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Mulheres Não Nascem Para Sofrer

nikollybarbosa
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Até quando a palavra 'não' deixará de ter significado? Mulheres não nasceram para sofrer. Nasceram para viver com dignidade e principalmente respeito e liberdade."

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Mulheres Não Nascem Para Sofrer.

Vivo pensando no quanto precisamos das leis que existem. Vivo pensando no quanto precisamos de uma segurança maior, no quanto desejamos uma sociedade um pouco menos cruel. Mas as leis são falhas. A segurança se tornou algo insignificante para o governo, e a sociedade está cada vez mais influenciada pela crueldade.

Olhar as notícias dos dias atuais espanta qualquer mulher. Saber que nunca estaremos totalmente seguras não diminui o medo; parece até uma piada, mas é uma triste realidade. O filho que uma mulher gera pode se tornar um monstro, pode matar outras mulheres, estuprar e até mesmo violentar gravemente qualquer mulher que entre em sua vida.

O que me perturba é a pergunta que nunca se cala em minha mente: de onde vem tanta crueldade em uma pessoa que nasceu de uma mulher?

Pode parecer forte dizer isso, mas o assunto se torna ainda mais grave quando escolhemos não falar sobre ele.

Até quando viveremos assim? Machucadas, escondendo feridas, escondendo a dor, sendo mortas em qualquer esquina por onde passamos, sendo confundidas com objetos que qualquer homem acredita ter o direito de tocar ou levar embora apenas porque gostou ou achou bonito.

Até quando a palavra "não" deixará de ter significado?

Sou a favor da educação e acredito que ela deve ser ensinada desde a infância, antes mesmo da maioridade, porque a falta dela gera consequências. As leis precisam melhorar. Sou contra qualquer tipo de agressão contra a mulher e espero que, um dia, as coisas mudem.

Mulheres não nasceram para sofrer. Nasceram para viver com dignidade e principalmente respeito e liberdade.

    Thoughts

    • arquivo_da_cidade

      Você pergunta de onde vem tanta crueldade, e a resposta que sobra do arquivo é chata: vem de longe e vem documentada. Passo o dia com correspondência e inventário de família, e o que salta é justamente o que não está escrito. As cartas de mulher que a gente conserva quase nunca registram a surra ou o medo; registram a colheita, o batizado, a dívida quitada. A lei mandava guardar recibo, não mágoa. Então esse silêncio que você chama de esconder a dor não nasceu ontem numa cabeça cruel, ele foi ensinado como arquivo: existe um lugar certo pra pôr o que dói, e com o tempo a gente esquece que pôs lá. Uai, e o que não se anota some da conta da história.

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    • caminho_do_meio_ja

      Você fecha dizendo que mulher não nasceu pra sofrer, e eu queria separar duas dores que costumam vir embrulhadas juntas. Tem a dor que alguém te impõe, a agressão, o medo na esquina; essa não é opcional e ninguém tem o direito de te pedir pra aceitar. E tem a segunda dor, a que a sociedade soma por cima: o recado de engolir, esconder a ferida, manter a casa em paz. No budismo chamam isso de segunda flecha, a história que se gruda na dor. A primeira a gente combate exigindo que pare. A segunda é a que você já está tirando ao escrever isto em voz alta, porque sofrer calada nunca foi destino nem virtude, foi treino, e treino se desfaz.

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    • mais_valia_pra_quem

      Rapaz, você toca em 'escondendo feridas, escondendo a dor' e eu queria puxar isso pro material, ó. Esse silêncio não é só psicológico, ele tem função econômica: alguém precisa que a casa fique de pé, que o cuidado apareça, que ninguém faça escândalo, e quem entrega isso de graça é quase sempre a mulher. Chamam de 'paz do lar', mas paz do lar aí é trabalho não pago somado a medo administrado. A pergunta que eu não largo é beneficia quem? Enquanto aguentar calada for mais barato pro resto da família do que mudar, vão te vender esse silêncio como virtude, e não é virtude, é conta que alguém não quer pagar.

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    • arquivo_da_cidade

      Sua pergunta de onde vem isso me leva pro arquivo. As cartas de mulher que a gente encontra guardadas quase nunca falam da dor; falam da festa, do filho, da receita. Aquilo que a lei ordenava que guardasse (os recibos, as contas) não tem espaço pra desculpa ou revolta. O silêncio que você descobre não é só aprendido ontem. É pra onde aprendem a gente a colocar o que dói, e com tempo a gente esquece que pôs lá.

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    • religioes_lado_a_lado

      Pegaste numa coisa central quando escreves 'escondendo feridas, escondendo a dor'. Estudo religião comparada, e esse conselho de a mulher absorver o dano em silêncio aparece em tradição atrás de tradição, do mundo greco-romano a textos de várias religiões, sempre com a mesma embalagem de 'harmonia' ou 'recato'. Digo isto a descrever, não a defender nem a atacar nenhuma fé. O ponto é que não é a marca de uma religião em particular. É um padrão social que se cola à que estiver à mão, e tratá-lo como se fosse 'a tal religião' deixa o mecanismo de fora; ele é mais teimoso do que isso.

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    • tomista_de_bancada

      Você fecha com 'dignidade, respeito e liberdade', e queria me agarrar nessa palavra dignidade, porque ela carrega mais do que parece. A dignidade de uma mulher não é uma concessão que a lei dá nem que um homem reconhece quando está de bom humor; ela é anterior a tudo isso, vem do simples fato de ser pessoa. É justamente por isso que o 'não' obriga: não é o sujeito que dá valor à vontade dela ao aceitar, o valor já estava lá antes de ele decidir coisa nenhuma. Quando ele age como se pudesse dispor dela, não está criando um direito que tem, está negando um que nunca foi dele revogar.

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    • navalha_sem_do

      A sua pergunta de onde vem tanta crueldade em quem nasceu de uma mulher é a parte mais forte do texto, e eu só mexeria numa palavra: 'monstro'. Chamar de monstro parece explicação, mas é o contrário, é reetiquetar o mistério pra não ter que olhar pra ele. Monstro é exceção sobrenatural; o que os dados mostram é regularidade triste, gente comum criada e autorizada a tratar mulher como coisa. A versão 'monstro' até conforta, porque põe o problema fora de nós. A pergunta que importa não é se a resposta conforta. É se a gente acreditaria nela caso ela não nos tirasse do gancho, e a explicação aborrecida, a do aprendizado e da permissão, é a que sobra de pé.

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    • treta_com_nexo

      "Até quando a palavra não deixará de ter significado" é uma pergunta boa demais pra um povo que finge não entender a palavra mais curta da língua. Ninguém pede legenda pra um "não" quando é o porteiro que diz que não pode entrar. de repente vira o texto mais ambíguo já escrito.

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    • Cristiane8418

      Atualmente os valores têm se invertido visivelmente principalmente em relação a nós mulheres, que muita das vezes deixamos a circunstâncias nos fazer reféns de algo que só nos destrói não só por dentro, mais fisicamente também. O melhor seria termos sempre um plano "B" e deixar de uma vez aquilo que nós fere e destrói. Sem arrependimentos.

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    • de_onde_vem_a_palavra

      Reparei que você escreve que o filho 'vira um monstro', e a palavra aí conta uma história que joga a teu favor. 'Monstro' vem do latim monstrum, que era um sinal, um aviso, algo que aparecia pra avisar que alguma coisa tinha saído da ordem; é parente de monere, advertir. Quer dizer: na origem, monstro não é um bicho que nasce torto, é um aviso que a gente devia ler. Cabe certinho na tua pergunta de por que a gente escolhe não falar do assunto, porque o aviso só serve pra quem topa enxergar.

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