Pular para o conteúdo
Carregando…

Capítulo 10.1 — Lembrança

Monarca

Conteúdo da publicação

Ponto de vista: Desconhecido

O labirinto parecia não ter fim.

Eu já havia perdido a conta de quantas vezes percorrera os mesmos corredores. As paredes se moviam quando eu não estava olhando, passagens desapareciam sem deixar vestígios e caminhos que antes terminavam em becos sem saída surgiam diante de mim como se sempre tivessem existido.

Não sabia quanto tempo havia passado desde que entrara naquele lugar.

Horas? Dias?

Talvez mais.

A única certeza que possuía era de que continuar parada não me levaria a lugar algum.

Apoiei a mão contra a parede fria e respirei fundo.

— Sinceramente… quem foi o idiota que construiu isso?

Minha voz ecoou pelo corredor vazio.

Nenhuma resposta.

— É claro. Seria pedir demais encontrar alguém disposto a explicar alguma coisa.

Continuei caminhando.

O ar estava úmido, impregnado pelo cheiro de pedra antiga. Em alguns trechos, pequenas gotas escorriam pelas paredes; em outros, o chão apresentava rachaduras tão profundas que eu não conseguia enxergar o fundo.

A escuridão não era completa. Uma luminosidade fraca, cuja origem eu desconhecia, permitia distinguir o caminho alguns metros à frente.

Era suficiente para caminhar.

Não para me sentir segura.

Depois de mais uma curva, percebi algo diferente.

O corredor havia terminado.

Diante de mim erguia-se uma porta gigantesca de metal escurecido. Sua superfície estava marcada por riscos e símbolos que eu não reconhecia. As dobradiças pareciam antigas, mas não havia ferrugem nelas.

Fiquei alguns instantes observando.

— Finalmente…

Aproximei-me e coloquei a mão sobre a porta.

Esperava encontrar resistência. Talvez precisasse empurrá-la com toda a força ou procurar algum mecanismo escondido.

Entretanto, bastou um toque.

Um rangido agudo atravessou o silêncio.

Dei um passo para trás, surpresa, enquanto a estrutura se abria lentamente.

— Ah… então era só isso?

Do outro lado havia apenas escuridão.

Uma escuridão tão profunda que a fraca luz do corredor parecia desaparecer ao atravessar a entrada.

Hesitei.

Não seria inteligente entrar em um lugar desconhecido depois de passar tanto tempo perdida.

Por outro lado, permanecer ali também não parecia uma opção particularmente inteligente.

— Bem… já cheguei até aqui.

Atravessei a porta.

Assim que meus pés tocaram o chão do outro lado, ouvi um estalo.

Depois outro.

E mais outro.

Tochas começaram a se acender ao longo das paredes, uma após a outra, formando uma sequência de pequenas chamas que avançava para o interior da escuridão.

A luz revelou um salão colossal.

Seu teto era tão alto que mal conseguia distingui-lo. Colunas enormes sustentavam a estrutura, e o chão de pedra se estendia por uma distância absurda.

Centenas de pessoas poderiam se reunir ali sem dificuldade.

Mas não havia centenas de pessoas.

Havia apenas uma.

No centro do salão, uma figura permanecia suspensa por correntes presas ao teto e ao chão.

Parei imediatamente.

— O quê…?

Por um momento, imaginei estar diante de uma estátua.

A pessoa não se movia.

Seus braços estavam erguidos e afastados do corpo. Correntes envolviam seus pulsos, tornozelos e parte do tronco, mantendo-a completamente imobilizada.

Um pano escuro cobria sua cabeça.

Além disso, inúmeros papéis estavam colados sobre suas roupas, sua pele e as próprias correntes.

Aproximei-me devagar.

Quanto mais observava, mais estranha a cena se tornava.

Os papéis possuíam símbolos semelhantes aos que eu vira na porta. Havia outros espalhados pelo chão, pelas colunas e até pelas paredes.

Não pareciam simples decorações.

— Olá?

Minha voz se espalhou pelo salão.

A figura permaneceu imóvel.

— Ei! Você consegue me ouvir?

Esperei.

Nada.

Dei mais alguns passos.

Foi então que senti uma pontada na cabeça.

Levei a mão à testa.

— Ai…

A dor desapareceu quase tão rapidamente quanto surgira, mas deixou uma sensação desagradável.

Meu corpo parecia mais pesado.

Como se caminhar exigisse um esforço maior do que deveria.

Olhei ao redor.

Aquele lugar definitivamente não era normal.

Ainda assim, continuei.

Quando finalmente alcancei a pessoa acorrentada, percebi que ela respirava.

Fracamente.

Mas respirava.

— Então você está vivo…

Examinei as correntes.

Eram relativamente finas, embora numerosas. Algumas possuíam inscrições gravadas diretamente no metal.

Tentei tocar seu ombro.

Nenhuma reação.

— Vou tirar isso, está bem?

Segurei a borda do pano que cobria sua cabeça e o ergui um pouco.

Antes que pudesse removê-lo completamente, ouvi um murmúrio.

— *****…

Congelei.

— Você disse alguma coisa?

— *****… aqui…

A voz era baixa e rouca.

Parecia pertencer a alguém que não conversava havia muito tempo.

— Desculpe, não entendi.

A figura moveu a cabeça com dificuldade.

— Você…

Esperei, inclinando-me um pouco.

— Você não deveria estar aqui…

Havia preocupação naquela voz.

Não raiva.

Não ameaça.

Preocupação.

— Engraçado — respondi. — Eu estava prestes a dizer a mesma coisa.

Nenhuma resposta.

Suspirei.

— Certo. Primeiro vamos resolver esse problema.

Retirei cuidadosamente o pano.

Longos fios brancos caíram sobre os ombros da pessoa acorrentada.

Seu rosto era jovem.

Jovem demais para estar naquele estado.

A pele estava extremamente pálida, e as marcas deixadas pelos papéis contrastavam com sua aparência delicada.

Seus olhos permaneceram fechados por alguns segundos.

Então se abriram.

Vermelhos.

De um vermelho profundo, semelhante ao de brasas que continuavam acesas sob as cinzas.

Fiquei olhando por tempo demais.

Ele piscou, tentando se acostumar à luz.

— Você…

— Lindo.

A palavra escapou antes que eu pudesse pensar.

Ele pareceu esquecer o que pretendia dizer.

— …O quê?

Sorri.

— Seus olhos. São lindos.

O jovem me encarou, evidentemente confuso.

Talvez esperasse medo.

Talvez perguntas.

Certamente não um elogio.

Depois de alguns segundos, os cantos de seus lábios se ergueram discretamente.

Era um sorriso pequeno.

Quase imperceptível.

Mas estava ali.

— Ah! — apontei para ele. — Então você também sabe sorrir.

Ele abaixou ligeiramente a cabeça.

— Você é… estranha.

— Já me disseram isso.

— Gosta de brincar?

— Depende. Você gosta?

Por um instante, algo semelhante à nostalgia atravessou seu olhar.

— Conheço alguém que seria um ótimo amigo para você.

— Sério? Então pode me apresentar quando sairmos daqui.

O sorriso desapareceu.

Seus olhos voltaram a observar as correntes.

— Sair…

A maneira como repetiu aquela palavra me fez perceber que talvez ele já não considerasse essa possibilidade.

Aproximei-me um pouco mais.

— Por que você está preso aqui?

O silêncio se prolongou.

Ele parecia decidir se deveria responder.

Por fim, ergueu os olhos.

— Você acreditaria… se eu dissesse que feri um deus?

Pisquei.

Uma vez.

Duas.

— Espere.

Ele continuou me observando.

— Você disse… um deus?

Assentiu.

— Deuses realmente existem?

— Sim.

— Ah.

Olhei ao redor.

Depois para as correntes.

Depois novamente para ele.

— Bem… considerando tudo o que aconteceu comigo até agora, acho que essa é a parte menos absurda.

O jovem pareceu surpreso.

— Você não está com medo?

— De você?

Ele não respondeu.

— Deveria?

Seus olhos se estreitaram levemente.

— Não conhece aquilo que está diante de você.

— Isso não responde à minha pergunta.

Ele desviou o olhar.

— A entidade que me prendeu aqui não é como o deus que você conhece.

— E qual é a diferença?

— Existem coisas que não deveriam ser comparadas.

Fiquei em silêncio.

A resposta era vaga.

Mas havia algo em sua expressão que me impediu de insistir.

Não parecia estar tentando me impressionar com sua história.

Tampouco parecia orgulhoso de ter ferido uma divindade.

Parecia cansado.

Profundamente cansado.

Observei suas mãos.

Os dedos estavam imóveis, e os pulsos apresentavam marcas profundas.

— Há quanto tempo você está aqui?

Ele demorou a responder.

— Não sei.

— Como assim, não sabe?

— Deixei de contar.

Meu peito apertou.

Olhei novamente para o salão vazio.

Para os símbolos.

Para as correntes.

E tomei uma decisão.

Segurei uma delas com as duas mãos.

— O que está fazendo? — perguntou.

Puxei.

A corrente não se moveu.

Franzi a testa.

Tentei novamente, dessa vez usando o peso do corpo.

Nada.

— Que coisa irritante…

— Pare.

Ignorei o pedido.

— Essas correntes são muito mais pesadas do que parecem.

— Você precisa parar.

— Só um instante.

Puxei mais uma vez.

A dor em minha cabeça retornou.

Soltei o metal e respirei fundo.

Ele me observava com uma expressão difícil de compreender.

— Por quê?

— Por quê, o quê?

— Por que está tentando fazer isso?

Olhei para ele.

A resposta me parecia óbvia.

— Porque vou libertar você.

Seus olhos se arregalaram.

Durante alguns segundos, ele simplesmente me encarou.

Então sua expressão mudou.

— Não.

— Não?

— Não faça isso.

Sua voz estava mais firme.

— Você vai sofrer.

Inclinei a cabeça.

— Está preocupado comigo?

— Você não compreende.

— Provavelmente não.

Segurei outra corrente.

— Mas você feriu um deus, não foi?

Ele permaneceu em silêncio.

Sorri.

— Então, quando sair daqui, pode me proteger.

O jovem abaixou os olhos.

— Você não deveria confiar em mim.

— Talvez.

— Poderia estar libertando algo terrível.

— Também é possível.

Ele ergueu a cabeça, desconcertado.

— Então por quê?

Observei seu rosto por alguns instantes.

— Porque, neste momento, tudo o que vejo é alguém que precisa de ajuda.

Nenhum de nós falou depois disso.

O crepitar distante das tochas foi o único som que preencheu o salão.

Até que ele finalmente murmurou:

— As correntes não podem ser quebradas dessa maneira.

Olhei para minhas mãos.

— Percebi.

— São os selos.

— Selos?

Ele moveu os olhos na direção dos papéis presos ao metal.

— Enquanto permanecerem intactos… não poderei sair.

Examinei um deles.

O papel era amarelado e possuía símbolos desenhados em tinta escura.

— Isso?

— Sim.

— Você está dizendo que um pedaço de papel consegue segurar essas correntes?

— Não é apenas papel.

— Claro que não seria.

Suspirei.

— Certo. Como faço para remover?

Ele hesitou.

— Basta arrancá-los.

Olhei para ele.

Depois para o papel.

— Você poderia ter começado por essa parte.

Segurei a extremidade de um dos selos.

O jovem acompanhou cada movimento.

Por alguma razão, parecia mais assustado do que aliviado.

— Tem certeza? — perguntei.

Ele fechou os olhos.

— Não.

A resposta me fez hesitar.

Mas apenas por um instante.

— Então vamos descobrir juntos.

E arranquei o primeiro selo.


Thoughts

  • betinho20

    Oxe ele mesmo avisou que ela não devia estar ali e que ia sofrer, e ela foi lá e arrancou o selo. Quem mexe no selo primeiro é quem paga, véi

    Permalink
  • Monarca

    Não queria mostrar o passado agora, mas me deu vontade….

    Permalink

Publicações relacionadas

Pública 1 conversa 3 pensamentos 7 votos positivos 0 voto negativo 1 série

Ponto de vista: Desconhecido

Em séries

Em grupos