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Capítulo 10 — O Que Não Pode Se Repetir

Monarca

Conteúdo da publicação

A madrugada havia passado.

Mas, para Azrael, parecia que o tempo havia parado.

Sentado ao lado da cama, ele permanecia em silêncio.

Eriel estava inconsciente.

Seu rosto, normalmente sereno, estava pálido. Os cabelos castanho-escuros espalhavam-se sobre o travesseiro, algumas mechas cobrindo parte de sua testa.

Sua respiração era tranquila.

Regular.

Mas aquilo não diminuía a preocupação de Azrael.

Ele continuava olhando para ela.

Sem dizer uma palavra.

Ao lado de Eriel, Noir estava deitada.

A pequena garota segurava uma das mãos de Eriel entre as suas.

Uma quantidade pequena, mas constante, de mana passava de seu corpo para o dela.

Era quase imperceptível.

Uma luz muito fraca percorria os dedos de Noir antes de desaparecer na pele de Eriel.

Noir estava em silêncio.

Seus olhos roxos permaneciam fixos na garota adormecida.

Ela não parecia cansada.

Não parecia preocupada.

Mas Azrael sabia que aquela expressão vazia não significava ausência de sentimentos.

Noir estava preocupada.

À sua própria maneira.

Azrael desviou o olhar.

Eu deveria ter previsto isso.

Eriel havia usado sua habilidade.

Não porque alguém tivesse mandado.

Não porque estivesse treinando.

Ela simplesmente havia visto algo que não conseguia compreender e, instintivamente, tentado acompanhar.

O problema era que seu corpo ainda não estava preparado.

A quantidade de mana disponível era pequena.

Muito pequena.

E, ao forçar a habilidade, ela havia consumido praticamente tudo.

Mas havia algo ainda pior.

A fadiga.

Seu corpo havia acumulado todo o desgaste de uma vez.

Era como se ela tivesse passado horas lutando sem sequer perceber.

Azrael fechou os olhos.

Talvez tenha sido cedo demais.

Ele havia despertado aquela habilidade.

Sabia que isso poderia acontecer.

Mesmo assim...

Havia permitido.

— Talvez eu tenha cometido um erro.

Noir levantou os olhos.

— Não.

Azrael olhou para ela.

A menina continuava segurando a mão de Eriel.

— Você não errou.

— Ela está inconsciente.

— Ela vai acordar.

A resposta foi simples.

Certa.

Sem hesitação.

Azrael ficou alguns segundos em silêncio.

— Você tem tanta certeza?

Noir assentiu.

— Sim.

Azrael soltou um suspiro baixo.

Antes que pudesse responder, ouviu passos no corredor.

Passos rápidos.

Irritados.

Azrael reconheceu imediatamente.

A porta se abriu.

Alice entrou.

Naara vinha logo atrás.

Alice caminhou diretamente até Azrael.

Não disse nada.

Não perguntou nada.

Simplesmente levantou a mão.

PÁ!

O som do tapa ecoou pelo quarto.

Azrael virou lentamente o rosto.

Silêncio.

Noir continuou segurando a mão de Eriel.

Naara fechou os olhos por um instante.

Alice respirava profundamente.

Azrael levou a mão ao rosto.

— Isso foi necessário?

Alice encarou-o.

Seu rosto infantil parecia completamente deslocado diante daquela expressão.

— Foi.

Azrael virou novamente para ela.

— Achei que estivesse fingindo ser minha irmãzinha.

Alice estreitou os olhos.

— E estou.

— Difícil acreditar.

— Você sabe muito bem quem eu sou.

O tom dela havia mudado.

Não havia mais a voz infantil.

Não havia brincadeira.

Alice falava com a autoridade de alguém que já havia vivido tempo demais para aceitar desculpas.

Azrael permaneceu calado.

Alice apontou para Eriel.

— Olhe para ela.

Ele olhou.

— Você sabia que isso poderia acontecer.

— Sabia.

— E mesmo assim deixou.

Azrael não respondeu.

Alice deu um passo à frente.

— Se tivesse começado o treinamento dela desde o início, isso não teria acontecido.

— Alice...

— Não.

Ela o interrompeu.

— Não tente justificar.

Azrael apertou os dentes.

Alice continuou:

— Você passou dias evitando Eriel. Não contou nada. Não explicou nada. Não ensinou nada.

— Eu estava tentando protegê-la.

— Protegê-la?

Alice soltou uma risada curta.

Sem humor.

— Você chama isso de proteção?

Azrael ficou em silêncio.

Alice apontou novamente para a cama.

— Ela quase desmaiou tentando controlar algo que nem sabia que possuía.

— Ela ainda não está preparada.

— Então prepare-a!

A voz de Alice ecoou pelo quarto.

Noir levantou os olhos.

Naara permaneceu parada perto da porta.

Alice respirou fundo.

Quando voltou a falar, sua voz estava mais baixa.

— Você está cometendo o mesmo erro.

Azrael sentiu seu corpo ficar rígido.

— Não.

Alice o encarou.

— Está.

— Não fale disso.

— Por quê?

Azrael desviou o olhar.

Alice ficou alguns segundos observando-o.

Então pronunciou o nome.

— Eisheth.

Azrael mordeu o lábio.

Foi um movimento pequeno.

Quase imperceptível.

Mas Alice percebeu.

Naara também.

O quarto ficou silencioso.

Até mesmo Noir levantou os olhos.

Azrael respirou lentamente.

— Por que está trazendo esse passado de volta?

Alice respondeu imediatamente:

— Porque você precisa lembrar.

— Isso aconteceu há muito tempo.

— E daí?

— Não vai acontecer novamente.

Alice caminhou até ele.

— É exatamente isso que você pensa.

Azrael olhou para ela.

— O que quer dizer?

— Que você está com medo.

Ele não respondeu.

Alice continuou:

— Você tem tanto medo de perder Eriel que prefere mantê-la completamente protegida.

— Eu não tenho medo.

Alice quase sorriu.

— Você sempre mente melhor quando está irritado.

Azrael apertou os punhos.

Alice apontou para Eriel.

— Se continuar assim, ela nunca vai evoluir.

— Ela não precisa lutar agora.

— Precisa aprender.

— Eu posso protegê-la.

Alice balançou a cabeça.

— Não para sempre.

Azrael permaneceu imóvel.

— Um dia você não estará lá.

A frase atingiu algo dentro dele.

Alice continuou:

— E quando esse dia chegar, o que vai acontecer?

Silêncio.

— Se ela nunca aprender a controlar o próprio poder, ela vai morrer.

Azrael olhou novamente para Eriel.

A respiração dela continuava tranquila.

Tão tranquila que parecia impossível imaginar que algumas horas antes ela havia estado prestes a perder a consciência diante dele.

Alice baixou a voz.

— Você quer que ela morra novamente?

Azrael levantou os olhos.

— Eriel nunca morreu.

Alice ficou em silêncio por um instante.

Então respondeu:

— Essa versão dela, não.

O ar pareceu ficar pesado.

Azrael não respondeu.

Alice fechou os olhos.

— Você sabe exatamente o que estou dizendo.

Ele sabia.

Sabia melhor do que qualquer pessoa naquela sala.

O passado não precisava ser explicado.

Não para eles.

— Se continuar tratando-a como alguém que precisa ser protegida de tudo — continuou Alice —, quando chegar o momento em que ela realmente precisar ser forte, não vai conseguir.

Azrael passou a mão pelos cabelos.

— Eu sei.

— Então pare.

— Não é tão simples.

— Nunca foi.

Alice cruzou os braços.

— Você não pode impedir o destino apenas segurando a mão dela.

Azrael olhou para Noir.

A pequena garota ainda estava junto de Eriel.

— E se eu perder o controle?

Alice não respondeu imediatamente.

Naara finalmente se moveu.

Ela caminhou até os dois.

— Princesa.

Alice olhou para ela.

— Acalme-se.

Alice soltou o ar lentamente.

— Eu estou calma.

Naara arqueou levemente uma sobrancelha.

— Certamente.

Alice bufou.

— Eu só estou cansada de ver meu irmão mais novo cometer os mesmos erros.

Azrael soltou uma pequena risada.

— Irmão mais novo?

Alice olhou para ele.

— Não comece.

— Foi você quem começou.

— Eu posso bater novamente.

— Entendi.

Naara suspirou.

Por alguns segundos, ninguém falou.

Então Alice olhou novamente para Eriel.

Sua expressão suavizou.

— Eu fui cruel.

Azrael não respondeu.

— Falei coisas que talvez não devesse ter falado.

Ela olhou para ele.

— Mas você precisava ouvir.

Azrael permaneceu sentado.

Depois de alguns segundos, assentiu.

— Você tem razão.

Alice pareceu surpresa.

— Isso foi fácil.

— Não se acostume.

Ela sorriu discretamente.

Azrael voltou a olhar para Eriel.

— Amanhã.

Alice esperou.

— Amanhã eu vou contar algumas coisas para ela.

Naara permaneceu em silêncio.

— E vou começar o treinamento.

Alice assentiu.

Azrael fechou os olhos.

— Eu não posso passar o resto da vida tentando impedir que aconteça com Eriel o que aconteceu com Eisheth.

Sua voz ficou baixa.

— Se eu continuar com medo...

Ele olhou para Eriel.

— ...vou acabar tornando-a fraca.

Alice não respondeu.

Dessa vez, não precisava.

Noir apertou suavemente a mão de Eriel.

Azrael permaneceu observando as duas.

Talvez aquele fosse o momento em que tudo começaria a mudar.

Ele não sabia se estava preparado.

Não sabia se Eriel estava.

Mas havia uma coisa que sabia.

Não poderia continuar escondendo a verdade dela.

Não poderia protegê-la de tudo.

Porque, algum dia, Eriel precisaria caminhar sozinha.

E quando esse dia chegasse...

Azrael queria ter certeza de que ela estaria pronta.



Thoughts

  • Petronilha

    A Alice dar o tapa e depois admitir que foi cruel me pareceu irmã mais velha de verdade, minha filha. E agora o passado tem nome, Eisheth. Pelo jeito a Eriel é outra vida dessa moça, e o Azrael já perdeu ela uma vez por medo de ensinar.

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