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Capítulo 9 — Além da Velocidade

Monarca

Conteúdo da publicação

A casa estava silenciosa.

Silenciosa demais.

Eriel estava deitada na cama havia quase uma hora, olhando para o teto.

Tentava dormir.

Não conseguia.

Desde o sonho, sua cabeça parecia incapaz de descansar.

O campo de flores continuava voltando à sua memória.

A árvore gigantesca.

O dragão branco.

Aquela voz.

E, principalmente, a sensação de que havia alguma coisa dentro dela que estava tentando despertar.

Eriel virou-se para o outro lado.

Fechou os olhos.

Abriu novamente.

— Que droga...

Ela sentou-se na cama.

Talvez um pouco de ar fresco ajudasse.

Vestiu um casaco leve e saiu do quarto.

Os corredores estavam completamente escuros.

Apenas algumas pequenas luzes permaneciam acesas.

Eriel caminhou devagar.

Aquela casa parecia diferente durante a madrugada.

Durante o dia, havia vozes, passos e pequenas movimentações.

Agora, tudo parecia abandonado.

Ela chegou até uma janela.

Do lado de fora, o jardim estava mergulhado na escuridão.

A lua iluminava parcialmente as árvores.

Eriel ficou alguns segundos observando.

Então ouviu.

CLANG!

Ela se assustou.

Um som metálico.

E depois outro.

CLANG!

Eriel ficou imóvel.

Aquilo vinha de algum lugar do jardim.

Mais um som.

Dessa vez, acompanhado por algo que parecia uma explosão distante.

— O que está acontecendo?

Sua curiosidade venceu o bom senso.

Eriel abriu a porta que levava para o jardim.

O ar frio atingiu seu rosto.

Ela caminhou entre as árvores.

Os sons ficaram mais fortes.

CLANG!

CLANG!

BOOM!

Eriel acelerou o passo.

Até que chegou a uma área aberta.

E parou.

Seu corpo inteiro ficou imóvel.

No centro daquele espaço estavam duas pessoas.

Azrael.

E Naara.

Eriel reconheceu imediatamente a mulher de cabelos brancos que havia encontrado alguns dias antes.

Mas aquilo não parecia uma conversa.

Era um combate.

Naara segurava sua gadanha.

A lâmina negra cortou o ar.

Azrael desviou.

A distância entre os dois desapareceu em um instante.

O som do impacto fez Eriel recuar.

Azrael atacou.

Naara bloqueou.

A lâmina encontrou a gadanha.

Uma onda de pressão atravessou o chão.

Folhas foram lançadas para todos os lados.

Eriel arregalou os olhos.

— Eles estão...

Não conseguiu terminar.

Eles eram rápidos.

Rápidos demais.

Não era simplesmente velocidade humana.

Eriel mal conseguia acompanhar os movimentos.

Azrael desaparecia de seu campo de visão e reaparecia vários metros adiante.

Naara fazia o mesmo.

Cada golpe parecia acontecer antes mesmo que Eriel pudesse compreender o movimento anterior.

A gadanha passou a poucos centímetros do rosto de Azrael.

Ele inclinou a cabeça.

A lâmina passou.

No mesmo instante, Azrael girou o corpo e desferiu um golpe.

Naara bloqueou.

CLANG!

O som ecoou pelo jardim.

Eriel levou a mão à boca.

— Eles estão tentando se matar?

Não parecia treinamento.

Não havia hesitação.

Não havia movimentos desperdiçados.

Cada ataque parecia ter sido feito para matar.

Naara avançou.

A gadanha cortou o espaço.

Azrael recuou.

Ela girou a arma e atacou novamente.

Azrael abaixou-se.

A lâmina passou acima de sua cabeça.

Ele avançou.

Um golpe.

Naara desviou.

Outro.

Ela bloqueou.

Outro.

Ela desapareceu.

E reapareceu atrás dele.

Azrael virou-se no último instante.

As duas armas colidiram.

Eriel não conseguia mais acompanhar.

Seus olhos começaram a doer.

Ela apertou as pálpebras.

Respirou fundo.

— Preciso enxergar...

Alguma coisa aconteceu.

O mundo mudou.

Não parou.

Mas ficou...

lento.

Muito lento.

Eriel arregalou os olhos.

As folhas que estavam caindo pareciam suspensas no ar.

Uma delas flutuava diante dela.

O movimento de Naara havia se tornado perceptível.

Azrael também.

Agora Eriel conseguia ver.

Conseguia acompanhar cada movimento.

Era como se alguém tivesse diminuído a velocidade do mundo.

Ela observou Azrael levantar a espada.

Viu o momento exato em que Naara deslocou o peso do corpo.

Viu para onde ela iria atacar.

Viu a trajetória da gadanha.

Tudo estava claro.

Perfeito.

Eriel deu um pequeno passo para frente.

— Eu consigo...

Mas então uma dor atravessou sua cabeça.

— Ah...

Ela levou as mãos às têmporas.

A visão ficou turva.

O mundo começou a oscilar.

Seu coração acelerou.

A sensação era semelhante a uma pressão crescente dentro do crânio.

Como se sua mente estivesse tentando acompanhar coisas que seu corpo não era capaz de suportar.

— Não...

Ela tentou respirar.

Não conseguiu direito.

Sua força desapareceu rapidamente.

As pernas ficaram fracas.

Eriel cambaleou.

Uma gota quente escorreu pelo seu nariz.

Ela tocou.

Olhou para os dedos.

Sangue.

— Sangue...?

Outra gota caiu.

Depois outra.

Seu corpo inteiro começou a tremer.

Ela não conseguia mais manter aquela percepção.

Tentou desligá-la.

Mas não sabia como.

— Para...

Nada aconteceu.

A dor aumentou.

Os sons voltaram de uma vez.

CLANG!

BOOM!

CLANG!

Eriel caiu de joelhos.

Seu estômago revirou.

Sua visão escureceu nas bordas.

Ela tentou chamar alguém.

Nenhuma palavra saiu.

Então ouviu uma voz.

— ERIEL!

Ela levantou os olhos.

Azrael havia parado.

Naara também.

Por um instante, os olhos vermelhos de Azrael encontraram os dela.

Eriel nunca havia visto aquele olhar.

Não havia calma.

Não havia mistério.

Não havia aquele pequeno sorriso irritante.

Havia medo.

Azrael correu.

Mas aquilo também não parecia uma corrida humana.

Em um instante, ele estava distante.

No seguinte, já estava próximo.

Eriel tentou permanecer consciente.

Seu corpo não respondeu.

Azrael chegou até ela e a segurou antes que caísse completamente.

— Eriel!

Ela tentou olhar para ele.

Os olhos vermelhos estavam muito próximos.

— Você...

Sua voz falhou.

Azrael segurou seu rosto.

— Fique acordada.

Eriel tentou sorrir.

— Eu... consigo...

— Não fale.

Era a primeira vez que Eriel ouvia Azrael dar uma ordem naquele tom.

Desesperado.

Ele olhou para o sangue em seu rosto.

Sua expressão mudou.

— Você usou o Tempo...

Eriel mal conseguia manter os olhos abertos.

— Eu... só queria...

— Eu sei.

Azrael a segurou com mais força.

— Eu sei.

A última coisa que Eriel percebeu antes de perder a consciência foi a voz de Naara.

Calma.

Mas preocupada.

— Azrael...

Ele não respondeu.

Apenas continuou olhando para Eriel.

E, pela primeira vez desde que havia chegado àquela casa, ela percebeu algo que jamais havia visto nele.

Azrael estava com medo.

Medo de perdê-la.


Thoughts

  • luluca

    Mana, a menina ouve CLANG de madrugada e desce pro jardim de casaco leve 😅 E o Azrael falando do Tempo com letra grande, isso tem regra e quem manda nela ainda não contou nada pra Eriel.

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