CAPÍTULO 1 — O MUNDO NÃO ESPERA PELOS VIVOS
Registro de sobrevivência — Primeiro dia do colapso.
POV: Kenji Duksten
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Eu precisava pensar.
Continuava sentado no banco do motorista, com as duas mãos sobre o volante. O carro estava desligado, os vidros fechados e as portas trancadas.
O silêncio dentro daquele veículo parecia estranho.
Lá fora, a cidade estava gritando.
Respirei fundo e comecei a organizar meus pensamentos.
Primeiro, meus recursos.
Uma Glock, com munição disponível. Dinheiro na carteira, embora eu duvidasse que alguém ainda estivesse preocupado com isso. Alguns medicamentos para gripe, analgésicos, minha garrafa de água e alguns suplementos.
Era pouco.
Muito pouco para alguém que talvez precisasse abandonar sua própria casa pelos próximos dias.
Olhei para o banco do passageiro.
— Certo... precisamos improvisar.
Foi quando ouvi um barulho.
Um alarme de carro.
Alto. Estridente. Insuportável.
Olhei pelo retrovisor e vi alguns daqueles indivíduos mudando de direção quase imediatamente. Os que estavam próximos à calçada começaram a caminhar em direção ao veículo que produzia o som.
Um deles, entretanto, acabou se aproximando do meu carro.
Parecia um homem de meia-idade. A camisa estava rasgada e havia sangue espalhado pelo pescoço. Seus movimentos eram desajeitados, como se tivesse dificuldade para controlar os próprios músculos.
Ele parou ao lado da janela.
Fiquei imóvel.
Nossos olhos se encontraram.
Por alguns segundos, apenas observei.
Seu rosto estava tão próximo do vidro que conseguia enxergar os pequenos detalhes da pele, os lábios manchados e aquela expressão vazia.
Minha primeira reação foi levar a mão até a Glock.
Mas parei.
Por quê?
Eu queria entender.
Ele não parecia reconhecer o ambiente. Não parecia procurar uma pessoa específica. Apenas movimentava a cabeça, observava ao redor e reagia aos estímulos.
Quando outro ruído surgiu na rua, seus olhos se desviaram imediatamente.
Interessante.
Instinto primitivo.
Era a primeira explicação que me vinha à cabeça.
Talvez estivessem agindo de maneira semelhante a animais guiados por estímulos básicos. Barulho, movimento, proximidade.
Não havia como ter certeza, mas aquela possibilidade poderia me ajudar.
O homem permaneceu alguns segundos diante da janela.
Depois se afastou.
Continuei acompanhando seus movimentos até desaparecer atrás de outro veículo.
Soltei lentamente o ar que estava segurando.
— Isso é realmente uma merda...
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02 HORAS DE OBSERVAÇÃO
Havia outro problema.
A maioria das pessoas provavelmente teria a mesma ideia que eu: abandonar a cidade.
E isso significava uma coisa.
Engarrafamentos.
Milhares de pessoas tentando utilizar as mesmas avenidas, as mesmas rodovias e as mesmas saídas.
Se os acontecimentos continuassem daquela maneira, as principais vias ficariam completamente bloqueadas.
Sair pela avenida principal seria praticamente uma sentença de morte.
Peguei meu mapa.
Abri-o sobre o volante e comecei a analisar as ruas próximas.
Eu já havia circulado por aquela região algumas vezes. Conhecia alguns estabelecimentos, estacionamentos, passagens estreitas e acessos que normalmente passavam despercebidos.
Comecei a traçar algumas possibilidades.
Rota principal: descartada.
Avenidas movimentadas: descartadas.
Saídas próximas ao hospital: definitivamente descartadas.
Minha atenção se voltou para os becos e ruas secundárias.
Eram caminhos menos utilizados, alguns estreitos e outros bastante inconvenientes para veículos maiores.
Perfeitos.
Também marquei algumas alternativas, porque uma rota de fuga sem uma segunda opção não era realmente uma rota de fuga.
Pela primeira vez, senti uma pequena satisfação por ser tão paranoico.
Todas aquelas vezes em que eu observava saídas, memorizava caminhos e analisava possíveis problemas pareciam finalmente ter alguma utilidade.
— Acho que dessa vez vocês não estavam tão errados sobre mim...
Foi quando meu celular vibrou.
Uma ligação.
Olhei para a tela.
Meu coração deu uma pequena acelerada.
Era alguém da minha família.
Meu dedo ficou parado sobre o botão de atender.
Queria ouvir uma voz conhecida. Precisava saber se estavam bem.
Mas não sabia se conseguiria manter aquela ligação. A bateria seria importante, e talvez não houvesse outra oportunidade de carregá-la.
Silenciei a chamada e abri a conversa.
Comecei a escrever uma mensagem.
Não podia simplesmente perguntar se estavam bem. Precisava transmitir informações.
Pedi que verificassem portas, janelas e possíveis pontos de entrada. Que evitassem sair desnecessariamente e não se aproximassem de pessoas apresentando comportamentos violentos ou ferimentos causados por mordidas.
Também falei sobre água, medicamentos, alimentos e a importância de manter os celulares carregados.
Depois enviei a informação mais importante.
Avisei sobre uma antiga base que meu grupo utilizava durante algumas atividades de caça. Era um local que poderia servir de abrigo, longe do movimento mais intenso da cidade.
A senha de acesso era:
FALCÃO.
Expliquei que estava no centro da cidade e que provavelmente levaria alguns dias para conseguir chegar até lá.
Não sabia se aquela mensagem seria suficiente.
Mas precisava acreditar que chegaria até eles.
Enviei.
Coloquei o celular no modo silencioso e voltei a observar a rua.
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Durante as duas horas seguintes, tentei compreender o comportamento dos contaminados.
Minha primeira impressão parecia estar correta.
Eles reagiam ao barulho.
Quando um veículo produzia um som mais alto, vários mudavam de direção. Quando algo quebrava, os mais próximos se aproximavam.
Não pareciam apresentar um nível elevado de inteligência. Pelo menos não da maneira como conhecemos.
Mas isso não significava que fossem inofensivos.
Um deles permaneceu durante vários minutos batendo contra a porta de um estabelecimento, mesmo depois de não conseguir abri-la.
Outro se jogou contra o vidro de um veículo até conseguir atravessá-lo.
Não havia medo de se machucar.
Não havia hesitação.
E, aparentemente, não havia qualquer preocupação com a própria sobrevivência.
Aquilo me incomodava.
Uma pessoa pode sentir medo, recuar ou desistir quando está diante de uma ameaça.
Aquelas coisas não.
Olhei para o relógio.
Duas horas.
Era tempo suficiente.
Precisava sair.
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A SAÍDA
Havia uma escadaria de acesso ao outro lado do estacionamento. Era uma possibilidade, mas não estava livre de riscos.
Observei a região.
Alguns contaminados estavam próximos da passagem. Outros vagavam entre os veículos.
Minha chance parecia pequena.
Mas ficar dentro do carro esperando também não era uma estratégia.
Precisava criar uma distração.
Olhei para a rua e depois para o painel do veículo.
Tive uma ideia.
Não era bonita.
Não era elegante.
Mas poderia funcionar.
Preparei minhas coisas, conferi a arma e peguei a água. Deixei parte dos objetos que não conseguiria carregar naquele momento.
Liguei o carro.
O motor pareceu absurdamente alto dentro daquele estacionamento.
Por um instante, os contaminados mais próximos interromperam seus movimentos.
Então acionei a buzina e avancei contra uma pilha de objetos próxima à passagem, produzindo um estrondo que ecoou pelo estacionamento.
O resultado foi imediato.
A maioria deles se virou em direção ao barulho.
Um após o outro, começaram a caminhar naquela direção.
— Isso... vão lá.
Não esperei para descobrir quanto tempo aquela distração duraria.
Abri a porta e saí.
Corri.
Meus passos ecoavam pelo concreto enquanto atravessava a área do estacionamento.
Atrás de mim, ouvi o som de alguma coisa caindo e o alarme de outro veículo começando a disparar.
Não olhei.
Alcancei a escadaria e comecei a subir.
Um degrau.
Dois.
Três.
Minha respiração estava acelerada.
Subi mais um lance.
E outro.
Quando finalmente alcancei uma posição de onde conseguia observar a rua, parei.
O que vi fez meu estômago se contrair.
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A CIDADE DOS MORTOS
A cidade havia mudado.
Não existia uma maneira melhor de descrever aquilo.
Pessoas estavam sendo atacadas nas calçadas. Algumas corriam desesperadamente, enquanto outras tentavam entrar em estabelecimentos comerciais.
Um carro atravessou o cruzamento em alta velocidade e bateu contra outro veículo.
O impacto produziu um barulho ensurdecedor.
Vários contaminados mudaram de direção.
Outros se aglomeraram ao redor dos carros parados.
Havia pessoas tentando sair pelas janelas.
Uma delas conseguiu abrir a porta, mas foi puxada de volta para dentro.
Não consegui ver o que aconteceu depois.
Mais adiante, duas pessoas brigavam por uma sacola de alimentos.
Uma terceira tentou interferir.
Acabou no chão.
Fiquei observando por alguns segundos.
Era difícil acreditar que tudo aquilo estava acontecendo na mesma cidade onde, algumas horas antes, pessoas reclamavam do trânsito, discutiam sobre trabalho e planejavam o final de semana.
Agora, tudo parecia ter sido substituído por uma única necessidade.
Sobreviver.
Afastei-me da escadaria.
Precisava encontrar suprimentos.
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A LOJA
Encontrei uma loja de roupas relativamente próxima.
A porta estava entreaberta.
Entrei rapidamente.
O estabelecimento estava bagunçado. Algumas prateleiras haviam sido derrubadas e havia roupas espalhadas pelo chão.
Não perdi tempo escolhendo nada.
Procurei uma mochila.
Encontrei uma de tamanho razoável e comecei a guardar algumas peças de roupa, os medicamentos e os suplementos que consegui localizar.
Peguei mais alguns itens que poderiam ser úteis.
Não sabia quanto tempo ficaria longe de casa.
Precisava aproveitar aquela oportunidade.
Foi quando ouvi uma voz.
— Ei!
Virei imediatamente.
Havia um homem na entrada.
Era mais velho do que eu, talvez estivesse na casa dos quarenta. Segurava um bastão de madeira e observava a mochila.
Seus olhos passaram pelos objetos que eu havia separado.
Depois voltaram para mim.
— Deixa isso aí.
Não respondi imediatamente.
Ele deu um passo para dentro.
— Estou falando com você, moleque. Deixa a mochila.
Olhei para o bastão.
Depois para as mãos dele.
— Não estou procurando problemas.
— Então larga a mochila.
— Tem outras coisas na loja. Pode pegar o que quiser.
Ele soltou uma risada nervosa.
— Você acha que eu sou idiota?
Apertei a alça da mochila.
— Último aviso. Fica onde está.
O homem não pareceu levar aquilo a sério.
Talvez estivesse desesperado.
Talvez acreditasse que eu fosse apenas mais um sujeito assustado tentando bancar o corajoso.
Ele ergueu o bastão.
— Vou pegar isso de você.
E avançou.
Tudo aconteceu muito rápido.
O bastão passou perto do meu rosto e atingiu uma prateleira atrás de mim.
O impacto espalhou alguns objetos pelo chão.
Recuar não era mais uma opção simples.
Tentei afastá-lo, mas ele me agarrou pela roupa e tentou puxar a mochila.
— SOLTA!
Consegui me desvencilhar.
Ele perdeu o equilíbrio por um instante, mas voltou a avançar.
Foi quando percebi que não tinha intenção de parar.
Minha mão foi até a Glock.
— Eu avisei.
O homem só percebeu a arma quando já era tarde.
Sua expressão mudou.
Por uma fração de segundo, pareceu entender a situação.
Mas continuou vindo.
O disparo rompeu o silêncio da loja.
BANG!
O som foi tão alto que meus ouvidos zuniram imediatamente.
O homem caiu.
O bastão escapou de sua mão e deslizou pelo chão.
Fiquei imóvel.
A Glock ainda estava apontada em sua direção.
Meu coração batia violentamente.
— Merda...
Olhei para o homem.
Depois para a arma.
Depois para a porta.
Eu havia acabado de disparar contra outro ser humano.
Não era um contaminado.
Não era uma criatura que ignorava a dor.
Era uma pessoa.
E agora estava caída diante de mim.
Por alguns segundos, tentei processar o que havia acontecido.
Mas então ouvi alguma coisa do lado de fora.
Um gemido.
Depois outro.
Vários.
Meu olhar se voltou lentamente para a entrada.
Não.
Não, não, não.
O disparo tinha sido alto demais.
Muito alto.
— Merda! MERDA!
Aquela vitória havia acabado de se transformar em outro problema.
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A CORRIDA
— OS INFECTADOS ESTÃO VINDO!
A voz de alguém ecoou pela rua.
Olhei pela entrada e vi várias pessoas correndo.
Entre elas, um rapaz usando um boné e carregando uma mochila de entregador.
Ele passou rapidamente pelo estabelecimento e desapareceu na esquina.
Um segundo depois, ouvi um motor.
Uma motocicleta.
O som aumentou e, pouco depois, começou a se afastar.
Olhei para a rua.
Os contaminados estavam vindo na direção da loja.
Alguns já haviam alcançado a calçada.
Outros caminhavam pelo meio da rua, atraídos pelos sons produzidos pelo tumulto.
Não havia tempo.
Coloquei a mochila nas costas, guardei a Glock e saí pela lateral do estabelecimento.
Comecei a correr.
Os gritos ficavam cada vez mais próximos.
Passei por uma lixeira caída, atravessei uma passagem estreita e virei em uma rua secundária.
Minha respiração estava ficando pesada.
A mochila parecia pesar mais a cada passo.
O mapa.
Parei por uma fração de segundo.
O mapa estava no carro.
Eu havia passado horas planejando aquelas rotas e, na pressa, esquecido justamente o papel que continha todas elas.
— Seu idiota...
Não havia como voltar.
Tentei recuperar mentalmente o caminho que havia estudado. Lembrava de algumas ruas, mas não tinha certeza sobre as conexões entre elas.
Continuei andando, procurando um lugar onde pudesse me esconder.
Foi então que encontrei uma escada de emergência.
Uma daquelas estruturas metálicas utilizadas para evacuação em incêndios.
O problema era que ela estava recolhida.
Observei a estrutura.
Não alcançava a primeira parte.
Olhei ao redor.
Havia uma lixeira grande próxima à parede.
Não era ideal, mas talvez servisse.
Agarrei a lateral do recipiente e tentei arrastá-lo.
O metal raspou contra o chão.
O barulho fez meu coração disparar.
Olhei para trás.
Uma figura apareceu no fim da rua.
Depois outra.
— Ah, vamos...
Consegui posicionar a lixeira próximo da parede.
Subi nela, estiquei o braço e tentei alcançar a escada.
Meus dedos tocaram o metal.
Não consegui segurá-la direito.
Tentei novamente.
Dessa vez, consegui puxar.
A estrutura desceu com um estrondo.
O barulho ecoou pelo beco.
Olhei para trás.
As figuras estavam mais próximas.
Subi.
Um degrau.
Dois.
Três.
O metal rangeu sob meu peso.
Ouvi um gemido logo abaixo.
Não olhei.
Continuei subindo até alcançar uma pequena plataforma.
Quando finalmente consegui atravessar a passagem, puxei a escada tanto quanto pude e me afastei da entrada.
Fiquei sentado contra a parede.
Respirando.
Suando.
Com os músculos tremendo.
Lá embaixo, os contaminados continuavam caminhando.
Um deles parou próximo à escada.
Levantou a cabeça.
Ficou olhando para cima.
Meu corpo inteiro ficou rígido.
Por alguns segundos, tive a impressão de que aquela coisa conseguia me enxergar.
Mas ela apenas abriu a boca.
E começou a emitir um som baixo e desagradável.
Não me movi.
Não respirei direito.
Esperei.
Finalmente, ela se afastou.
Fechei os olhos.
Acho que nunca fiquei tão feliz por estar em uma escada.
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A PRIMEIRA NOITE
O céu estava escurecendo.
Eu havia conseguido alcançar uma pequena área elevada, próxima à estrutura de emergência.
Não era confortável.
Não era seguro.
Mas, naquele momento, era o melhor que eu tinha.
Apoiei a mochila ao meu lado e examinei os objetos que havia conseguido recolher.
Água.
Medicamentos.
Roupas.
Suplementos.
A Glock.
Não era muita coisa.
Mas era alguma coisa.
Lá embaixo, a cidade continuava viva de uma maneira que eu não gostaria de testemunhar novamente.
Gritos surgiam de diferentes direções.
Alguns eram curtos.
Outros pareciam não terminar.
Havia fumaça subindo entre os prédios e, em algum lugar distante, uma construção estava em chamas.
As sirenes continuavam tocando.
Uma atrás da outra.
E, entre todos aqueles sons, existia algo ainda pior.
O silêncio repentino.
Às vezes, uma rua ficava completamente quieta por alguns segundos.
Então um grito começava.
E tudo recomeçava.
Peguei o celular.
A bateria ainda estava relativamente boa.
Havia uma nova mensagem.
Meu coração acelerou.
Era da minha família.
Abri.
Eles haviam conseguido chegar ao local combinado.
Segundo a mensagem, encontraram outros sobreviventes. Algumas pessoas estavam ajudando a organizar o abrigo e havia idosos entre os resgatados.
Um médico também estava com o grupo.
Li a mensagem duas vezes.
Depois uma terceira.
Pela primeira vez naquele dia, senti algo próximo de alívio.
Eles estavam vivos.
Pelo menos por enquanto.
Apoiei a cabeça contra a parede e soltei o ar.
— Graças a Deus...
Respondi rapidamente.
Pedi que tomassem cuidado, evitassem sair e não confiassem facilmente em desconhecidos.
Escrevi que estava a caminho.
Que tentaria chegar o mais rápido possível.
Depois desliguei o celular para economizar bateria.
Fiquei olhando para a tela escura durante alguns segundos.
Havia muitas coisas que eu gostaria de dizer.
Mas não sabia como.
Talvez porque, no fundo, ainda não tivesse aceitado o que estava acontecendo.
Guardei o aparelho.
Apoiei a mochila sobre as pernas e olhei para a cidade.
Aquela seria minha primeira noite.
Eu não tinha um abrigo adequado.
Não sabia quantas pessoas ainda estavam vivas.
Não sabia o que eram aquelas criaturas.
E, para piorar, havia acabado de descobrir que algumas pessoas estavam dispostas a matar por uma mochila.
Fechei os olhos por um instante.
Um som metálico veio de algum lugar abaixo da plataforma.
Abri os olhos.
Fiquei imóvel.
Outro som.
Dessa vez, mais próximo.
Olhei lentamente para a escada.
Havia algo se movimentando lá embaixo.
Não consegui enxergar direito.
Apertei a alça da mochila.
E esperei.
Fim do capítulo 1.