Pular para o conteúdo
Carregando…

Capitulo Final - O que escolhemos viver

AllyneMaia

Conteúdo da publicação

CAPÍTULO FINAL — O QUE ESCOLHEMOS VIVER

Clara

Algumas histórias terminam no momento em que duas pessoas se despedem.

A nossa não.

A nossa precisou de anos.

Precisou de distância, escolhas, erros, sonhos, medo e silêncio.

Precisou que cada um seguisse seu próprio caminho para descobrir quem era antes de conseguir olhar novamente para o outro.

Durante muito tempo, pensei que o nosso reencontro seria sobre recuperar alguma coisa que havíamos perdido.

Hoje sei que não foi.

Nós não voltamos a ser quem éramos.

Nós nos conhecemos novamente.

E talvez essa tenha sido a parte mais bonita de tudo.


Depois daquela conversa, nada aconteceu de uma hora para outra.

Não houve uma promessa de que tudo seria perfeito.

Não decidimos que, dali em diante, nunca mais teríamos medo.

Não apagamos os anos em que estivemos separados.

Apenas começamos.

Devagar.

Como havíamos prometido.

Pedro voltou para sua rotina.

Eu voltei para a minha.

Mas alguma coisa havia mudado.

Agora existia um "nós" entre os meus dias.

Uma mensagem de bom-dia.

Uma ligação no meio da tarde.

Um "cheguei" no fim do dia.

Conversas que começavam falando sobre trabalho e terminavam em lembranças da adolescência.

Risadas.

Pequenos planos.

Alguns desencontros.

E também conversas difíceis.

Porque amar alguém não transforma a vida em um lugar sem problemas.

A diferença é que, dessa vez, nós conversávamos.

Quando eu estava cansada demais para explicar alguma coisa, aprendia a dizer.

Quando ele se sentia inseguro, aprendia a falar.

E, aos poucos, fomos descobrindo que aquilo que quase nos separou no passado podia se tornar justamente aquilo que nos aproximaria agora.


Pedro continuou trabalhando.

Eu continuei cuidando da empresa.

Minha vida profissional não diminuiu porque ele entrou nela.

E a vida dele também não precisou desaparecer para caber na minha.

Aprendemos a dividir espaço.

Não a perder identidade.

Eu continuava sendo Clara.

A mulher que gostava de trabalhar, viajar, fazer planos e construir coisas.

Ele continuava sendo Pedro.

O homem que tinha seus sonhos, seus medos, seu trabalho e sua própria história.

Mas agora existia uma diferença.

Não precisávamos mais carregar tudo sozinhos.

Quando um dia era difícil para mim, eu sabia para quem ligar.

Quando alguma coisa dava errado para ele, eu queria estar perto.

E descobrimos que companheirismo não estava nos grandes gestos.

Estava no cotidiano.

No café.

Na conversa antes de dormir.

No abraço depois de um dia ruim.

Na pergunta:

— Você está bem?

E na resposta sincera:

— Hoje não muito.

Sem precisar fingir.


Meses depois, em uma manhã qualquer, acordei antes de Pedro.

Fiquei alguns minutos observando-o dormir.

E achei curioso pensar em quantas vezes, anos atrás, eu havia imaginado como seria ter aquele homem novamente na minha vida.

Só que nenhuma das minhas fantasias tinha mostrado aquilo.

A vida real era muito mais simples.

E muito mais bonita.

Ele dormia de um jeito completamente desajeitado.

Eu tinha trabalho esperando por mim.

Havia contas.

Compromissos.

Problemas.

Planos.

A louça do café da noite anterior.

Uma mensagem de Helena que eu ainda precisava responder.

Nada parecia extraordinário.

E, ainda assim, eu sorri.

Porque finalmente havia entendido.

Eu não precisava de uma vida extraordinária para ser feliz.

Eu queria uma vida verdadeira.

E aquela era.


Levantei-me e fui até a cozinha.

Comecei a preparar o café.

Pouco depois, senti dois braços envolvendo minha cintura.

Sorri antes mesmo de me virar.

— Bom dia.

Pedro beijou meu rosto.

— Bom dia.

— Dormiu bem?

— Melhor agora.

Revirei os olhos.

— Você continua com essas frases.

— E você continua gostando.

Eu ri.

— Talvez.

Ele pegou uma xícara.

Ficamos ali, lado a lado.

Sem música.

Sem vinho.

Sem uma noite inesquecível.

Apenas nós dois tomando café em uma manhã comum.

E foi justamente naquele momento que percebi que aquela era a cena que eu mais havia desejado.

Não o reencontro.

Não o primeiro beijo.

Não a noite em que finalmente ficamos juntos.

Era aquilo.

A rotina.

A certeza de que alguém estaria ali quando o dia começasse.


Depois do café, enquanto eu organizava algumas coisas, Pedro se aproximou.

— Clara.

— Hum?

— Você se lembra do que eu escrevi naquele bilhete?

Parei.

Olhei para ele.

— Lembro.

Ele sorriu.

— Eu ainda penso naquela frase.

Senti meu coração aquecer.

— Eu também.

— E você ainda acha que foi exagerada?

Ri.

— Na época, um pouco.

— E agora?

Aproximei-me dele.

— Agora eu acho que você foi corajoso.

Ele sorriu.

— Então funcionou?

— O quê?

— O café.

Balancei a cabeça.

— Funcionou.

Ele me abraçou.

E eu encostei o rosto em seu peito.

Naquele instante, lembrei de tudo.

Da menina que eu fui.

Da mulher que precisei me tornar.

Dos sonhos que persegui.

Dos caminhos que escolhi.

Das coisas que perdi.

E de tudo aquilo que a vida havia me devolvido de uma maneira que eu jamais poderia ter planejado.


Pedro

Às vezes ainda penso no homem que eu era quando Clara foi embora.

Eu queria dizer àquele homem que ele não precisava ter tanto medo.

Que amar alguém não significava ser perfeito.

Que não precisava ter a vida completamente resolvida para merecer estar ao lado de alguém.

Que a mulher que ele amava não precisava que ele fosse maior do que ela.

Precisava apenas que ele tivesse coragem de caminhar junto.

Mas talvez ele precisasse descobrir isso sozinho.

Talvez todos nós precisemos.

Hoje, quando olho para Clara, não vejo mais a menina que conheci.

E isso não significa que esqueci quem ela foi.

Pelo contrário.

Aquela menina faz parte da mulher que está diante de mim.

Mas agora eu conheço outras versões dela.

Conheço a mulher cansada depois de um dia difícil.

A mulher que fica em silêncio quando alguma coisa a preocupa.

A mulher que ri das próprias distrações.

A mulher que luta pelo que acredita.

A mulher que tem medo, mas continua.

A mulher que ainda sonha.

E é essa mulher que eu escolho.

Todos os dias.

Não porque o passado nos obriga.

Mas porque o presente me permite.


Aprendi que algumas pessoas chegam cedo demais à nossa vida.

Não porque o amor seja errado.

Mas porque nós ainda não sabemos quem somos.

Clara e eu talvez tenhamos sido assim.

Quando éramos mais jovens, sentíamos muito e compreendíamos pouco.

Hoje sentimos de uma maneira diferente.

Com mais calma.

Mais consciência.

Mais responsabilidade.

E talvez seja isso que tornou possível aquilo que parecia impossível.

Não voltamos no tempo.

Nós crescemos.

E nos encontramos novamente.


Clara

Naquela noite, meses depois, estávamos sentados do lado de fora da casa.

O céu estava limpo.

Pedro segurava minha mão.

Fiquei olhando para as estrelas por alguns minutos.

— No que você está pensando? — ele perguntou.

Sorri.

— Em tudo.

— Tudo o quê?

— Em nós.

Ele apertou minha mão.

— E o que você concluiu?

Olhei para ele.

— Que eu teria feito muita coisa diferente.

Ele ficou sério.

— Você se arrepende?

Pensei antes de responder.

— De algumas escolhas, sim.

— E mudaria tudo?

Balancei a cabeça.

— Não.

Ele pareceu surpreso.

— Não?

— Não.

Sorri.

— Porque, se eu mudasse tudo, talvez não chegasse até você como cheguei.

Pedro ficou em silêncio.

— A mulher que está aqui hoje foi construída por tudo aquilo que vivi.

Apertei sua mão.

— Inclusive pelo que perdi.

Ele levou minha mão aos lábios e a beijou.

— Então talvez nada tenha sido perdido completamente.

Sorri.

— Talvez algumas coisas apenas tenham demorado para encontrar o caminho de volta.


Fiquei olhando para ele.

E pensei em como a vida era curiosa.

Eu havia passado anos acreditando que precisava controlar tudo.

Minha carreira.

Meus planos.

Meu futuro.

Minhas escolhas.

Mas a parte mais importante da minha história não havia acontecido quando eu planejei.

Aconteceu quando eu menos esperava.

No meio de uma estrada.

Em um encontro inesperado.

Em um carro quebrado.

Em um café preparado de manhã.

Em uma conversa que demoramos anos para ter.

E, principalmente, na escolha de duas pessoas que decidiram não fugir novamente.


Pedro encostou a cabeça na minha.

— Você está feliz?

Sorri.

— Estou.

— Tem certeza?

Olhei para ele.

— Tenho.

Ele sorriu.

— Eu também.

Ficamos em silêncio.

Mas, dessa vez, o silêncio não assustava.

Não escondia perguntas.

Não carregava medo.

Era apenas silêncio.

Um daqueles silêncios tranquilos que existem quando não precisamos provar nada.

E foi então que compreendi o verdadeiro significado de tudo aquilo.

Durante muito tempo, pensei que nossa história fosse sobre duas pessoas que haviam se perdido.

Depois pensei que fosse sobre duas pessoas que haviam se reencontrado.

Mas agora sabia que era mais do que isso.

Era sobre duas pessoas que precisaram aprender a se escolher sem abandonar a si mesmas.

Eu não precisava deixar de ser Clara para amar Pedro.

Pedro não precisava deixar de ser Pedro para estar comigo.

Não precisávamos voltar aos dezessete anos.

Não precisávamos apagar nossas histórias.

Não precisávamos fingir que nada havia acontecido.

Precisávamos apenas aceitar que o amor também pode chegar depois daquilo que imaginamos ser o fim.


Levantei-me.

Pedro estendeu a mão.

Segurei.

Caminhamos juntos de volta para casa.

E, enquanto fechava a porta atrás de nós, pensei na menina que um dia fui.

Ela provavelmente teria imaginado um amor cheio de grandes declarações.

Eu também imaginei.

Mas a mulher que eu me tornei queria outra coisa.

Queria alguém que ficasse.

Queria alguém com quem pudesse conversar.

Queria alguém que respeitasse meus sonhos.

Queria alguém que não me pedisse para escolher.

Queria alguém que segurasse minha mão nos dias bons e nos dias difíceis.

Queria uma vida real.

E, naquela noite, percebi que era exatamente isso que eu tinha.

Não uma história perfeita.

Uma história nossa.


Pedro me abraçou por trás enquanto eu apagava as luzes.

— Boa noite, Clara.

Sorri.

— Boa noite, Pedro.

Antes de dormir, ele segurou minha mão.

E eu fechei os olhos.

Sem medo do amanhã.

Sem necessidade de saber exatamente o que viria depois.

Porque, pela primeira vez, eu havia entendido que talvez o futuro não precisasse ser controlado.

Algumas coisas simplesmente precisavam ser vividas.

E a nossa história não terminava ali.

Na verdade, talvez aquela fosse a primeira vez em que ela realmente começava.

Porque depois de tudo o que vivemos, de tudo o que perdemos e de tudo o que aprendemos, finalmente havíamos chegado ao lugar que durante tantos anos parecia impossível:

um ao outro.

E dessa vez, não era uma lembrança.

Era o presente.

Era a escolha.

Era a nossa vida.

E, no fim, descobrimos que algumas histórias não precisam acontecer no tempo certo.
Elas só precisam encontrar duas pessoas prontas para vivê-las.

 

Thoughts

  • folhaSolta

    Gostei muito do Pedro perguntando se o café tinha funcionado. A série acabar numa xícara de manhã, sem festa, é a cara da Clara.

    Permalink

Publicações relacionadas

Pública 0 conversa 1 pensamento 7 votos positivos 0 voto negativo 1 série

Algumas histórias terminam no momento em que duas pessoas se despedem.

Em séries

Em grupos