O silêncio da casa de verão da família de Ana parecia ensurdecedor.
O contraste foi violento e quase físico. Um segundo antes, eu estava imerso no inferno de chamas da floresta amazônica, sentindo o calor do fogo rugindo contra a nossa pele e a adrenalina pulsando a níveis insuportáveis. No segundo seguinte, o ar gélido e estagnado da sala de estar da casa de veraneio me atingiu, acompanhado pelo cheiro familiar de madeira encerada, livros antigos e poeira leve.
Mas o pior de tudo não era o silêncio. Era o vazio esmagador ao meu lado.
— Ana? — chamei, com a voz falhando e ecoando pelas paredes de pinho da sala vazia.
Nenhuma resposta. Apenas o tique-taque distante de um relógio de parede antigo e o som da minha própria respiração descompassada. Eu esperava ouvir a risada dela, uma bronca, qualquer coisa.
Minhas mãos tremiam violentamente enquanto eu olhava ao redor. O feitiço de transporte de emergência que aprendemos a dominar nos corredores do Instituto Xingu exigia foco absoluto e, acima de tudo, que os conjuradores mantivessem as mãos firmemente entrelaçadas até a materialização completa. Nós estávamos de mãos dadas quando saltamos do meio do fogo. Então, o que deu errado? Foi a posição: viramos de costas um para o outro, como pedia o ritual, e o calor abrasador e o feitiço de fogo lançado pelos Morguleses corromperam a malha da transmutação no último segundo, causando uma distorção espacial que nos separou.
No ápice daquele pânico cego, as nossas mentes se desconectaram. Eu pensei no lugar mais seguro que conhecia, a casa de verão da família dela, onde tantas férias passáramos juntos; mas Ana, guiada pelo instinto mais profundo de sobrevivência e saudade, não pensara no mesmo lugar que eu. O subconsciente dela a levara para o único reduto que conhecia desde pequena: a antiga casa de sua tia, localizada no coração do centro histórico de Manaus.
Enquanto eu tateava o escuro da sala, uma lembrança nítida cortou minha mente, trazendo de volta o dia exato em que percebi que faria qualquer coisa para protegê-la.
Nós nos conhecemos logo no primeiro ano no Instituto Xingu. Éramos de malocas completamente distintas — ela pertencia à Maloca Guarani, conhecida por sua sabedoria ancestral e maestria em feitiços de proteção e harmonia com a natureza; eu fazia parte da Maloca Yanomami, focada na força interior, coragem e na magia ligada às raízes da terra. Nossas malocas não eram rivais, mas tinham culturas e ensinamentos bem diferentes, o que fazia com que os alunos raramente se misturassem fora das aulas comuns.
Mas tudo mudou no segundo ano. Um grupo de alunos da Maloca Kokama — vista por todos como a mais rebelde, indomável e difícil de lidar da escola — resolveu fazer uma brincadeira de mau gosto com Ana por pura implicância de rivalidades antigas. Eles a pegaram desprevenida e a jogaram desacordada nas águas profundas e gélidas da temida Lagoa Negra, onde viviam Iaras selvagens e maldosas que tentavam atrair qualquer forasteiro para o fundo do lago de onde jamais retornavam.
Eu por acaso passava perto da margem quando vi os garotos da Kokama rindo enquanto o corpo de Ana afundava e as sombras das Iaras começavam a contorcer-se ao redor dela, puxando-a para o abismo escuro. Alunos do segundo ano sequer sonhavam em dominar o feitiço de congelamento temporal — era uma magia de nível avançado, proibida para nossa idade. Mas o desespero foi mais rápido do que a lógica. Sem pensar duas vezes, arranquei a varinha, apontei para o espelho d'água e conjurei o feitiço Pare o tempo com tanta força que o som estalou como um trovão. O lago inteiro congelou em pleno movimento: a água virou vidro sólido, e as garras das Iaras pararam a centímetros dos tornozelos de Ana. Corri sobre a superfície estática do gelo, mergulhei as mãos na água congelada e a puxei para a margem bem a tempo de desfazer o feitiço. Ela tossiu água escura, abriu os olhos e me encarou como se eu fosse um fantasma.
Desde aquele dia, nossa amizade havia se tornado inquebrável. E agora, olhando para a sala vazia da casa de verão, a ideia de que ela estivesse em perigo me rasgava por dentro.
Com o coração batendo na garganta, joguei a mochila no chão e abri o zíper com uma pressa desesperada. Afundei as mãos nos bolsos internos até tatear o tecido de linho encantado. Puxei-o para fora com o máximo de cuidado: o Bastão Dourado continuava ali, perfeitamente intacto, emitindo um brilho âmbar suave e rítmico, como se estivesse vivo e completamente alheio ao pesadelo que nos cercava. O artefato sagrado estava seguro em minha posse. Mas a garota que me salvara de tantas formas — e que eu jurara proteger — estava completamente sozinha.
Caminhei em passos largos até a janela da sala, afastando um pouco a cortina pesada para espiar o exterior. A casa de verão ficava em uma colina isolada, cercada por pinheiros altos e uma neblina fina que começava a cobrir o relvado. Parecia pacífico demais. Perigoso demais. No mundo bruxo atual, a calmaria nunca significava segurança; era apenas o aviso de que a tempestade ainda estava se reorganizando.
Se Ana não tinha vindo parar ali comigo, havia apenas uma conclusão óbvia: ela havia sido desviada para as coordenadas de Manaus. E, conhecendo a situação da capital sob o novo regime de Lurdes, ela ter ido parar lá sem suporte era o equivalente a jogá-la direto na cova dos leões.
— Onde você está metida, Ana...? — sussurrei, passando as mãos pelo rosto suado.
Eu precisava testar qualquer possibilidade de contato. Afastei o capuz da jaqueta, mergulhei a mão no bolso interno e retirei meu espelho comunicador de emergência — um artefato mágico de bolso criptografado que permitia chamadas a distância. Bati a ponta da minha varinha três vezes na superfície prateada, invocando o canal de ligação com o número dela.
O espelho embaçou imediatamente. Redemoinhos de fumaça cinzenta giraram na moldura de prata, formando linhas e mais linhas. Mas, em vez do rosto de Ana ou de qualquer som, apenas um chiado agudo e estático irrompeu da peça.
A tela apagou de vez. O sinal estava sendo bloqueado por barreiras de supressão mágica ativas na região norte. Alguém com muito poder estava caçando sinais mágicos na área.
Guardei o espelho no bolso, com os dentes trancados de raiva e impotência. O Bastão Dourado pulsava quente contra o tecido da minha mochila, como se o próprio artefato estivesse me cobrando uma atitude, exigindo que eu saísse dali e movesse céus e terra para consertar aquilo.
Capitulo 3 disponível amanhã
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