Bah, o anel que o Miguel escolheu foi parar no dedo dele e não no da Ariadne, e o Álvaro casou mesmo assim. Um segredo desses dentro da mesma família não fica guardado até o fim, tchê.
Meu namorado fantasma capítulo 16
Pensamento
Bah, o anel que o Miguel escolheu foi parar no dedo dele e não no da Ariadne, e o Álvaro casou mesmo assim. Um segredo desses dentro da mesma família não fica guardado até o fim, tchê.
Conteúdo da publicação
1800 - Brasil Colônia
O senhor Álvaro descobrira que eu não era uma mulher.
Jamais esquecerei a expressão de espanto que tomou conta de seu rosto naquele dia.
Desde então, aquela cena não abandona meus pensamentos.
Todas as noites sonho com nosso encontro nos jardins da fazenda.
Recordo-me de seus olhos brilhando enquanto me contemplava, da forma como sua voz se suavizava ao dirigir-se a mim e, sobretudo, do instante em que tomou minha mão e nela depositou um beijo.
Sei que tais pensamentos não são apropriados.
Sei que são sentimentos que jamais deveriam habitar meu coração.
Contudo, por mais que eu tente, não consigo afastá-los de minha mente.
Os dias passaram-se.
E o senhor Álvaro começou a cortejar minha irmã, Ariadne.
Aquilo me causava uma estranha aflição.
Não parecia justo.
Vi claramente, naquele dia, o encanto que seus olhos demonstravam ao contemplar-me.
Por vezes, pergunto-me se tudo seria diferente caso eu tivesse vindo ao mundo como mulher.
Talvez fosse a mim que ele estivesse dedicando flores, elogios e promessas.
Talvez fosse a mim que estivesse cortejando.
Ariadne, por sua vez, parecia cada dia mais apaixonada.
Nosso pai aprovou a aproximação entre ambos, e agora minha irmã não fala de outra coisa senão do futuro matrimônio.
Nesta manhã, encontrei-me na igreja.
A missa já havia terminado há algum tempo.
Os fiéis haviam partido, e o templo encontrava-se quase vazio.
Permaneci ajoelhado diante do altar, rezando em silêncio.
Implorava a Deus que me libertasse daqueles pensamentos pecaminosos.
Pedia forças para arrancar de meu coração sentimentos que jamais deveriam existir.
Foi então que ouvi uma voz familiar atrás de mim.
- Que pecado exige tamanho arrependimento? - perguntou alguém.
Reconheci imediatamente aquela voz.
Era Álvaro.
Mantive os olhos fechados.
- Um pecado bastante grave. - respondi em voz baixa.
Ouvi seus passos aproximarem-se.
- Custais a convencer-me disso. - disse ele. - Sempre vos julguei um homem virtuoso. Não consigo imaginar que tenhais cometido falta tão séria.
Suspirei discretamente.
- Estais perturbando minhas orações, senhor Álvaro. - respondi, abrindo finalmente os olhos e voltando-me para encará-lo.
Ele sorriu.
Aquele mesmo sorriso que tanto me atormentava.
- Perdoai-me. - disse ele. - Contudo, necessito de vossa ajuda.
E, ao dizer isso, aproximou-se ainda mais.
- Em que posso ser-vos útil? - perguntei, levantando-me do banco da igreja.
- Desejo que me auxilieis na escolha de um anel de noivado para oferecer à vossa irmã. - respondeu o senhor Álvaro, com um sorriso. - Julgo que ninguém conhece melhor os gostos da senhorita Ariadne do que vós.
Respirei fundo antes de responder.
- Talvez fosse mais prudente pedir conselho à minha mãe. Ela é muito mais indicada para tal assunto do que eu.
Álvaro soltou uma breve risada.
- Por obséquio, Miguel. Ainda não possuo intimidade suficiente com minha futura sogra para tratar de tais questões. Além disso, confio em vosso julgamento.
Ao sentir sua mão pousar levemente sobre meu ombro, meu coração tornou a acelerar de maneira inconveniente.
Por mais que desejasse recusar, acabei acompanhando-o.
Seguimos até uma joalheria situada próxima à praça principal da vila.
Assim que entramos, meus olhos foram atraídos pelo brilho das joias expostas nas vitrines. Havia anéis adornados com pedras preciosas, correntes de ouro delicadamente trabalhadas e broches de rara beleza.
Enquanto observava as peças, um anel em particular chamou minha atenção.
- Poderíeis mostrar-me aquele? - perguntei ao comerciante, apontando para a joia.
O homem retirou cuidadosamente o anel da vitrine e o colocou em minhas mãos.
Fiquei imediatamente encantado.
Era uma peça elegante, de ouro fino, adornada por uma pedra clara que cintilava sob a luz do estabelecimento.
Por alguns instantes, permaneci apenas admirando-a.
- Acreditais que Ariadne apreciará este? - perguntou Álvaro, observando-me atentamente.
- Sim, sem dúvida. - respondi quase sem perceber.
Movido pela curiosidade, coloquei o anel em um de meus dedos.
Serviu-me perfeitamente.
- Nossas mãos possuem tamanho semelhante. - expliquei, contemplando a joia. - Julgo que ficará muito formoso na mão de minha irmã.
Ergui a mão diante dos olhos, admirando o brilho do anel.
Foi então que voltei meu olhar para Álvaro.
E o que encontrei fez meu coração vacilar.
Ele observava-me em silêncio.
Havia em seus olhos uma doçura que eu conhecia muito bem.
Era o mesmo olhar que me lançara naquele primeiro encontro no jardim.
Por um breve instante, senti-me incapaz de respirar.
- Levarei este. - declarou Álvaro, sem desviar os olhos de mim.
Aquelas palavras trouxeram-me de volta à realidade.
Baixei lentamente a mão.
Aquele anel não era para mim.
Era para Ariadne.
O anel que eu acabara de escolher seria oferecido a ela como promessa de casamento.
E compreender isso despedaçou silenciosamente meu pobre coração.
Era tarde, e eu me encontrava nos jardins da fazenda, observando Tomás brincar sozinho entre as árvores.
Por um instante, desejei voltar a ter dez anos de idade.
Naqueles tempos, minhas únicas preocupações eram correr pelos campos, subir em árvores e inventar aventuras sem fim.
Como era simples ser criança.
- Que vos aflige? - perguntou Tomás ao aproximar-se.
Voltei-me para ele e percebi que me observava atentamente.
- Pareceis muito triste. - acrescentou.
Suspirei.
- São preocupações de gente crescida. - respondi com desalento. - Ainda sois muito novo para compreendê-las.
- Então não as expliqueis. - respondeu ele prontamente, segurando-me pelo braço. - Vinde brincar comigo.
Antes que eu pudesse protestar, Tomás já me arrastava pelo jardim.
- E de que pretendeis brincar?
Os olhos dele brilharam de entusiasmo.
- De exploradores! - declarou. - Eu sou o capitão de uma grande expedição, e vós sereis meu imediato.
Não pude evitar um leve sorriso.
- E para onde estamos navegando, capitão?
- Para uma ilha cheia de tesouros escondidos. - respondeu apontando para o pomar. - Mas cuidado! Há piratas por toda parte.
Tomás então pegou um galho caído e entregou-o a mim como se fosse uma espada.
Acabei aceitando a brincadeira.
Durante alguns minutos, corremos entre as árvores fingindo atravessar florestas perigosas, escapar de piratas e procurar um tesouro imaginário.
Ao final, encontramos uma velha caixa de madeira abandonada próxima ao celeiro.
- Encontramos o tesouro! - gritou Tomás, erguendo os braços em triunfo.
Sua alegria era tão sincera que, por alguns instantes, consegui esquecer todos os meus problemas.
No fim daquela semana, o senhor Álvaro ofereceu um jantar em celebração ao noivado e, diante das famílias reunidas, pediu oficialmente a mão de Ariadne em casamento.
Observei atentamente a mão de minha irmã. O anel que adornava seus dedos não era o mesmo que eu escolhera na joalheria. Talvez o senhor Álvaro não tivesse apreciado minha sugestão. Não sei por que tal pensamento me entristeceu tanto.
Os dias passaram-se. Depois vieram as semanas. E, antes que eu pudesse perceber, a data do casamento já estava marcada.
Os meses escoaram como água entre os dedos. Quando dei por mim, restava apenas uma semana para o matrimônio.
Naquela noite, encontrávamo-nos todos reunidos na fazenda dos Montenegro. Alguns primos, amigos próximos e parentes haviam sido convidados para celebrar as vésperas do casamento. O vinho corria livremente entre as mesas, e as conversas tornavam-se cada vez mais animadas.
À medida que as horas avançavam, muitos já se encontravam embriagados. Eu mesmo mal conseguia manter-me firme sobre as pernas.
Como a noite já estava avançada, resolvi regressar para casa. Despedi-me discretamente e deixei a propriedade.
- Miguel, esperai! - escutei a voz do senhor Álvaro atrás de mim.
Voltei-me e permaneci imóvel até que ele me alcançasse. Seu andar vacilante denunciava o excesso de vinho.
- Que desejais, senhor? - perguntei.
- Está muito tarde. Por que não passais a noite em minha fazenda? - perguntou Álvaro, pousando a mão sobre meu ombro.
Senti o calor subir imediatamente ao meu rosto e afastei-me.
- Peço-vos que não me toqueis, senhor Álvaro. - disse, dando um passo para trás.
- E por qual motivo? - perguntou ele, franzindo a testa. - Acaso meu toque vos causa algum embaraço?
Fechei os olhos por um breve instante. Já estava cansado de fugir. Cansado de mentir.
- E se assim for? - perguntei com amargura. - Que fareis?
- Como dissestes? - perguntou Álvaro, completamente surpreso, segurando-me pelos ombros. - Repeti o que acabais de dizer.
Não respondi.
Apenas fiquei observando seus lábios.
Então, movido por um impulso que sequer compreendi, aproximei-me e o beijei.
Por um instante, o mundo pareceu parar.
- Meu Deus... Miguel! O que estais fazendo? - exclamou Álvaro, afastando-se imediatamente.
No mesmo instante, percebi o que havia feito.
- Perdoai-me. - disse desesperado. - Perdoai-me, por favor.
- Então é verdade? - perguntou ele, completamente horrorizado. - Acaso nutris pensamentos impuros a meu respeito?
As palavras saíram antes que eu pudesse impedi-las.
- Sim. - respondi. - Sim, senhor. Tenho tais sentimentos.
Álvaro permaneceu imóvel, como se não acreditasse no que acabara de ouvir.
- Mas eu sou o noivo de vossa irmã. - disse ele, ainda chocado.
Baixei os olhos para o chão.
- Eu sei. - respondi com a voz trêmula. - E é justamente por isso que me odeio.
Respirei fundo antes de continuar.
- Contudo, meus sentimentos nasceram muito antes de conhecerdes Ariadne.
O silêncio que se seguiu foi insuportável.
Eu sequer conseguia encará-lo.
- Ide em frente. - murmurei. - Contai a todos.
Senti meus olhos arderem.
- Talvez, quando eu for condenado por carregar tais sentimentos, finalmente encontre paz e seja libertado deste tormento que trago em meu coração.
- Por favor, acalmai-vos. - disse Álvaro, segurando minhas mãos. - Não direi nada a ninguém.
- Já vos disse para não me tocar. - respondi, retirando as mãos rapidamente das suas. - Se permanecerdes tão próximo de mim, não conseguirei me conter.
- Então não vos contenhais. - disse Álvaro com firmeza, levando as mãos ao meu rosto.
- Como é? - perguntei, atônito diante de sua reação.
Por um instante, Álvaro permaneceu em silêncio. Então aproximou-se de mim e nossos lábios se encontraram.
Afastei-me alguns centímetros, incapaz de acreditar no que acabara de acontecer.
- Senhor Álvaro... - murmurei, incrédulo.
- Vinde comigo. - disse ele, tomando minha mão e conduzindo-me até o estábulo.
Meu coração batia tão depressa que mal conseguia respirar.
- Por que me beijastes? - perguntei, levando a mão ao peito.
- Perdoai-me. - respondeu Álvaro pensativo, enquanto levava a mão ao bolso do casaco. - Não fui capaz de dominar-me.
- Acaso também tendes sentimentos por mim? - perguntei, sem conseguir ocultar minha esperança.
Álvaro não respondeu de imediato.
Em vez disso, retirou algo do bolso.
Ao abrir a mão, revelou um anel.
Reconheci-o no mesmo instante.
Era o anel que eu escolhera na joalheria.
- Isto é... - murmurei, chocado.
- Sim. - respondeu Álvaro enquanto tomava minha mão e colocava o anel em meu dedo. - Desde o dia em que vos conheci, também não consegui libertar-me de tais sentimentos.
Senti os olhos marejarem.
- E o que faremos agora? - perguntei com a voz trêmula.
- Silêncio. - respondeu Álvaro suavemente, levando um dedo aos meus lábios.
Permanecemos nos encarando por longos instantes.
Então, vencidos pelos sentimentos que há tanto tempo guardávamos em segredo, aproximamo-nos novamente.
Naquela noite, escondidos dos olhares do mundo, entregamo-nos ao amor que tentáramos negar durante tanto tempo.
Os dias sucederam-se lentamente, e fiz todo o possível para evitar a companhia do senhor Álvaro. Contudo, por mais que me esforçasse, era impossível fugir por completo de alguém tão presente em meus pensamentos.
Então chegou o dia do casamento.
A igreja encontrava-se repleta de familiares, amigos e pessoas importantes da cidade. Os sinos repicavam alegremente, e todos pareciam tomados por um entusiasmo contagiante.
Ariadne estava deslumbrante em seu vestido branco.
Álvaro, por sua vez, trajava-se com a elegância própria de um cavalheiro prestes a iniciar uma nova vida.
Observei tudo em silêncio.
Vi quando trocaram os votos.
Vi quando uniram as mãos diante do sacerdote.
E vi quando foram declarados marido e mulher.
Foi uma cerimônia bela.
Talvez a mais bela que já presenciei.
Ainda assim, cada palavra pronunciada diante do altar parecia ferir meu coração.
Apesar da dor que carregava em meu peito, não fui capaz de sentir rancor.
Ao contemplar o sorriso radiante de minha irmã, compreendi que sua felicidade era verdadeira.
E, no fundo, isso bastava.
Pois, ainda que meu coração estivesse em pedaços, eu amava Ariadne.
E, acima de tudo, desejava vê-la feliz.
Thoughts
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PermalinkO Miguel ajoelhado na igreja vazia pedindo pra Deus tirar isso dele, enquanto em casa a irmã já só fala de casamento. Esse capítulo deixou o lado dele bem mais pesado que o do Álvaro.
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PermalinkBah, o anel que o Miguel escolheu foi parar no dedo dele e não no da Ariadne, e o Álvaro casou mesmo assim. Um segredo desses dentro da mesma família não fica guardado até o fim, tchê.
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