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Meu namorado fantasma capítulo 17

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Pensamento

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Gal

O Álvaro arrumando viagem de cacau pra Belém só pra ter umas semanas com o Miguel longe da fazenda, e a Ariadne pedindo pra ele voltar em segurança. O perigo tava sentado à mesa do desjejum com ela.

O Álvaro arrumando viagem de cacau pra Belém só pra ter umas semanas com o Miguel longe da fazenda, e a Ariadne pedindo pra ele voltar em segurança. O perigo tava sentado à mesa do desjejum com ela.

Conteúdo da publicação

1805 - Brasil Colônia

Os anos foram passando, e eu não consegui me desfazer dos sentimentos impuros que nutro por Miguel.

Fiz de tudo para afastar tais pensamentos, mas não obtive êxito. Julguei que, ao me casar com Ariadne, tudo mudaria. Contudo, enganei-me. Continuei amando Miguel em segredo.

Sinto-me culpado por isso.

Ariadne é uma excelente esposa. É gentil, dedicada e cuida muito bem de mim. Também me deu uma filha, a coisa mais preciosa que possuo neste mundo.

Minha doce Helena.

Era manhã, e estávamos reunidos à mesa para o desjejum.

- Meu amor, em breve terei de partir para mais uma viagem de negócios - digo antes de levar a xícara aos lábios.

- Outra vez, Álvaro? - pergunta Ariadne, contrariada. - Não faz sequer uma semana que regressaste de uma viagem que durou meses.

- Eu sei, meu amor - respondo enquanto seguro sua mão. - Mas não posso perder esta oportunidade. Caso contrário, sofrerei grandes prejuízos.

- Eu não quero que o senhor viaje - diz Helena, já começando a chorar.

Levanto-me e tomo minha filha nos braços.

- Será por pouco tempo, minha princesa - digo enquanto beijo sua testa. - O papai voltará antes que possas sentir muita saudade.

- E prometo que será a última viagem deste ano - acrescento.

- Ainda assim, fico preocupada convosco e com Miguel - diz Ariadne, franzindo o cenho. - Tenho ouvido relatos terríveis sobre assaltos nas estradas e até mesmo nos rios. Todas as vezes que partis, meu coração permanece inquieto até vosso retorno.

- Não deveis atormentar-vos dessa maneira, meu amor - respondo com um sorriso tranquilo. - Prometo que terei toda a cautela necessária. Não sou mais um rapaz imprudente.

- E que negócio é tão importante desta vez? - pergunta ela, apoiando o rosto sobre uma das mãos. - Porventura não podeis adiá-lo para outra ocasião?

- Infelizmente não - explico. - Pretendo negociar nossa produção de cacau em Belém. A colheita deste ano foi extraordinária, e os comerciantes portugueses estão oferecendo valores muito acima do habitual.

- Além disso, levaremos especiarias e parte da madeira extraída de nossas terras - continuo. - Se as negociações correrem bem, teremos recursos suficientes para ampliar a fazenda e garantir um futuro ainda mais próspero para nossa família.

Os olhos de Ariadne suavizam-se, mas a preocupação permanece evidente.

- Então a viagem será longa? - pergunta ela em voz baixa. - Helena sentirá muito a vossa falta... e eu também.

Sinto meu coração apertar diante de suas palavras.

- Talvez algumas semanas - respondo. - Tudo dependerá das negociações e das condições da viagem. Contudo, prometo que regressarei o mais depressa possível.

- Espero que sim - murmura Ariadne, apertando delicadamente minha mão. - Porque esta casa parece vazia demais quando não estais nela.

Ariadne baixa os olhos por alguns instantes.

- Apenas regressai em segurança. Dinheiro algum vale mais do que a vida de minha família.

- Sempre retornarei para vós duas - digo com um sorriso.

Helena então me abraça com força, arrancando uma risada de todos à mesa.

Porém, enquanto observava minha esposa e minha filha, um pensamento vergonhoso atravessou minha mente.

A verdade era que havia outro motivo para eu aceitar aquela viagem.

Miguel também iria comigo.

Era tarde, e eu encontrava-me na residência de meu sogro, Dom Fernando Andrade de Vasconcelos. Estávamos reunidos na sala principal, tratando dos preparativos para minha próxima viagem de negócios.

A conversa seguia tranquila quando a porta se abriu, e Tomás entrou na sala.

O rapaz acabara de regressar de suas instruções militares. Aos quinze anos, já frequentava o treinamento dos cadetes e não escondia o orgulho que sentia ao vestir seu uniforme.

A casaca azul-escura parecia-lhe grande demais em alguns pontos, mas isso pouco lhe importava. Caminhava com o peito erguido como se já fosse um oficial do exército.

- Papai, creio que em breve serei aceito entre os cadetes mais avançados! - anunciou Tomás com entusiasmo. - Meu instrutor afirmou que possuo grande talento para a carreira militar.

- Isso é excelente, meu filho. - Dom Fernando sorriu com orgulho. - Sempre soube que nascestes para a farda.

- E um dia ainda me tornarei um grande oficial. Talvez até mesmo comandante de um regimento inteiro! - declarou Tomás. - Quero servir à Coroa e trazer honra ao nome de nossa família.

- Vejo que vossa ambição cresce a cada dia. - comentou Dom Fernando, divertindo-se.

- Um homem deve possuir ambição, papai. - respondeu Tomás. - Não desejo passar a vida inteira apenas administrando fazendas.

Todos riram discretamente.

A conversa foi interrompida quando Miguel entrou na sala com uma expressão incomum de entusiasmo.

- Papai, creio que desta vez dará certo. - disse ele, incapaz de conter o sorriso.

- E o que vos deixa tão confiante? - perguntei, curioso.

Antes que Miguel pudesse responder, Dom Fernando abriu um largo sorriso.

- Que excelente notícia, meu filho! - exclamou ele. - Fico feliz em saber que finalmente vos apaixonastes.

Senti meu coração falhar uma batida.

- Apaixonado? - perguntei, surpreso.

Miguel assentiu.

- Sim. Finalmente encontrei a mulher perfeita. - Havia convicção em sua voz. - Chama-se Constança. Ela compreende-me como ninguém jamais compreendeu.

Por um instante, senti um aperto estranho no peito.

- E quando pretendíeis contar-me isso? - perguntei, voltando os olhos para Miguel.

Miguel pareceu confuso diante de minha reação.

- E por que tamanho espanto, senhor Álvaro? - perguntou Dom Fernando.

Percebendo que todos me observavam, tratei de recuperar a compostura.

- Não é espanto algum. - Sorri discretamente. - Apenas fiquei surpreendido ao imaginar Miguel casado. Sempre me pareceu um homem pouco interessado em matrimônio.

Miguel soltou uma breve risada.

- Pois parece que até eu sou capaz de mudar de opinião.

- E quando teremos a honra de conhecer essa jovem? - perguntou Dom Fernando.

- Em breve, papai. - respondeu Miguel. - Se Deus permitir, pretendo apresentar-vos Constança muito em breve.

Ao ouvir aquelas palavras, forcei um sorriso.

Mas, no fundo, não conseguia afastar a estranha inquietação que tomava conta de meu coração.

Depois de finalmente encontrar-me a sós com Miguel, procurei-o nos jardins da propriedade.

Encontrei-o caminhando entre as roseiras, com as mãos cruzadas às costas e uma expressão tranquila, como se nada houvesse ocorrido.

- Que significa tudo isto? - perguntei, sem conseguir ocultar meu desgosto. - Que história é essa de casamento?

Miguel voltou-se para mim com serenidade.

- Preciso casar-me - respondeu com firmeza. - Já há demasiadas línguas maldosas ocupando-se de minha vida. Não desejo dar motivo para novos comentários.

- Não consentirei semelhante coisa - retruquei.

Miguel arqueou levemente uma sobrancelha.

- Com o devido respeito, senhor Álvaro, não cabe a vós consentir ou não. Além disso, Dona Constança é semelhante a mim.

Franzi o cenho.

- Semelhante a vós? Como devo compreender isso?

Miguel lançou um rápido olhar ao redor para certificar-se de que não havia ninguém por perto.

- Dona Constança possui inclinações que não deveria possuir - respondeu em voz baixa. - Assim como eu.

Por um instante, permaneci em silêncio.

- Estais a dizer...

- Sim - interrompeu-me ele. - Ela guarda um segredo semelhante ao meu.

Senti um aperto no peito.

- E estais certo disso?

- Perfeitamente. - Miguel assentiu. - Foi por essa razão que chegamos a um entendimento.

Observei-o atentamente.

- Então pretendeis unir-vos a ela sem afeição alguma?

- Pretendo cumprir aquilo que se espera de mim. - Sua voz permaneceu firme. - Terei esposa, filhos e um lar. O mundo verá um homem honrado, e isso bastará.

Aquelas palavras causaram-me profundo desconforto.

- E sois capaz de viver dessa maneira pelo resto de vossos dias?

Miguel baixou os olhos por um breve instante.

- Nem todos recebem da Providência a vida que desejam, senhor Álvaro. Alguns apenas aprendem a suportar a vida que lhes foi concedida.

- E vós chamais isso de viver? - perguntei, aproximando-me. - Condenar-vos a um matrimônio sem amor?

Miguel soltou uma breve risada amarga.

- Falais como se tivéssemos escolha.

- Talvez haja outra solução.

- Não há. - Ele balançou a cabeça. - O mundo não foi feito para homens como eu.

O silêncio instalou-se entre nós.

Ao longe, ouvia-se apenas o canto dos pássaros e o soprar do vento entre as árvores.

- Então essa é vossa decisão final? - perguntei.

- Sim. - Miguel sustentou meu olhar. - Dona Constança e eu teremos uma boa união. Ela poderá viver em paz, e eu também. Nossos pais ficarão satisfeitos, a sociedade nada suspeitará e nossos nomes permanecerão sem mancha.

Por mais que eu desejasse contestá-lo, não encontrei palavras.

Pois, no fundo, eu sabia que Miguel não falava de felicidade.

Falava apenas de sobrevivência.

Já era o fim da tarde quando Miguel e eu nos afastamos para uma parte mais isolada da mata.

Aquele era um dos poucos lugares onde podíamos estar a sós, longe dos olhos da família e dos criados.

Por alguns instantes, permiti-me esquecer o mundo.

Esquecer os deveres.

Esquecer os pecados.

Esquecer tudo.

Contudo, nossa tranquilidade foi interrompida por um grito.

- Miguel! Que significa isto?

Meu sangue gelou nas veias.

Voltei-me imediatamente e vi Tomás parado a poucos passos de nós.

Seu rosto estava pálido de espanto.

Rapidamente nos afastamos um do outro.

- Tomás... - murmurei.

Os olhos dele então recaíram sobre mim.

- Senhor Álvaro? - perguntou, horrorizado. - Era vossa senhoria?

- Tomás, não é o que parece - respondi, tomado pelo desespero.

- Não é o que parece? - repetiu ele, incrédulo. - Acabo de ver meu próprio irmão nos braços de outro homem!

Miguel deu um passo à frente.

- Tomás, escutai-me. Podemos explicar.

- Explicar? - exclamou ele. - Que explicação pode haver para semelhante abominação?

- Irmão, por favor...

- Silêncio! - gritou Tomás. - Sabeis o que estais fazendo? Sabeis a vergonha que lançais sobre nossa família?

Miguel baixou a cabeça.

- Nunca desejei causar sofrimento a ninguém.

- E ainda assim o causastes! - respondeu Tomás. - Nosso pai confia em vós. Ariadne confia em vós. E vós... vós os traístes a todos!

- Tomás, tende piedade - pedi. - Não desejávamos que descobrísseis desta forma.

- Piedade? - disse ele, com os olhos cheios de indignação. - Como esperais encontrar piedade para um pecado como este?

Miguel aproximou-se do irmão.

- Por favor, escutai-me por apenas um instante.

- Não! - respondeu Tomás, afastando-se. - Não quero ouvir mais nada.

Miguel caiu de joelhos diante dele.

- Irmão, suplico-vos. Não conteis a ninguém.

Ao vê-lo naquela posição, meu coração apertou-se.

- Miguel... - murmurei.

Tomás permaneceu imóvel por alguns segundos.

Seu rosto demonstrava conflito.

Raiva.

Decepção.

Dor.

Então ele balançou a cabeça.

- Não vos reconheço mais. - Sua voz saiu trêmula. - Nenhum de vós.

Sem dizer mais nada, virou-se e começou a afastar-se pela mata.

- Tomás! - gritou Miguel.

Mas ele não voltou.

Apenas continuou caminhando até desaparecer entre as árvores.

O silêncio que se seguiu pareceu sufocar-nos.

- Meu Deus... - murmurei, sentindo o pânico tomar conta de mim. - O que faremos agora?

Miguel permaneceu imóvel, olhando para o chão.

Sua respiração estava pesada.

Suas mãos tremiam.

- Não podemos ser expostos - disse ele em voz baixa.

Observei-o com apreensão.

- Miguel...

Ele levou as mãos ao rosto e começou a chorar.

- Se isto vier à luz, estaremos arruinados. - Sua voz falhava entre os soluços. - Nossa família será destruída. Nossa honra desaparecerá.

Senti um frio percorrer meu corpo.

- Ainda há tempo para falarmos com ele - respondi. - Talvez possamos fazê-lo compreender.

Miguel não respondeu.

Continuou apenas olhando para o chão, como um homem esmagado pelo próprio desespero.

De súbito, Miguel abaixou-se e começou a procurar algo entre as folhas secas espalhadas pelo chão da mata.

Observei-o sem compreender suas intenções.

Momentos depois, vi-o apanhar uma pedra.

Então ergueu-se lentamente.

E começou a caminhar na direção de Tomás.

Senti um frio terrível percorrer-me o corpo.

- Que pretendeis fazer? - perguntei, segurando-o pelo braço.

Miguel voltou o rosto para mim.

Jamais esquecerei a expressão que vi em seus olhos naquele instante.

- Tenho de fazê-lo. - Sua voz saiu baixa, trêmula e estranhamente fria.

- Miguel...

Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ele libertou o braço de meu aperto e continuou avançando.

Permaneci imóvel.

Incapaz de mover-me.

Incapaz até mesmo de compreender o que estava acontecendo diante de meus olhos.

Levei a mão à boca, tomado pelo horror.

Miguel aproximava-se cada vez mais do irmão.

E, embora eu testemunhasse tudo com meus próprios olhos, minha razão recusava-se a aceitar aquela realidade.

Tomás continuava afastando-se pela trilha, sem perceber que era seguido.

Enquanto isso, Miguel avançava em sua direção com a pedra firmemente apertada na mão.

- Meu Deus... - murmurei.

Mas nenhuma outra palavra foi capaz de deixar meus lábios.

O terror havia roubado de mim toda a capacidade de agir.

#romancesobrenatural

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