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Capítulo 7 — O Dragão Branco

Monarca

Conteúdo da publicação

Não havia céu.

Ou talvez houvesse.

Eriel não conseguia dizer.

Quando abriu os olhos, a primeira coisa que sentiu foi o cheiro.

Flores.

Um perfume suave, quase impossível de descrever, espalhava-se pelo ar.

Ela piscou algumas vezes.

Sua visão estava embaçada.

Por alguns segundos, permaneceu imóvel, tentando entender onde estava.

O chão sob seu corpo era macio.

Não era terra.

Era grama.

E, quando finalmente conseguiu enxergar com clareza, Eriel se levantou lentamente.

Parou.

Seus olhos se arregalaram.

— Onde...?

Ela não terminou a frase.

O lugar diante dela era simplesmente grande demais.

Um campo.

Um campo de flores que parecia não possuir fim.

Flores de todas as cores cobriam a paisagem até onde seus olhos conseguiam alcançar.

Algumas eram pequenas e delicadas.

Outras ultrapassavam sua cintura.

Havia flores que ela nunca havia visto antes.

Algumas brilhavam suavemente, como se pequenos pontos de luz estivessem presos em suas pétalas.

Outras se movimentavam mesmo sem haver vento.

Eriel deu um passo.

Depois outro.

O som de seus pés sobre a grama era praticamente inexistente.

Ela olhou para trás.

Nada.

Nenhuma estrada.

Nenhuma casa.

Nenhuma parede.

Nenhuma porta.

Apenas flores.

— Isso é um sonho?

Sua voz pareceu pequena naquele lugar.

Ela esperou.

Nenhuma resposta.

Eriel olhou para as próprias mãos.

Estavam normais.

Seu corpo também.

Não havia ferimentos.

Não havia sangue.

Nada.

— Eu estava na casa...

Tentou lembrar.

Havia ido dormir.

Ou talvez estivesse apenas descansando.

Ela não conseguia lembrar.

Quanto mais tentava recuperar as memórias, mais sua cabeça parecia pesada.

Então percebeu algo.

No centro daquele campo havia uma árvore.

Uma árvore gigantesca.

Eriel nunca havia visto algo parecido.

Seu tronco era tão largo que provavelmente seriam necessárias dezenas de pessoas para abraçá-lo.

As raízes se espalhavam pelo campo como enormes serpentes adormecidas.

Seus galhos subiam.

Subiam.

E continuavam subindo.

Até desaparecerem muito acima.

Parecia tocar o próprio céu.

As folhas eram de um verde profundo, mas entre elas havia pequenas luzes douradas.

Eriel ficou olhando.

Havia algo naquela árvore.

Uma sensação.

Como se ela estivesse olhando para algo que existia muito antes dela.

Algo que já estava ali quando ninguém sequer havia pensado em nascer.

Ela começou a caminhar naquela direção.

A cada passo, o silêncio parecia ficar maior.

Foi então que ouviu um som.

Um som baixo.

Profundo.

Quase imperceptível.

Eriel parou.

— O que foi isso?

Escutou novamente.

Um ruído grave.

Como uma respiração.

Ela virou lentamente a cabeça.

Seu coração disparou.

Entre as flores, a poucos metros de distância, havia algo enorme.

Muito enorme.

No começo, Eriel não conseguiu compreender o que estava vendo.

Parecia uma montanha branca.

Mas então a criatura se moveu.

Escamas.

Brancas como neve.

Uma cabeça gigantesca estava apoiada sobre as patas dianteiras.

As asas estavam recolhidas junto ao corpo.

Seu corpo ocupava uma área enorme do campo.

Era um dragão.

Um dragão branco.

Eriel deu um passo para trás.

Depois outro.

O coração batia tão forte que ela conseguia senti-lo no peito.

A criatura estava dormindo.

Ou parecia estar.

Seu peito subia e descia lentamente.

Cada respiração produzia uma corrente de ar que fazia as flores próximas se curvarem.

Eriel engoliu em seco.

— Um dragão...

A palavra saiu como um sussurro.

Ela nunca havia visto um.

Na verdade, até aquele momento, nunca havia acreditado que realmente existissem.

Mas aquele ser estava ali.

Diante dela.

E era tão majestoso que parecia pertencer a uma época diferente do mundo.

A pele branca refletia a luz de uma maneira quase sobrenatural.

Havia pequenas marcas sobre algumas escamas, semelhantes a cicatrizes antigas.

Os chifres eram longos e elegantes.

E suas asas, mesmo dobradas, pareciam capazes de cobrir uma parte inteira daquele campo.

Eriel não sabia se deveria fugir.

Uma parte dela queria correr.

Outra queria continuar olhando.

A curiosidade venceu.

Ela deu mais um passo.

O dragão abriu os olhos.

Eriel congelou.

Dois olhos enormes se abriram lentamente.

Eram de uma tonalidade profunda.

Belos.

Antigos.

Inteligentes.

Muito mais inteligentes do que os olhos de qualquer animal que Eriel já havia visto.

A criatura ergueu a cabeça.

O movimento foi lento.

Mas a simples ação fez o chão estremecer levemente.

Eriel não conseguiu se mover.

O dragão a encarou.

Durante alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.

Então uma voz ecoou.

Não veio exatamente da boca do dragão.

Parecia surgir dentro da própria mente de Eriel.

Uma voz feminina.

Calma.

Serena.

Antiga.

— Então...

Eriel sentiu um arrepio.

— Você conseguiu me despertar?

Eriel piscou.

— Eu?

O dragão inclinou levemente a cabeça.

— Sim.

Eriel apontou para si mesma.

— Eu despertei você?

— Não.

A resposta veio imediatamente.

O dragão estreitou os olhos.

— Houve uma interferência.

— Interferência?

— Sim.

Ela observou Eriel por alguns instantes.

Seu olhar parecia atravessar não apenas o corpo, mas alguma coisa muito mais profunda.

Eriel sentiu como se estivesse sendo examinada por alguém que conseguia enxergar coisas que nem ela sabia que existiam.

— Interessante...

O dragão abaixou novamente a cabeça.

— Muito interessante.

Eriel não sabia o que dizer.

— Você sabe onde estamos?

— Sei.

— Onde?

— Isso não importa.

— Como não importa?

— Porque você não deveria estar aqui.

Eriel ficou em silêncio.

— Então por que estou?

O dragão demorou a responder.

Seus olhos permaneceram sobre ela.

— Essa é uma pergunta melhor.

Uma pequena corrente de vento passou pelo campo.

As flores se movimentaram.

— Você demorou.

Eriel franziu a testa.

— Demorei para quê?

O dragão não respondeu imediatamente.

Ela parecia estar pensando.

— Eu me pergunto...

Sua voz ficou ainda mais baixa.

— Por que não acordei antes?

Eriel não entendeu.

— Você estava dormindo?

— Sim.

— Há quanto tempo?

O dragão olhou para a árvore gigantesca.

— Tempo demais.

Eriel acompanhou seu olhar.

— Você ficou dormindo todo esse tempo?

— Não exatamente.

— Então?

— Há coisas que até mesmo criaturas como eu precisam esquecer.

Eriel sentiu que aquela resposta escondia algo.

— Criaturas como você?

O dragão voltou a olhar para ela.

— Dragões.

A resposta foi simples.

Mas havia algo nela.

Como se a palavra carregasse um significado muito maior do que Eriel conseguia compreender.

Ela se aproximou um pouco.

— Você é o último?

O dragão permaneceu em silêncio.

Depois soltou um suspiro.

O ar que saiu de suas narinas fez as flores diante dela se curvarem.

— Não.

Eriel ficou surpresa.

— Existem outros?

— Existiram.

O tom mudou.

Havia uma tristeza muito antiga naquela única palavra.

Eriel não perguntou novamente.

O dragão fechou os olhos por alguns segundos.

— Então esta é a atual reencarnação...

Eriel franziu a testa.

— Reencarnação?

Os olhos do dragão se abriram novamente.

Dessa vez, havia algo semelhante a surpresa.

— Você não sabe?

— Saber o quê?

Silêncio.

O dragão parecia analisar a situação.

Então soltou um suspiro.

— Claro.

Ela fechou os olhos.

— Como eu poderia esperar que uma humana soubesse?

Eriel ficou incomodada.

— Humana?

— Sim.

— E o que tem de errado com isso?

O dragão a observou.

— Nada.

Pela primeira vez, havia algo próximo de um sorriso em sua expressão.

— É apenas...

Ela fez uma pausa.

— Curioso.

— O quê?

— Que uma força como essa tenha escolhido nascer em uma humana.

Eriel sentiu um arrepio.

— Que força?

O dragão não respondeu.

Em vez disso, observou Eriel dos pés à cabeça.

— Tão frágil.

Eriel franziu a testa.

— Eu não sou frágil.

O dragão ficou em silêncio.

Então soltou uma pequena risada.

Era uma risada baixa.

Quase carinhosa.

— Todos dizem isso.

— Eu consigo me defender.

— Talvez.

— Eu consigo.

— Eu acredito.

Eriel cruzou os braços.

— Você está zombando de mim.

— Não.

O dragão fechou os olhos novamente.

— Estou apenas lembrando de outras épocas.

A voz ficou distante.

— Quando humanos ainda olhavam para o céu e tremiam ao ver nossas sombras.

Eriel olhou para ela.

— Você conheceu humanos?

— Muitos.

— E como eram?

O dragão abriu os olhos.

— Diferentes.

— Diferentes de mim?

— Não.

Ela olhou diretamente para Eriel.

— Exatamente como você.

Eriel ficou quieta.

Havia algo estranho naquela resposta.

— Você me conhece?

O dragão não respondeu.

Eriel insistiu.

— Você já me viu antes?

O silêncio se prolongou.

Então o dragão disse:

— Não desta forma.

O coração de Eriel acelerou.

— O que isso significa?

O dragão simplesmente desviou o olhar.

— Ainda é cedo.

— Para quê?

— Para você saber.

Eriel se aproximou mais.

— Então me diga pelo menos quem você é.

O dragão voltou a encará-la.

Por alguns segundos, Eriel teve a sensação de que aquela criatura poderia responder.

Poderia contar tudo.

Sobre si mesma.

Sobre Eriel.

Sobre o que estava acontecendo.

Mas ela não contou.

Em vez disso, levantou lentamente a cabeça.

Seus olhos foram para a gigantesca árvore no centro do campo.

— Você consegue sentir?

Eriel olhou para a árvore.

— Sentir o quê?

— O tempo.

Eriel ficou imóvel.

Uma brisa atravessou seus cabelos.

— Não.

O dragão sorriu.

— Ainda não.

Eriel sentiu alguma coisa.

Uma pressão.

Muito leve.

Como se o próprio espaço ao redor estivesse respirando.

Então ouviu novamente aquela voz.

— Você ainda é jovem.

Eriel olhou para ela.

— Muito jovem.

O dragão abaixou a cabeça.

— E humana.

Havia quase uma ternura naquela constatação.

— Uma das criaturas mais frágeis que este mundo criou.

Eriel ficou ofendida.

— Você continua me chamando de frágil.

— Porque é verdade.

— Então por que parece tão interessada em mim?

O dragão ficou em silêncio.

Eriel esperou.

Finalmente, a criatura respondeu:

— Porque algumas das coisas mais importantes começaram em lugares frágeis.

Eriel não entendeu.

Mas antes que pudesse perguntar...

O mundo começou a mudar.

As flores começaram a desaparecer.

Primeiro as mais distantes.

Depois as próximas.

A árvore gigantesca começou a se afastar.

Ou talvez fosse Eriel quem estivesse se afastando.

O campo inteiro começou a desaparecer em uma névoa branca.

— Espere!

Eriel estendeu a mão.

— Eu ainda tenho perguntas!

O dragão permaneceu imóvel.

Seus olhos continuaram sobre ela.

— Você terá suas respostas.

— Quando?

Um sorriso surgiu no rosto da criatura.

— Quando estiver pronta para ouvi-las.

A voz começou a ficar distante.

— Eriel...

Ela parou.

O dragão a observava.

— Não se esqueça.

— Não me esqueça do quê?

Mas não houve resposta.

O campo desapareceu.

A árvore desapareceu.

O céu desapareceu.

Tudo virou escuridão.

E então...

O dragão sorriu.

Não era um sorriso ameaçador.

Era sereno.

Quase maternal.

Mas havia algo naquele sorriso que fez Eriel sentir um medo inexplicável.

Como se, por trás daqueles olhos antigos, houvesse uma história que ela jamais conseguiria compreender.

A criatura abriu as asas.

O som foi ensurdecedor.

Eriel ergueu os braços para proteger o rosto.

As asas brancas cobriram todo o céu.

E, antes que pudesse ver para onde o dragão iria...

Ele desapareceu.

Eriel abriu os olhos.

— AH!

Sentou-se violentamente na cama.

Seu peito subia e descia.

Sua respiração estava descontrolada.

O cabelo estava grudado na testa por causa do suor.

Ela levou uma das mãos ao peito.

O coração parecia querer escapar.

— Foi... um sonho?

Olhou ao redor.

Seu quarto.

A cama.

As paredes.

Tudo estava exatamente como antes.

Eriel respirou fundo.

Uma vez.

Duas.

Três.

Tentou se convencer.

— Foi só um sonho.

Mas então percebeu algo.

Seu corpo ainda estava tremendo.

E havia uma sensação estranha em sua mão.

Eriel abriu os dedos.

Nada.

Nenhuma marca.

Nenhuma ferida.

Nada que pudesse provar que aquilo realmente havia acontecido.

Mesmo assim...

Ela conseguia sentir.

O cheiro das flores.

O vento.

A imensidão daquele campo.

A presença daquele dragão.

E, principalmente, aqueles olhos.

Antigos.

Profundos.

Como se tivessem visto o mundo nascer.

Eriel ficou sentada em silêncio.

— Quem era você...?

Não houve resposta.

Mas, em algum lugar muito distante...

uma coisa havia despertado.

E talvez aquele encontro não tivesse sido um sonho.

Talvez tivesse sido uma lembrança.

Ou pior...

Talvez tivesse sido um chamado.

Thoughts

  • Raimundinha

    O Azrael entoou aquele Aion no pacto e quem acordou foi ela, chamando a Eriel de reencarnação atual. Essa dragoa conheceu a de antes, e sabe muito bem como terminou.

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