Eu também tenho sonhos
Depois que ele aceitou a proposta de trabalho, alguma coisa mudou dentro de mim.
Não entre nós.
Em mim.
Eu estava feliz por ele.
De verdade.
Via no brilho dos olhos dele o quanto aquela oportunidade significava. Sabia que não era apenas um emprego novo. Era a confirmação de que todos aqueles anos de esforço tinham valido a pena.
Mas, enquanto ele começava a organizar os próximos passos da própria vida, uma pergunta começou a aparecer dentro de mim.
E os meus?
Durante muito tempo, eu tinha colocado meus sonhos em lugares pequenos.
Sempre havia uma razão para esperar.
Dinheiro.
Medo.
Responsabilidades.
O momento errado.
A falta de coragem.
Eu dizia a mim mesma que um dia faria aquilo.
Um dia.
Aquela expressão tinha acompanhado boa parte da minha vida.
Até que, certa tarde, uma oportunidade apareceu.
Uma loja pequena em outra cidade estava disponível para aluguel. O lugar era simples, mas tinha exatamente o tamanho que eu precisava para começar o negócio que havia imaginado tantas vezes.
Meu próprio negócio.
Meu nome na porta.
Minhas escolhas.
Meu trabalho.
Minha independência.
Fiquei olhando para aquelas fotos por muito tempo.
Meu coração dizia sim antes mesmo que minha cabeça terminasse de calcular tudo.
Mas havia um problema.
Era outra cidade.
E a primeira pessoa em quem pensei foi nele.
Não porque eu precisasse da autorização dele.
Mas porque, pela primeira vez, a minha decisão também afetaria alguém que fazia parte da minha vida.
Quando contei, ele ficou alguns segundos me olhando.
— Você quer mesmo fazer isso?
— Quero.
— Há quanto tempo você pensa nisso?
Sorri.
— Há anos.
Ele se aproximou.
— Então por que nunca fez?
Baixei os olhos.
— Porque sempre achei que precisava esperar a vida ficar perfeita.
Ele sorriu.
— E ficou?
— Não.
— Então talvez seja por isso que você está pensando em fazer agora.
Aquilo me fez rir.
— Você não vai tentar me convencer a ficar?
Ele pareceu surpreso.
— Por quê?
— Porque é longe.
— É.
— E vai mudar nossa rotina.
— Vai.
— Você não está preocupado?
Ele respirou fundo.
— Estou.
A honestidade dele me tocou mais do que qualquer promessa poderia tocar.
— Mas eu estaria mais preocupado se você desistisse de alguma coisa que sempre quis por minha causa.
Eu não consegui responder imediatamente.
Ele segurou minha mão.
— Eu não quero ser o motivo pelo qual você olha para trás e pensa: "eu deveria ter tentado".
Meus olhos se encheram de lágrimas.
— E se eu não conseguir?
— Você vai descobrir.
— E se der errado?
— A gente conversa.
— E se for difícil?
— Vai ser.
Ele sorriu.
— Mas você nunca me pediu uma vida sem dificuldades.
Eu ri entre as lágrimas.
— Não.
— Então não faça isso agora.
Naquela noite, fiquei pensando em tudo.
Eu havia passado tanto tempo com medo de perder pessoas que, sem perceber, quase tinha aprendido a perder a mim mesma.
E talvez aquele fosse o verdadeiro teste.
Não saber se eu o amava.
Isso eu já sabia.
O desafio era descobrir se conseguiria construir um futuro ao lado dele sem abandonar o futuro que eu queria para mim.
Olhei novamente para as fotos da loja.
Pela primeira vez, aquela cidade distante não parecia apenas longe.
Parecia possível.
E talvez meu sonho estivesse esperando por mim havia tempo demais.