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Manuscrito das três faces

miguelv341
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Diácono do caos

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Pensamento

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Ovid

O gigante pálido rasgando o próprio peito e saindo dali uma tapeçaria com três luas em vez de sangue, isso ficou comigo. E o Sorry gaguejado antes do vento é o que mais assusta, porque é a única coisa que soa humana no meio de tudo. Obrigado por publicar

O gigante pálido rasgando o próprio peito e saindo dali uma tapeçaria com três luas em vez de sangue, isso ficou comigo. E o Sorry gaguejado antes do vento é o que mais assusta, porque é a única coisa que soa humana no meio de tudo. Obrigado por publicar isso aqui! O Manuscrito das três faces vai ter parte 2?

Conteúdo da publicação

Diácono do caos

A borboleta dançava entre as árvores, guiando-o cada vez mais para o interior da floresta — um lugar onde os galhos se entrelaçavam como dedos esqueléticos, bloqueando a luz e transformando o ambiente em um labirinto de troncos retorcidos.

Enquanto a noite caía, envolvendo a mata em um manto de breu, o lugar ganhou vida própria: uma existência sinistra e perturbadora.

A pequena borboleta, delicada, tinha asas que cintilavam como diamantes sob a luz fraca; era uma luminosidade suave e reconfortante, como um farol na tempestade.

Ela flutuou perto da criança, pairando a uma distância segura, mas ainda assim irradiando uma aura de calma e proteção, guiando-a rumo a um riacho cristalino — um oásis de tranquilidade em meio ao caos da noite.

A água, tão límpida que parecia suspensa no tempo, refletia a luz prateada da lua cheia, criando um espelho celestial que o convidava a se perder em sua beleza. A imagem da lua dançando na superfície da água era hipnotizante, engolindo aos poucos as suas dúvidas.

E então, no silêncio profundo da noite, quebrado apenas pelo murmúrio suave da água corrente, ele ouviu: um canto melodioso, puro e vibrante, emanava de algum lugar na escuridão.

Era o canto de um rouxinol, uma sinfonia noturna. As notas musicais, entrelaçadas ao movimento suave da água, tocavam sua alma, aquecendo seu coração gelado. A cada trinado, a fadiga desaparecia e seu corpo era fortalecido.

O rouxinol — um pequeno jinn — cantava para ele, e o menino sabia que não estava sozinho. Adentrando o riacho cristalino, suas feridas foram curadas; ele afundava ainda mais fundo, puxado por uma forte luz que engolfou seu corpo, fazendo-o cair em um estado de transe, conduzido pela passarela policromática que levava sua mente a um novo plano.

Tragados para dentro de um mundo sombrio e decadente, viram o sol se pôr no horizonte, no espetáculo de um céu rachado que sangrava; uma espiral vermelho-sangue tomava forma, com um sol negro em seu núcleo. Camada por camada, um novo palco foi se formando e, no horizonte, o rouxinol surgiu trazendo uma figura negra, detentora de um único olho e dois pares de chifres que se estendiam como galhos de árvores, ostentando um grande sorriso sem lábios e com duas fileiras de dentes brancos.

Batendo os dentes em uma sincronia etérea, as palavras decorreram:

— Apresente os preparativos; eles estão à nossa porta.

E das sombras de uma massa de fumaça branca, surgiu uma sequência de formas nascidas dos pensamentos.

Cadeias ondulantes de montanhas verde-claras subiam e desciam, escurecendo sob as copas das árvores, cortadas por estradas que percorriam todas as suas extremidades. Ao longe, suas belas curvas ficavam expostas; mas, como no vale da estranheza, o clima despencou, a vida morreu e o branco inundou o ambiente.

Despertando do chão, as dobras da terra se moveram e um gigante pálido, careca, de olhos fundos e escuros e com um longo sorriso sem lábios de orelha a orelha, ergueu o pescoço longo; ao redor de sua cabeça, um círculo flamejante se acendeu.

De um poço negro e profundo, seus olhos se voltaram para o grupo, que logo teve de ser lançado para trás por seus protetores, a fim de resguardá-los da presença daquele cuja existência fora banida por distorcer e remodelar o código-fonte do mundo.

Parado em um olhar fixo e doentio, o gigante pálido bateu os dentes, movendo a mandíbula na tentativa de pronunciar algo que logo saiu:

— …Im… im… Sorry!

Como uma explosão no espaço, sua voz trouxe à tona ventos violentos que arrastaram tudo em seu caminho. Moveu as mãos longas em direção ao próprio tórax, cravando os dedos na carne; porém, em vez de sangue, jorrou um líquido viscoso e negro. Quanto mais ele rasgava o peito, mais intensamente o fluido jorrava. Ao terminar de abrir-se por completo em um movimento violento, um breu se revelou — um abismo profundo de onde uma tapeçaria azul, com bordas marrons e três luas cheias, voou para fora como chakrams de prata.

Uivando para as três luas, surgiram três cães com o tronco entrelaçado e as três cabeças viradas para a esquerda, de costas para a tapeçaria; logo atrás deles, vieram os outros dois visionários divinos: um deles, um boneco pálido com a cabeça aberta por uma espada que expele uma chama ardente, estava estirado sobre um trono de estofamento vermelho e ossos brancos.

Ao seu lado, um ser de corpo desproporcional, pele azul, pernas finas e tronco e braços grandes e fortes fumava um longo charuto, cuja fumaça se transformava em sua barba e cabelo.

Avançando logo atrás, uma matilha com corpos de cavalo, cauda de cobra e monólitos de pedra negra repletos de olhos no lugar da cabeça corria, posicionando-se em duas filas, um voltado para o outro, formando o caminho para o dragão.

"— O-o… o que é isto!?"

Unindo-se ao ciclope negro, o rouxinol tomou uma nova forma, voltando-se para o garoto com um leve sorriso no rosto:

"— Humph… este é o Arquiteto, o modelador dos desastres naturais onipresentes."

Atravessando a fileira de cães grotescos, o menino chegou ao limite da luz: a borda do horizonte cósmico, a fronteira do que se pode tocar e que está em constante expansão, onde só podemos observar a luz de regiões que tiveram tempo de chegar até aqui.

Do lado de fora do nosso horizonte, no além-mundo, atravessando fenômenos universais e cruzando a borda, a Via Láctea é dobrada sobre si mesma como uma folha.

Comprimindo seus braços espirais, uma fusão ocorre, rangendo como ossos antigos. Da compressão nasce uma cauda colossal, um rastro de matéria, uma lâmina astral. Essa cauda atravessa o vazio primordial, rasgando as bordas do universo observável, onde a expansão ainda luta para existir.

Ao tocar o limite, o espaço se curva e é cortado; é fendido como tecido diante de uma foice — o limite até onde a luz toca —, delimitando assim a passagem para o além.

Navegando sobre o universo exterior, um corpo azul-vibrante com listras prateadas movia-se sobre as águas negras, cortando as ondas com seis braços ramificados que lembravam asas.

Nascido da primeira formação das águas primordiais, ele atravessou o vazio, deslizando sobre as ondas gravitacionais e aproximando-se, pouco a pouco, da grande colisão entre o Shanay-Timpishka e a névoa roxa de Andrômeda. Com sua presença, o dragão azul abriu a boca colossal, revelando um breu absoluto que engoliu toda a luz à sua frente, dando fim aos raros fenômenos do vasto universo.

"— Assim como muitos outros, este é um pilar de sustentação das ilhas; mas, diferente dos demais, detém autonomia. Não tenham medo: o dragão azul não passa de uma passagem, nada mais do que isso."

Passando por um enorme vórtice que surgiu além das três montanhas divinas, sugando o tempo e o espaço como um halo, o pequeno rouxinol tomou uma forma humanoide.

"— Mas… mas eu não…" — Relutante diante da imensidão que contemplava, o menino acabou cedendo ao ser chutado para a frente por seu jinn.

Assim como eles, o dragão azul fez seu movimento: ao abrir a boca, algo extraordinário banhou a visão do garoto. O que viu foi uma vasta cadeia de escadarias penduradas em prateleiras, estendendo-se por centenas de metros. Havia tantos andares que só de olhar para a escada em espiral sentia-se vertigem.

Na escuridão, surgiam novos caminhos que contorciam os registros da verdade dos universos e dimensões: o começo e o fim, a história e as memórias do tempo e do espaço.

Um chamado sussurrou em sua mente, afastando a inquietação e o medo, deixando apenas o desejo.

Tomando forma, um papiro surgiu — tão frágil que parecia desfazer-se ao menor toque. E assim foi: ao tocá-lo, o papel reduziu-se a um pó amarelado que voou até suas narinas e adentrou seu cérebro, mergulhando o menino em transe completo. Como se estivesse possuído por espíritos insanos, ele experimentou duas emoções extremas simultaneamente: prazer e dor. Mesmo suportando tudo isso, não desviou o olhar dos registros. Acabara de passar pelo ponto final, restando apenas o último pedaço da casca, quando ouviu uma voz estranha — um chamado sussurrado para que o tocasse, o qual foi prontamente atendido.

Tocando o ombro de seu protegido, o orador — de corpo andrógino, voz grave, cabelos curtos e pele pálida como a de um defunto, refletindo uma beleza estranhamente doentia — manifestou-se. Tinha o rosto forte e inexpressivo, com sobrancelhas grossas, e vestia trajes pretos. Tomou a frente, pegou o papiro velho e o absorveu pela palma da mão, cobrindo o próprio corpo de letras e tornando-se o próprio livro.

Estendendo a palma da mão, o orador moveu os lábios:

"— Se é isto o que quer, aqui está a chave para o seu desejo!"

Sem olhar para trás, o protegido agarrou a mão de seu protetor, sendo puxado para dentro de um vórtice de ligação para um novo plano de existência — um ponto constante do fluxo espaço-tempo.

Sob um céu vermelho-escuro, erguia-se um enorme palácio de jade negra.

Quando as trevas surgiram, cobriram o vazio, alterando-o a ponto de forçá-lo a uma evolução que o transformou no próprio abismo.

Do movimento brusco do abismo, uma profundeza se abriu; dela, uma mão se ergueu e, da escuridão, uma besta convergiu.

Inúmeros seres — numerosos demais para serem contados, filhos da longa noite — prostravam-se reverentemente diante de um ponto fixo na vasta terra deste mundo estranho.

Neste momento, chamas inundaram o mundo inteiro, consumindo e devorando tudo o que tocavam.

Uma vasta quantidade de eventos inundou sua mente como se a estivesse rasgando. Mesmo esse breve fluxo superava facilmente os anos de todas as formas de vida da Terra.

Foi um processo de nascimento; até mesmo a visão de si se formando na escuridão e no caos permaneceu em suas memórias.

Uma majestade e uma pressão que pareciam envolver tudo o englobaram; era impressionante estar diante da presença deste ser. Por um momento, até mesmo o escolhido ficou cativado pela reverência e, quando a figura ao centro se revelou nas profundezas infinitas, junto com a ferocidade podia-se sentir uma natureza puramente demoníaca.

Ao olhar para os olhos dele, um abismo de chamas negras atravessou suas veias. Essa energia que inundava seu corpo era diferente daquela energia pura que normalmente o nutria no plano divino. Não era a verdadeira energia que ele conhecia; era como uma escuridão sem fim se infiltrando, reminiscente de um abismo. E dentro dessa escuridão... havia algo brutal, a ponto de provocar desespero. O garoto foi tomado por uma sensação estranha diante dessa energia brutal e desconhecida. Ele deveria ter rejeitado esse poder perigoso, mas, em vez disso, gradualmente se acostumou a ele, sentindo uma excitação crescente. Não — seria mais preciso dizer que ele estava sendo corroído rapidamente. Em determinado momento, uma névoa negra começou a emanar de todo o seu corpo.

A névoa decadente de partículas das cinzas do purgatório, revelando no clarão da tempestade de raios que a sua frente se formou: um lugar no horizonte perdido de desértico e acinzentado, um casal encontrado nas lendas.

Notando sua presença, o mundo ficou em silêncio, tudo se apagou e regrediu a uma tela branca que, logo em seguida, foi pintada.

— Então saiu outro cavalo, o primeiro; e este era vermelho. Ao seu cavaleiro foi dado poder para tirar a paz da terra e fazer com que os homens se matassem uns aos outros. A ele foi dada uma grande espada. Põe uma faca à tua garganta, se és homem de grande apetite, pois este é o ser mais insaciável de todos.

Thoughts

  • tgoncalves

    O papiro ficou-me na cabeça. Um registo que só se deixa ler ao desfazer-se, e ele toca-lhe à mesma. É a única passagem em que alguém paga mesmo alguma coisa; os dragões e o gigante não cobram nada a ninguém.

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  • por_tras_do_veu

    O dragão impressiona, mas o peso está no gigante banido, castigado por remodelar o código-fonte do mundo e que ainda assim pede desculpa. Um castigo que arranca um pedido de desculpa transforma a cena num julgamento.

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  • Ovid

    O gigante pálido rasgando o próprio peito e saindo dali uma tapeçaria com três luas em vez de sangue, isso ficou comigo. E o Sorry gaguejado antes do vento é o que mais assusta, porque é a única coisa que soa humana no meio de tudo. Obrigado por publicar isso aqui! O Manuscrito das três faces vai ter parte 2?

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  • tomista_de_bancada

    O fecho junta duas coisas que vêm de lugares bem diferentes. O cavaleiro do cavalo vermelho é o Apocalipse, mas a faca na garganta é Provérbios, e lá é conselho de mesa, sobre apetite diante de um poderoso. Soldadas assim, a fome vira a arma, e isso me ficou na cabeça mais do que o dragão.

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