No meu texto anterior, sobre os danos familiares causados pela minha adicção, falei sobre todos, exceto sobre a minha avó. Antes de relatar essa parte da minha história, quero falar um pouco sobre ela.
Minha avó é uma mulher de baixa estatura, de sangue indígena, muito bela e inteligente. Teve quatro filhos, que criou em meio às adversidades provocadas pelo alcoolismo do meu avô. Depois de quase morrer, meu avô abandonou o álcool e passou a se dedicar à família como nunca havia feito antes. Sua mudança foi tão grande que os filhos e os vizinhos passaram a enxergá-lo como um herói. Minha avó, que deveria ter sido reconhecida por tudo o que enfrentou e sustentou durante aqueles anos, acabou sendo vista apenas como mãe. A partir daí, tornou-se mais fria e autoritária.
Foi ela quem me criou. Minha genitora foi viver sua nova família, enquanto minha avó assumiu para mim o lugar de mãe. Foi ela quem me ensinou a ler e a contar, quem costurava meus vestidos e penteava meus cabelos com paciência, porque meus cabelos são crespos.
Lembro-me bem: antes do almoço, aquele banho; depois do almoço, eu me deitava em seu colo para assistir ao Vídeo Show. Minhas lembranças mais antigas e meus sentimentos de filha, enquanto criança, pertencem a ela.
Minha avó não gosta de dar conselhos, mas, quando soube do meu uso de cocaína, aconselhou-me. Foi o clássico: “O destino disso é cadeia e cemitério”.
Quando chegou o pior momento para nossa família, ela me perguntou: “Rosa, por que você se maltrata? Eu não consigo ver essas cicatrizes no bracinho que segurei tantas vezes”. Aquilo me doeu profundamente.
Ela também teve uma atitude que me ajudou a dar o primeiro passo em direção a todos os tratamentos que vieram depois. Um dia, mostrou-me uma fotografia. Nela, eu aparecia depois do banho, penteada e cuidada. Eu me lembrei daquele momento: tinha sido ela quem havia cuidado de mim.
Nunca vi minha avó tomar partido por mim em relação à cocaína. Mas houve um dia em que cheguei à casa dela, a mesma casa onde ela me criou, carregando malas, suja, descabelada e chorando, depois que um amigo de festa havia me expulsado de onde eu estava. Ela me acolheu. Chorou comigo por horas e me disse: “Aqui você vai se curar”.
Desde então, ela sempre luta para que as pessoas voltem a confiar em mim. Tenta reconstruir os laços que perdi e, de alguma forma, acredita na mulher que ainda posso ser.
Minha avó é minha âncora. É a pessoa que mais ora pela minha vida. Por incrível que pareça, nós nos desentendemos quase todos os dias. Mas, no fim, uma de nós cede, pede perdão, e nos abraçamos.
Hoje moro em uma casa atrás do quarto dela. Às vezes, quando passo pelo corredor, vejo-a dormindo pela janela. E digo baixinho, quase como uma criança:
“Mas é pequenininha a minha mãe.”
Te amo, Maria Delzuíta.