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Minha melhor amiga

Dorand2026
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No meu texto anterior, sobre os danos familiares causados pela minha adicção, falei sobre todos, exceto sobre a minha avó. Antes de relatar essa parte da minha história, quero falar um pouco sobre…

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fioAtras

Quem mais some do texto é o avô, que vira herói e depois não aparece mais. Aposto que ela nunca cobrou isso dele em voz alta, e a frieza foi o jeito que ela achou de cobrar.

Quem mais some do texto é o avô, que vira herói e depois não aparece mais. Aposto que ela nunca cobrou isso dele em voz alta, e a frieza foi o jeito que ela achou de cobrar.

Conteúdo da publicação

No meu texto anterior, sobre os danos familiares causados pela minha adicção, falei sobre todos, exceto sobre a minha avó. Antes de relatar essa parte da minha história, quero falar um pouco sobre ela.

Minha avó é uma mulher de baixa estatura, de sangue indígena, muito bela e inteligente. Teve quatro filhos, que criou em meio às adversidades provocadas pelo alcoolismo do meu avô. Depois de quase morrer, meu avô abandonou o álcool e passou a se dedicar à família como nunca havia feito antes. Sua mudança foi tão grande que os filhos e os vizinhos passaram a enxergá-lo como um herói. Minha avó, que deveria ter sido reconhecida por tudo o que enfrentou e sustentou durante aqueles anos, acabou sendo vista apenas como mãe. A partir daí, tornou-se mais fria e autoritária.

Foi ela quem me criou. Minha genitora foi viver sua nova família, enquanto minha avó assumiu para mim o lugar de mãe. Foi ela quem me ensinou a ler e a contar, quem costurava meus vestidos e penteava meus cabelos com paciência, porque meus cabelos são crespos.

Lembro-me bem: antes do almoço, aquele banho; depois do almoço, eu me deitava em seu colo para assistir ao Vídeo Show. Minhas lembranças mais antigas e meus sentimentos de filha, enquanto criança, pertencem a ela.

Minha avó não gosta de dar conselhos, mas, quando soube do meu uso de cocaína, aconselhou-me. Foi o clássico: “O destino disso é cadeia e cemitério”.

Quando chegou o pior momento para nossa família, ela me perguntou: “Rosa, por que você se maltrata? Eu não consigo ver essas cicatrizes no bracinho que segurei tantas vezes”. Aquilo me doeu profundamente.

Ela também teve uma atitude que me ajudou a dar o primeiro passo em direção a todos os tratamentos que vieram depois. Um dia, mostrou-me uma fotografia. Nela, eu aparecia depois do banho, penteada e cuidada. Eu me lembrei daquele momento: tinha sido ela quem havia cuidado de mim.

Nunca vi minha avó tomar partido por mim em relação à cocaína. Mas houve um dia em que cheguei à casa dela, a mesma casa onde ela me criou, carregando malas, suja, descabelada e chorando, depois que um amigo de festa havia me expulsado de onde eu estava. Ela me acolheu. Chorou comigo por horas e me disse: “Aqui você vai se curar”.

Desde então, ela sempre luta para que as pessoas voltem a confiar em mim. Tenta reconstruir os laços que perdi e, de alguma forma, acredita na mulher que ainda posso ser.

Minha avó é minha âncora. É a pessoa que mais ora pela minha vida. Por incrível que pareça, nós nos desentendemos quase todos os dias. Mas, no fim, uma de nós cede, pede perdão, e nos abraçamos.

Hoje moro em uma casa atrás do quarto dela. Às vezes, quando passo pelo corredor, vejo-a dormindo pela janela. E digo baixinho, quase como uma criança:

“Mas é pequenininha a minha mãe.”

Te amo, Maria Delzuíta.

Thoughts

  • tchelinho

    Banho antes do almoço, colo depois, Vídeo Show na TV. Rotina de vó é igual em qualquer canto do Brasil, a minha era assim também.

    Permalink
  • Ovid

    A fotografia de você penteada depois do banho me fez pensar em como uma imagem velha consegue dizer o que nenhum conselho disse. Aposto que ela guardou aquela foto por anos sem saber pra que servia, até o dia em que serviu. Obrigado por trazer a Maria Delzuíta pra cá, ela merecia um texto inteiro só dela!

    Permalink
  • fioAtras

    Quem mais some do texto é o avô, que vira herói e depois não aparece mais. Aposto que ela nunca cobrou isso dele em voz alta, e a frieza foi o jeito que ela achou de cobrar.

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