do pai suja de graxa na manga. Formado em Filosofia pela UFPB, o melhor da turma. Lia Nietzsche no intervalo e trocava óleo à tarde. Nunca deu uma aula. Voltou porque o pai adoeceu e filosofia não paga aluguel.
Jacó tinha o filtro quebrado. Inibição Latente Baixa. Escutava o ventilador com rolamento gasto, via o tremor fino na mão do padeiro e, no caixa, a moça de vinte e poucos anos com o batom levemente borrado de tanto passar a mão na boca, nervosa.
A TV gritava: FIM DO MUNDO.
Ela tremia.
Jacó se inclinou sobre o balcão, baixinho:
— Não chora.
Ela olhou pra ele, olhos cheios d'água:
— Acho que a gente vai morrer.
Jacó olhou pra tela, pra mancha preta do tamanho de um país, e depois pra ela. Deu aquele meio sorriso cansado de quem já entendeu que o mundo é absurdo:
— Calma. Foram humanos que desceram da nave?
Ela, confusa:
— Claro que não!
— Então talvez uma boa conversa resolva tudo. Afinal, não são humanos. Kkkk
Ela riu. Uma risada curta, de susto, com soluço no meio. O batom borrou mais um pouco.
Jacó pegou o pão. Saiu.
Foi nessa hora que a borboleta entrou pela porta do mercado e dissolveu no ombro suado dele.
O joelho dele cedeu. O pão amassou na mão. Oito bilhões de pessoas entraram dentro da cabeça dele ao mesmo tempo. Foi físico. Um peso.
O mundo inteiro agora via o mundo pelos olhos de um mecânico-filósofo de Esperança.
Num bar em Nova York alguém gritou:
— Why not Elon Musk?!
Em Pequim:
— Por que não Xi Jinping?!
Em Brasília:
— Quem é esse cara de Esperança?!
Dentro da cabeça coletiva a informação se formou sozinha:
[ESCOLHIDO: JACÓ MARTINS / 38 ANOS / ESPERANÇA-PB / FILOSOFIA – NÃO ATUANTE / OCUPAÇÃO: OFICINA DO PAI / NOME ORIGEM: GÊNESIS 32 – O HOMEM QUE LUTOU COM DEUS NO MONTE PENIEL ATÉ O AMANHECER E GANHOU O RESPEITO DELE]
A sala branca infinita se abriu de novo. Sem paredes. Sem sombras. Duas cadeiras. Jacó ainda segurando o pão amassado. Na frente, o Ser.
Oito bilhões viraram meros espectadores da batalha filosófica. Ninguém podia falar. Só sentir.
— Você é o coadjuvante — disse o Ser. — O que segura a escada e ninguém vê. Por que não devo apagar vocês?
— Para o cronômetro aí — disse Jacó, rindo de nervoso, o pão na mão. — Qual é o seu nome?
— Me chame do que quiser.
Jacó lembrou do quadro da igreja da mãe. O rei sábio.
— Salomão.
— Por quê?
— Porque se vai julgar a gente, que julgue com sabedoria. Não com poder.
— Então, Salomão… como pretende dizimar toda a humanidade?
— Como vocês, nos seus frigoríficos, abatem o gado.
Oito bilhões sentiram o gelo ao mesmo tempo dentro da cabeça de Jacó.
— Com piedade… entendi. Obrigado.
O Ser travou. Pela primeira vez em um milhão e duzentos mil anos, uma resposta não estava catalogada.
— Obrigado?
— Sim. Nem todo mundo chega ao último suspiro sem sofrimento. No frigorífico o cara da pistola tenta ser rápido. Pra não doer. Vocês vão ser rápidos. Obrigado por ter piedade de quem nunca teve piedade da gente.
— Não me agradeça. Não é piedade. É prevenção.
— Prevenção do quê?
— Vocês estão doentes de uma doença nova. Não é a guerra. Guerra vocês sempre fizeram. É o negacionismo do bom e do correto. Vocês começaram a chamar a empatia de fraqueza. A ciência de opinião. A gentileza de interesse. Quando uma civilização começa a negar o que a salva, ela não tem mais cura. Tem que ser contida antes que contamine outras. O que vocês fazem em Gaza hoje, farão no sistema solar amanhã. Eu vim fazer um ataque preventivo. Antes que o câncer saia do órgão.
Jacó olhou fixo nos mil olhos. E pela primeira vez, não foi com medo. Foi com raiva. Uma raiva limpa, de coadjuvante.
— Você quer acabar com TODA a raça humana... pelas decisões de quem nunca nos deu escolha?
O Ser respondeu seco:
— Sim. Vocês são um.
— A gente não é um. — Jacó deu um passo pra frente. — Você não é muito diferente deles. Na verdade, nenhuma diferença.
O Ser sentiu o golpe. Pela primeira vez em um milhão e duzentos mil anos, se sentiu afrontado, desconcertado.
— Como ousa nos comparar com seres tão mesquinhos e primitivos, reféns de medos e ganância?
— Aqui embaixo — Jacó apontou pra baixo, pra Terra que não dava pra ver — eles decidem o que é certo. Quem vive e quem morre. Quanto vale o teu trabalho. Quanto vale a tua vida. Eles mensuram a existência dos seus iguais. Criaram uma pirâmide, hierarquias... e uns poucos decidiram e governaram o destino de muitos.
Silêncio na sala.
Jacó terminou, quase sussurrando:
— Vocês só têm uma arma maior. Mas estão se baseando por uma minoria que nunca nos representou.
Silêncio. O inquiridor foi inquirido.
O Ser ficou imóvel. Depois, abriu a mão. A borboleta pousou entre eles.
— Por causa dela. O nome dela é Espiritual. Não é um nome. É uma função.
— Espiritual?
— Para vocês, justiça é pesar o que pode ser pesado. Provas, dinheiro, poder. Vocês só julgam o ponderável. Ela julga o imponderável. A intenção que ninguém viu. O pão que você ia dividir sem ninguém te filmar. O sorriso que deu pra cadela prenha da rua. A justiça do imponderável é ponderável para ela. Por isso ela nunca errou. Ela não escolheu o mais forte. Escolheu o mais verdadeiro. Escolheu o coadjuvante que ainda acredita no bom, mesmo quando todo mundo diz que o bom é ser otário.
Naquele instante, lá no mercado de Esperança, no meio dos oito bilhões de espectadores calados dentro da cabeça de Jacó, uma única pessoa sorriu.
A moça do caixa do batom borrado.
Ela viu Jacó. Não o mecânico. Viu o filósofo. E sorriu com esperança. Pela primeira vez desde as 09:17.
Jacó sentiu aquele sorriso dentro dele. Como um sopro.
Olhou para o pão amassado.
— Eu fiz Filosofia, Salomão. Sei o que é ética, estética, ser e tempo. Nunca dei uma aula. Meu pai adoeceu. A oficina ia fechar. Pagar o aluguel era mais urgente que ensinar Platão. A ganância me abateu antes de eu servir pra qualquer coisa. Como gado. Como Gaza. Como noventa por cento do meu país.
Ele ergueu o olhar para os mil olhos.
— Vocês estão certos. Somos ignorantes. Somos a espécie que inventou a música e no mesmo dia inventou a bomba pra tocar junto. Se nos julgarem pelo retrato de hoje, têm que nos apagar. E eu entenderia.
— Mas não julguem uma espécie pelo retrato. Julguem pelo filme.
— Há trezentos anos a gente achava que doença era castigo divino. Há cem anos achava que mulher não podia votar. Há trinta achava que não dava pra falar com alguém do outro lado do mundo. Nós somos ignorantes, mas somos a primeira espécie ignorante que sabe que é ignorante. E que fica incomodada com isso.
— Vocês não estão olhando pra uma espécie falida. Estão olhando pra uma espécie em adolescência. Barulhenta, contraditória, perigosa pra si mesma… mas que está a duas ou três ideias de distância de virar adulta. Se nos apagarem agora, não salvam o universo da ignorância. Só matam a única espécie daqui que poderia um dia entender o universo.
— Eu sou o cara que segura a escada pro protagonista subir. Se eu solto, todo mundo cai. O mundo não é segurado pelos Elon Musks nem pelos Xi Jinpings. É segurado pelos Jacós. Oito bilhões de Jacós segurando a escada um do outro. E a gente ainda divide o pão.
Ele mostrou o pão.
— Eu ia dar metade desse aqui pra cadela prenha da rua. O menino de Gaza tá com o mesmo pão que eu. Se um coadjuvante quebrado, que vê demais e sofre demais por ver demais, ainda divide… imagina o que a gente faria se a porteira abrisse?
A borboleta, que era preta, ficou dourada e entrou no peito do Ser.
O Ser caiu de joelhos. Sentiu uma dor aguda na coxa. Mancou. Como Jacó no monte.
— Jacó… Israel…
Jacó acordou no chão do mercado de Esperança. Pão amassado na mão. Troco espalhado.
Ninguém lembrava de nada.
Mas no céu de Gaza e no céu de Esperança a mancha preta continuava lá. Agora ela não comia luz. Ela refletia. E toda noite, pontualmente às 09:17, ela piscava. Uma vez. Lenta.
Nos dias seguintes os líderes do mundo falaram na TV. Uns por consciência. Outros por medo puro daquilo que não conheciam e não podiam controlar. Assumiram publicamente o que sentiram na sala branca. Pela primeira vez em séculos assinaram um compromisso real de crescimento e coexistência. Não por nobreza. Por sobrevivência.
E a humanidade, aos poucos, prosperou. Como adolescente que quase morreu num acidente e resolveu crescer.
Todo mundo sabe que algo aconteceu naquele 09:17. Todo mundo sente o peso da mancha no céu. Mas ninguém lembra quem os defendeu.
Menos Jacó.
Anos depois ele casou com a moça do caixa do batom borrado. Casa nova em Esperança, ainda sem móveis. No meio da sala, uma caixa de madeira sem prego e sem emenda.
Dentro: um pão francês quente, cheirando a forno. E um bilhete com uma letra que não era humana, mas que ele entendeu.
“Vocês seguraram a escada. Continuem segurando. — Salomão”
Jacó sorriu. Aquele sorriso culto e simples de filósofo mecânico. Olhou pela janela para o ponto no céu que piscava e disse baixinho:
— Valeu, Salomão…
FIM.