Silencium E Ceres
Os filhos de Ceres entram em Silencium, onde o som não existe. Adentrar esse território é como entrar em um sonho — ou em um pesadelo. Nossos gritos não se escutam; é como se o tempo parasse. A voz só volta a existir depois de ultrapassados os limites de Silencium.
A atmosfera é composta por metais preciosos, agricultura intensiva, fazendas de soja e trigo — tão eficientes quanto as de Ceres. Ambos compartilham tecnologias semelhantes, embora Silencium seja mais rígida. Ali, ninguém pode falar; apenas os sons do vulcão adormecido, de chama eterna, rompem o silêncio. Ninguém passa fome. Ninguém é abandonado. A comunicação acontece apenas por meio da língua de sinais.
Para moldar esse modo de vida, Silencium promoveu uma transformação profunda nos hábitos de seus habitantes. O misticismo foi proibido; deuses, proibidos; dons, proibidos. O Chanceler Aquila, cruelmente conhecido como o “Colecionador de Dons”, impôs a mordaça como lei. Apenas os membros centrais de Silencium têm permissão para falar no conselho.
Silencium e Ceres são nações aliadas em decisões políticas. Ainda assim, Mãe Ceres nunca entrou em Silencium. O próprio Chanceler teme que sua presença altere o comportamento de uma população que viveu por anos nessas condições, sem qualquer estímulo de esperança — nem mesmo uma falsa esperança.
Se a cidade de Ceres é cruel, um cidadão de Silencium não tem sequer a chance de dizê-lo. Ambas as sociedades desenvolveram uma espécie de hipersensibilidade empática somática: expressam-se pela linguagem do silêncio, em olhares e gestos — um canal humano que perdemos na vida adulta, mas que em Silencium se intensifica. Todos trabalham no que são aptos. O Chanceler comanda com mãos de ferro.
Ao adentrar a fortaleza central de mármore negro, vinda de Ceres, Silencium parece desejar ser Ceres. A atmosfera é minimalista. A bandeira, cinza-escura, é cortada por uma diagonal marrom-dourada, formando uma estrela de quatro pontas na parte cinza.
Com a chegada do trem blindado, a própria atmosfera de Silencium parece calar as vozes da máquina. Dali descem, com silenciadores de Ceres, os enviados — entre eles, a garota Ceres, vestida com o uniforme militar dos alunos de Silencium. Na plataforma, espera o Chanceler Aquila.
Ceres e Aquila se encaram. Odiaram-se no mesmo instante. Ambos imaginam pôr fogo em tudo, se pudessem — até neles mesmos. Ela, aos 16 anos, carrega um ódio imenso do pai. Ele, aos 39, odeia a própria filha.
O Chanceler Aquila nutre o complexo de que tudo o que vem de seu sangue acabará por tomar tudo dele. Matou o próprio pai e a própria mãe. Possui um complexo de deus: acredita que sua criação devora a geração passada, sem qualquer misticismo.
Ele odiou Ceres assim que ela desceu do trem — o mesmo rosto da mãe, Assum, a mesma petulância, a mesma arrogância. Ele quer dobrá-la. Poderia tê-lo feito no nascimento, mas não o fez. Por quê?
A vida encontra maneiras monstruosas de acontecer. Mesmo que a garota Ceres sofra nas mãos desse próprio diabo, ela carrega a mesma genialidade bestial do pai — embora ele negue isso.
Aquila só se mostra calmo diante de Mãe Ceres. Com ela, negocia; mantém relações cordiais. Fora isso, é o próprio Satanás na Terra. Nem o inferno que existe em Silencium, nem mesmo o vulcão de chama eterna, possuem a alma desse pobre infeliz, cujo peso faz a própria terra afundar.
Trecho adicional — Assum, a Mãe Cega
Ceres seguia seus estudos em linguagem de sinais, geografia e história local. A fortaleza permanecia silenciosa; até os serviçais eram sombras. Não se ouvia sequer a respiração.
Meses se passaram antes do primeiro contato com sua mãe, Assum. O encontro foi apoteótico. Assum sabia andar pela fortaleza negra vestida de branco, com coletes azuis, sempre de olhos fechados. Ela afirmava enxergar pelo silêncio — guiava-se pelos ecos do vento e pelas sensações do próprio corpo.
Ao tocar o rosto da filha, ambas se abraçaram. Permaneceram juntas por semanas. Assum dizia amar profundamente Mãe Ceres, a quem era devota. Ainda assim, Ceres não compreendia por que sua mãe jamais abria os olhos.
Até o dia em que Assum contou a verdade.
Foi seu pai, o Chanceler Aquila, quem a cegou. Antes do casamento — selado apenas por interesses políticos —, durante um diálogo banal, Assum dissera que cantava melhor à noite. No dia seguinte, em Silencium, Aquila a cegou. Trancou-a em uma sala acústica, onde ela conseguia ouvir apenas a própria corrente sanguínea e os batimentos do coração. Por vezes pensou que enlouqueceria, mas resistiu — tudo por Mãe Ceres e por Ceres II.
Ainda assim, o Chanceler foi ferido onde jamais poderia ser atingido: apaixonou-se perdidamente por Assum. Cobriu-a de ouro, joias e sangue. Assum jamais cedeu seus encantos. Foi forçada a manter relações com Aquila dentro dos acordos nupciais.
Dessa violência nasceu a criança: Ceres.
Na paranoia, o Chanceler ignorou a própria filha. Negava sua existência, alegando jamais ter tido condições de gerar descendentes. O milagre, porém, acontecera.
Consumida de ódio, Ceres tentou exigir respostas de sua mãe cegada propositalmente — em vão. Ambas acabaram isoladas. Ceres passava dias sem dormir, atormentada pela crueldade e vileza do pai contra Assum.
Havia meses que Assum não cantava. Ainda assim, o Chanceler sentia falta daquela voz. Desde que as ondas de rádio da cidade de Ceres invadiram transmissões clandestinas — que ele próprio mantinha —, Aquila se apaixonara por aquele dom único: uma voz de deus em carne e osso. Seus efeitos sonoros eram divinos, capazes de dominar até mesmo Mãe Ceres, que a declarou filha favorita.
Sempre bela, de olhos azuis e cabelos negros escorridos.
Ceres era idêntica à mãe na fisionomia — mas agora carregava o temperamento sanguinário do pai.
O canto, a queda e Theo
O Chanceler nunca se encontrou com as duas desde a chegada de Ceres a Silencium. O encontro aconteceu apenas quando Ceres e sua mãe, Assum, cantaram juntas na sala acústica. Os cantos eram idênticos. Além de fisicamente semelhante à mãe, Ceres possuía a mesma voz — um canto divino.
Aquila ouviu. E não gostou.
Para ele, aquilo era heresia: Ceres possuía o mesmo dom que Assum.
Ceres foi arrancada dos braços da mãe. Torturada para confessar crimes que nunca cometeu. Sob dor, acabou dizendo que vira a grande sala do Colecionador de Dons: mãos cortadas e empalhadas, línguas preservadas em garrafas, algumas ainda recentes.
Aquila quis arrancar pessoalmente a língua de Ceres. Mesmo anestesiada, no momento do corte, ele não conseguiu. Pela primeira vez, viu diante de si algo que lhe pertencia de forma absoluta: sua própria filha.
Tentou esterilizá-la.
Caiu de joelhos.
Pela primeira vez em sua vida, chorou.
Sua filha estava ali, sonolenta, espancada.
O Chanceler aprisionou Ceres por meses. Cuidou de seus ferimentos. Depois disso, nunca mais a viu. Nem a mãe.
Por decreto, determinou o retorno de Ceres à cidade de Ceres. Ordenou que fosse enviada desnutrida, humilhada e excomungada. Deveria ser deixada na fronteira e caminhar quilômetros até a torre — sozinha.
Na fronteira, soldados de marretas negras a obrigaram a atravessar. Com pontapés, cobriram-na com um cobertor imundo e a forçaram a caminhar ferida. Os soldados ceresianos não podiam intervir.
Aquila humilhou a filha pela última vez.
Caminhando pelos campos de trigo de Ceres, Ceres viu macieiras e pessegueiros. A abundância era visível, mas o estômago, embrulhado por semanas sem comer, só sentia dor. Vagava para morrer em uma terra de fartura — a contradição final, a vingança do pai contra a própria filha.
Avistou um colégio. Ninguém a percebeu. Escondeu-se em um arbusto, descalça, a visão turva.
Então ouviu uma voz.
Era alguém sendo humilhado por outro aluno, mas que ainda assim falava com cuidado, como quem protege um irmão. Mesmo sendo o alvo, dividia o próprio pão.
Como alguém conseguia suportar tamanha humilhação e ainda oferecer alimento em um mundo tão injusto e cruel? Qual era sua motivação?
A fala daquele garoto carregava ódio — mas não transbordava. Era um ódio sólido, frio e pesado, como chumbo. O ódio de Ceres, ao contrário, era líquido e borbulhante, sempre prestes a derramar.
Como ele silenciava o chumbo?
O nome dele era Theo.
Aquele que suportava tudo.
Qual era seu segredo?
Por que ele?
O que havia de especial em Theo?
Como ele conseguia controlar o chumbo?