Cara, a Ariadne falando com o Tomás na beira do rio, pedindo paciência pra ele, foi a parte que me deu frio. O fantasma já tava ali antes de qualquer punhal.
Meu namorado fantasma capítulo 19
Pensamento
Cara, a Ariadne falando com o Tomás na beira do rio, pedindo paciência pra ele, foi a parte que me deu frio. O fantasma já tava ali antes de qualquer punhal.
Conteúdo da publicação
1805 - Brasil Colônia
A morte de Tomás ainda me perseguia.
Por mais que procurasse convencer-me de que não tivera escolha, minha consciência recusava-se a encontrar repouso. Eu sabia que carregava sobre os ombros um pecado terrível. Contudo, dizia a mim mesmo que, se não tivesse feito o que fiz, minha vida estaria arruinada para sempre.
Ainda assim, tais justificativas já não eram suficientes para silenciar as vozes de minha própria alma.
Naquela tarde, encontrava-me na praça da vila em companhia de Dona Constança e Dona Leonor.
A movimentação era tranquila. Algumas famílias passeavam sob o sol ameno, enquanto comerciantes anunciavam suas mercadorias nas proximidades.
- Não vejo a hora de nosso casamento finalmente acontecer. - suspirou Dona Constança, perdida em seus pensamentos.
- Em breve. - respondi. - No momento, porém, meu espírito ainda se encontra abatido pelo luto de meu irmão.
Ao mencionar Tomás, senti um aperto no peito.
- Era um rapaz com toda a vida diante de si. - disse Dona Leonor, com indignação evidente na voz. - É revoltante pensar que alguém lhe tenha tirado a vida de maneira tão cruel.
Suas palavras atingiram-me como uma punhalada.
Baixei os olhos, incapaz de encará-la.
O peso da culpa tornou-se ainda mais insuportável.
- Que Deus permita que encontrem o responsável por tão horrendo crime. - acrescentou Dona Constança, balançando a cabeça com tristeza. - Um homem capaz de semelhante barbaridade não merece permanecer livre entre pessoas honradas.
Senti o sangue gelar em minhas veias.
Por um instante, temi que ambas fossem capazes de ouvir as violentas batidas de meu coração.
Os dias sucediam-se lentamente, e comecei a perceber uma mudança inquietante em Ariadne.
Ela mostrava-se distante.
Quase não me dirigia a palavra e, quando o fazia, evitava encontrar meus olhos.
A princípio, julguei tratar-se apenas de imaginação de minha parte. Afinal, a morte de Tomás abalara profundamente toda a nossa família.
Contudo, quanto mais os dias passavam, mais evidente se tornava aquela frieza.
Numa noite, encontrei-me com o Álvaro no estábulo de sua fazenda, como fazíamos em segredo.
Assim que o vi, notei que algo o afligia.
Havia inquietação em seu semblante.
- Que vos sucede? - perguntei ao perceber a tensão em seu olhar.
Álvaro suspirou profundamente.
- É Ariadne. - respondeu, passando a mão pelos cabelos. - Há algo de muito estranho em seu comportamento.
Ergui os olhos, surpreso.
- Também percebestes isso?
- Então não sou o único? - perguntou ele, franzindo o cenho.
Balancei a cabeça.
- Não. Tenho a mesma impressão há vários dias.
Álvaro permaneceu em silêncio por um instante.
- Ela está fria comigo. - Sua voz carregava evidente perplexidade. - Ontem à noite recusou-se até mesmo a partilhar o leito comigo.
Fitou-me como se ainda não conseguisse acreditar.
- Em todos estes anos de casamento, jamais havia acontecido semelhante coisa.
Baixei os olhos para o chão.
- A morte de meu irmão a atingiu profundamente. - respondi em voz baixa. - Talvez necessite de algum tempo para recuperar a paz de espírito.
- Também pensei isso. - disse Álvaro. - Contudo, há algo mais.
Voltei a fitá-lo.
- O que desejais dizer?
- Quando lhe comuniquei os detalhes de nossa próxima viagem de negócios, ela sequer demonstrou interesse. - respondeu ele sem desviar os olhos dos meus. - Limitou-se a dizer: "Fazei uma boa viagem."
Sua voz tornou-se ainda mais inquieta.
- E não havia carinho algum em suas palavras. Apenas frieza.
Senti um desconforto crescer dentro de mim.
- Isso é realmente estranho. - murmurei, pensativo.
Poucos dias antes de minha viagem, Ariadne convidou-me para um passeio pelas terras de nossa família.
Caminhávamos à margem de um rio que atravessava a propriedade. A tarde estava agradável, e uma brisa suave fazia dançar as folhas das árvores.
- O dia está deveras aprazível. - Ariadne sorriu enquanto fechava os olhos por um instante, como se apreciasse a carícia do vento.
Foi um alívio vê-la sorrir novamente após tantas semanas de tristeza.
- Sim, o tempo está admirável. - respondi, observando a paisagem ao redor.
Ariadne voltou o olhar para as árvores.
- Este lugar faz-me recordar o bosque onde costumávamos brincar quando éramos crianças.
- É verdade. - sorri com certa nostalgia. - Não fosse o rio, eu diria tratar-se exatamente do mesmo lugar.
O sorriso de Ariadne desvaneceu-se.
Seus olhos repousaram sobre as águas.
- Contemplar este rio ainda me causa dor. - murmurou. - Tomás adorava banhar-se aqui.
Senti um aperto no peito.
- Nosso pobre irmãozinho. - respondi com a voz embargada. - Que Deus tenha recebido sua alma em misericórdia.
Ariadne permaneceu olhando para o rio.
- Tende paciência. Em breve tudo estará resolvido.
Um arrepio percorreu-me a espinha.
- Não compreendi o que desejais dizer. - respondi, intrigado.
- Não estava falando convosco. - disse ela calmamente, sem desviar os olhos das águas.
Franzi o cenho.
- Então com quem faláveis? - perguntei, lançando um olhar ao redor. - Não há ninguém além de nós dois.
Ariadne voltou-se lentamente para mim.
Havia algo em seu olhar que me causou profundo desconforto.
- Estais enganado. - respondeu friamente. - Tomás está aqui conosco.
Senti o sangue gelar em minhas veias.
- Tomás? - murmurei, tomado pelo espanto.
- Há algum tempo venho conversando com o espírito de nosso falecido irmão. - Sua voz permanecia estranhamente serena. - E ele contou-me, com riqueza de detalhes, a forma covarde pela qual foi assassinado.
Meu coração disparou.
Antes que eu pudesse responder, Ariadne levou a mão às dobras de seu vestido.
Então retirou um punhal que mantinha oculto junto às vestes.
A lâmina brilhou sob a luz da tarde.
- Ariadne, por misericórdia, que significa tudo isto? - perguntei, recuando alguns passos, alarmado pela expressão que lhe tomava o rosto.
- Não vos façais de ignorante! - bradou ela, apontando o punhal em minha direção. Seus olhos ardiam de ódio. - Já conheço toda a verdade. Tomás contou-me tudo. Absolutamente tudo. Inclusive acerca de vosso romance pecaminoso com meu esposo.
Senti o sangue fugir-me do rosto.
- Irmã, a morte de Tomás abalou-vos profundamente. - Procurei manter a voz serena. - Mas suplico-vos que não deis crédito a fantasias nascidas da dor.
- Fantasias? - repetiu ela com uma risada amarga. - Chamais de fantasia os anos de engano que me impusestes?
Ariadne avançou um passo.
- Sois um traidor miserável! - exclamou. - Durante todos estes anos fingistes ser meu irmão dedicado, enquanto me enganáveis da forma mais cruel possível.
- Ariadne, escutai-me...
- Não! - interrompeu ela. - Agora sou eu quem falará.
As lágrimas corriam-lhe pelo rosto, mas sua voz permanecia firme.
- Como pudestes fazer-me semelhante afronta? Como pudestes olhar-me todos os dias e ocultar tamanho pecado?
- Irmã, por favor, acalmai-vos. Podemos resolver isto sem violência. - Estendi as mãos cautelosamente. - Não estais em vosso juízo perfeito.
- Não ousais dizer que enlouqueci! - gritou ela.
Por um instante, levou as mãos aos cabelos, tomada pelo desespero.
- Álvaro é outro maldito! - continuou. - Durante anos jurou amar-me diante de Deus e dos homens, enquanto entregava seu coração a outrem.
Seus olhos encheram-se novamente de lágrimas.
- E esse outrem era meu próprio irmão.
O silêncio que se seguiu pareceu mais pesado que a própria morte.
- Toda a minha vida foi edificada sobre mentiras. - Sua voz agora saiu trêmula. - Meu casamento, minha família, minhas lembranças... tudo foi manchado por vossa traição.
Então ela ergueu novamente o punhal.
- E o pior de tudo é saber que Tomás morreu porque descobriu a verdade.
- Irmã, escutai-me! - exclamei, tentando aproximar-me.
- O que mais me dilacera o coração é saber que fostes capaz de tirar a vida de nosso irmãozinho. - As lágrimas escorriam pelo rosto de Ariadne. - Tomás tinha toda uma existência diante de si.
Não encontrei palavras para responder.
A culpa que eu carregava em minha alma era pesada demais.
Apenas comecei a chorar.
- Vosso pranto não o trará de volta! - gritou Ariadne, tomada pela fúria. - Monstro! Maldito sejais!
E, dizendo isso, avançou contra mim com o punhal erguido.
- Irmã, por caridade, detende-vos! - implorei, segurando-lhe o pulso com firmeza.
- Vós e aquele miserável do Álvaro mereceis a morte! - bradou ela.
Num movimento brusco, Ariadne acertou-me com um golpe que me fez perder o equilíbrio. Logo em seguida, investiu novamente e a lâmina rasgou meu braço.
A dor foi intensa, mas nada se comparava ao horror que vi em seus olhos.
Jamais contemplara tamanho ódio.
Naquele instante compreendi que, se ela deixasse aquele lugar, contaria tudo o que sabia.
- Hei de vingar meu irmão! - gritou, avançando mais uma vez.
- Não desejo lutar convosco! - respondi entre lágrimas, segurando novamente seu braço. - Por favor, cessai isto. Não estais em vosso juízo.
Tomado pelo desespero, empurrei-a para afastá-la.
Ariadne caiu ao chão.
Por um breve instante, pensei que tudo terminaria ali.
Contudo, ao cair, seu corpo rolou sobre a relva.
Então aconteceu o impensável.
Ouvi um som abafado.
Vi seus olhos arregalarem-se de surpresa.
E senti meu sangue gelar.
O punhal que ela mesma empunhava cravou-se profundamente em seu peito.
O mundo pareceu parar.
- Irmã! - gritei, correndo até ela.
Caí de joelhos ao seu lado.
Minhas mãos tremiam enquanto tentava ampará-la.
- Não... não... isto não pode estar acontecendo...
O sangue espalhava-se lentamente sobre seu vestido.
- Miserável... - murmurou Ariadne, fitando-me com incredulidade. - Não posso acreditar que tivestes a coragem de tirar também a minha vida.
- Foi um acidente! - exclamei entre lágrimas. - Juro-vos que não era minha intenção.
Ariadne soltou um gemido de dor e levou uma das mãos ao ferimento.
- Perdoai-me, Tomás... - disse ela com a voz cada vez mais fraca. - Não fui capaz de fazer justiça por vós.
- Não faleis assim! - gritei, segurando-a em meus braços. - Suplico-vos, não me abandoneis!
Ela voltou os olhos para mim.
Havia tristeza, dor e desprezo em seu olhar.
- Espero que um dia pagueis por tudo o que fizestes.
Senti meu coração afundar.
- Ariadne...
- Assim como fizestes Tomás tombar antes do tempo, desejo que o mesmo destino vos alcance.
O sangue escorria pelo canto de seus lábios enquanto ela falava.
- Que Deus permita uma nova existência para vós.
Franzi o cenho, sem compreender.
- Do que estais falando?
- Que tenhais outra vida... - respondeu ela com dificuldade. - E que, ao completar quinze anos, a morte venha buscar-vos, assim como levou meu pobre irmão.
- Não digais tais disparates. - As lágrimas corriam por meu rosto. - Não existe outra vida.
- Existe mais do que os homens são capazes de compreender. - Sua voz tornou-se quase um sussurro. - Somente assim a alma de Tomás encontrará repouso.
Segurei sua mão com força.
- Ariadne, por favor... permanecei comigo.
Ela esboçou um leve sorriso triste.
- Adeus, Miguel.
Seus olhos começaram a fechar-se lentamente.
- Ariadne! - gritei em desespero.
Mas já era tarde.
Sua mão afrouxou dentro da minha.
E sua alma partiu deste mundo.
Abracei seu corpo sem vida e chorei como jamais havia chorado antes.
Permaneci por longo tempo abraçado ao corpo de Ariadne.
Não sei dizer quanto tempo passou. Os minutos pareciam horas, e as horas pareciam uma eternidade.
Por fim, levantei-me.
Aproximei-me do rio e lavei o sangue que manchava minhas roupas e minhas mãos. A água levou consigo as marcas visíveis daquele terrível acontecimento, mas não foi capaz de limpar a culpa que agora habitava minha alma.
Voltei-me mais uma vez.
O corpo de Ariadne permanecia imóvel junto à margem.
Ao contemplá-la, minhas forças abandonaram-me novamente, e caí em pranto.
Meus dois irmãos estavam mortos.
E ambos haviam perecido por minha causa.
Não sabia se seria capaz de suportar tamanho peso pelo restante de meus dias.
A morte de Ariadne lançou nossa família em profundo desespero.
Meu pai e minha mãe ficaram sem chão. Em poucos meses haviam perdido dois filhos, e tamanha dor parecia impossível de suportar.
Entretanto, dentre todos os sofrimentos, o que mais dilacerava meu coração era contemplar a pequena Helena.
Minha pobre sobrinha havia perdido a mãe.
Muitas vezes a tomei nos braços para consolá-la enquanto ela chorava. Cada lágrima derramada por aquela criança fazia crescer ainda mais o tormento que eu carregava dentro de mim.
A culpa consumia-me lentamente.
Apesar disso, ninguém desconfiou de mim.
Consegui apagar todos os vestígios que poderiam ligar-me à morte de Ariadne.
Álvaro também ficou profundamente abalado. Jurava diante de todos que encontraria o responsável e que faria justiça pela esposa assassinada.
Por vezes, eu me perguntava se ele seria capaz de tirar minha vida caso descobrisse que fui eu quem causara sua morte.
Os anos passaram.
Conforme combinado, uni-me em matrimônio com Dona Constança. Tivemos filhos e construímos uma família respeitável aos olhos da sociedade.
Algum tempo depois, Álvaro também se casou novamente. Sua escolhida foi Dona Leonor.
Nós quatro continuamos guardando nosso segredo.
Enquanto o mundo via apenas duas famílias honradas e respeitáveis, Álvaro e eu permanecíamos ligados pelo mesmo amor proibido que nascera tantos anos antes.
Constança e Leonor, por sua vez, encontraram uma forma de viver discretamente a afeição que nutriam uma pela outra.
Assim seguimos por muitos anos.
Envelhecemos.
Vimos nossos filhos crescerem.
Vimos nossos cabelos embranquecerem.
E, para todos os demais, parecíamos ter alcançado uma existência tranquila e próspera.
Contudo, havia algo que jamais me abandonou.
Quase todas as noites eu sonhava com Tomás.
Via-o surgir diante de mim com a mesma farda que vestia no dia de sua morte.
Seu rosto permanecia tomado pela mesma expressão de dor e revolta.
E, em todos os sonhos, ele repetia as mesmas palavras:
- Um dia virei buscar-vos.
Então despertava coberto de suor, tomado por um terror que nem o passar dos anos foi capaz de apagar.
Pois, no fundo de minha alma, eu sabia que alguns pecados jamais encontram descanso.
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