Domingo, 04 de janeiro de 2026
Mesmo bebendo sem parar, a dor no meu peito não desaparece. Hoje completam-se três anos desde que descobri que tenho HIV. Rodolfo, meu ex-namorado, foi quem me transmitiu o vírus. Desde então, minha vida desmoronou.
Eu, Ariel Fontenelle, um jovem de família rica, tento seguir em frente, mas não consigo esquecê-lo.
Nós sempre viajávamos juntos. Eu gostava especialmente de ir para o interior, pintar árvores e paisagens, perder-me entre as cores e o silêncio.
- Eu te amo, Ariel - disse Rodolfo antes de me beijar.
Nós nos amávamos intensamente.
- Que droga... - murmuro, com as lágrimas escorrendo pelo rosto, antes de dar mais um gole no copo.
Minha última viagem também foi o dia em que pintei o meu último quadro.
Naquele dia, saí sozinho para pintar. Entrei na floresta em busca da árvore perfeita. Depois de muito procurar, finalmente a encontrei.
Mas eu não estava sozinho.
Havia um homem dormindo sob a árvore.
Ele estava sentado, encostado ao tronco. Usava um boné, o que me impedia de ver claramente seu rosto. Ainda assim, a forma como descansava ali me trouxe uma inspiração inesperada.
Sentei-me no chão, apoiei a tela sobre as coxas e comecei a desenhar com o lápis. Depois vieram as tintas. O quadro ficou perfeito: um homem adormecido sob uma árvore. Retratei cada detalhe - os galhos, as folhas e a textura do tronco.
Quando terminei, não consegui ir embora com a pintura. Senti-me mal por tê-lo retratado sem o seu consentimento. Então me aproximei em silêncio e deixei o quadro ao lado dele.
- Se eu soubesse que aquele seria o meu último quadro, teria levado a pintura comigo... - digo, bêbado e frustrado, antes de dar mais um gole na bebida.
Segunda-feira, 05 de janeiro de 2026
Bebi tanto que nem percebi quando amanheceu.
A noite foi agitada. Paguei bebidas para todo mundo, fiz muitos amigos e ri mais do que devia. Nem notei o momento em que desmaiei bêbado sobre o balcão. Só sei que dormi profundamente.
- Senhor, acorde - diz alguém, sacudindo-me de leve.
- O que foi? - murmuro, sonolento, erguendo a cabeça com dificuldade.
- Já é de manhã. Estamos fechando - explica a atendente do bar.
- Já estou indo - respondo, levantando-me devagar. - Aqui, para você - acrescento, tirando trezentos reais do bolso.
- Obrigada, senhor - diz ela, sorrindo ao pegar o dinheiro.
- Tchauzinho - murmuro antes de sair.
Entro no carro e sigo em direção à minha casa.
O sono pesa sobre meus olhos, e tudo o que eu quero é me jogar na cama.
No caminho, pego o celular para verificar as mensagens. Porém, ele escorrega da minha mão e cai no chão do carro.
Abaixo-me por um instante para pegá-lo.
Quando volto a olhar para a rua, o sinal está vermelho e há pessoas atravessando na faixa.
Estou rápido demais.
Não vai dar tempo de parar.
Giro o volante com força para o lado.
Mas há um homem ali.
O impacto é inevitável.
Ele é arremessado ao chão, e o carro bate violentamente contra um poste.
Então...
Tudo fica escuro.
Abro os olhos e me dou conta de que estou em uma cama de hospital. Minha cabeça dói.
Viro o rosto e vejo meu pai sentado ao lado da cama.
- Papai... - murmuro, com a voz sonolenta.
- Até que enfim você acordou - diz ele, aliviado, levantando-se de um pulo da cadeira.
- Minha cabeça dói... - reclamo, manhoso, levando a mão à testa.
- Dói porque você passou a noite inteira bebendo, seu moleque - responde, furioso, antes de me dar um tapa no ombro.
- Ai, pai! Isso dói! - reclamo, massageando o local.
- É para doer mesmo. Como você pôde beber e dirigir? - retruca, incrédulo. - Devia ter pegado um táxi. Depois, algum funcionário poderia buscar o carro.
- Não é pra tanto, pai - digo, sentando-me devagar na cama.
Meu pai arregala os olhos.
- Não é pra tanto? Você atropelou um homem! - explode. - Tem noção da gravidade disso?
Ao me lembrar do acidente, sinto um aperto no peito.
- Mas ele está bem? - pergunto, preocupado.
- Está fora de perigo. Sofreu apenas uma lesão no braço - responde meu pai.
Solto o ar que nem percebia estar prendendo.
- Nossa... que alívio.
- Alívio? - rebate ele, indignado. - O homem está furioso com você. Além de quase ser atropelado, ainda perdeu um dia inteiro de trabalho.
Dou de ombros.
- É só mandar um Pix - digo, com convicção. - Essa raiva passa rapidinho quando o senhor der dinheiro para ele.
- Você não cresce mesmo, moleque - diz meu pai, revoltado. - Sabe quem você atropelou?
- Quem? - pergunto, arqueando uma sobrancelha.
- Bernardo Castellani.
- Peraí... Castellani? Do Grupo Castellani? - digo, assustado.
- E agora, você ainda acha que um Pix vai resolver? - pergunta meu pai, incrédulo.
- Agora ferrou... - murmuro, chocado.
- Dá para você levantar daí e ir logo pedir desculpas! - ordena meu pai.
- Como quiser, pai - respondo, levantando-me.
Meu pai me conduz até o quarto de Bernardo.
Ao entrar, encontro-o dormindo na cama do hospital.
Meu Deus...
Que homem bonito.
Aproximo-me devagar e noto o braço enfaixado.
A culpa atravessa o meu peito.
Por minha causa, ele se machucou.
Bernardo Castellani.
Um dos empresários mais importantes do país.
Engulo em seco enquanto o observo dormir.
Será que um simples pedido de desculpas vai ser suficiente para amenizar a raiva dele?