Pular para o conteúdo
Carregando…

Jornada do Escravo x Jornada do Herói

aleroz
Pensamento

Pensamento

WeAreSigmarsHeirs

Depois do Quixote e dos moinhos, quem cabe aqui é o Velho do Restelo, de Os Lusíadas: fica no cais falando contra a glória enquanto as naus partem. O seu escravo da jornada tem algo dele, é quem fica em terra e sabe que alguém vai ter que viver com o que…

Depois do Quixote e dos moinhos, quem cabe aqui é o Velho do Restelo, de Os Lusíadas: fica no cais falando contra a glória enquanto as naus partem. O seu escravo da jornada tem algo dele, é quem fica em terra e sabe que alguém vai ter que viver com o que a aventura deixar.

Conteúdo da publicação

Hoje proponho a Jornada do Escravo.

Eu mesmo não consigo mais seguir a Jornada do Herói. Foram tantos antibióticos para enfrentar o realismo que isso já me dá náuseas. Mas esse é um problema pessoal.

Lembro-me de 2005, quando jogava God of War. Eu me sentia Kratos, arrancando membros, cercado por sangue e violência, embalado por aquele tipo de jogo épico, com músicas épicas e desafios grandiosos.

Em determinado momento, durante uma fase mais calma, enquanto atravessava uma ponte aparentemente insignificante, uma criança de sete anos se aproximou e me perguntou:

— Ô, tio... O que tem debaixo dessa ponte? O que tem lá depois dela?

Naquele momento, o pirralho me irritou. Era óbvio que não havia nada ali. Era apenas uma estrutura da engenharia do jogo, um detalhe de cenário. Não faria sentido existir alguma coisa embaixo daquela ponte ou depois dela. Não era importante para a história.

A pergunta me tirou da concentração. Não falei nada para o moleque, que continuou ao meu lado, naquela loja de jogos por hora. Mas fiquei pensando no que aquele infeliz havia me perguntado. E no fato de que ele tinha razão.

Aquilo me incomoda até hoje.

Aquela criança surgiu como a última cortada no efeito do antibiótico da Jornada do Herói. Com uma pergunta simples, ela me tirou do eixo. Comecei a questionar tudo. Afinal, fazia muito sentido perguntar:

O que havia debaixo da ponte? E o que existia depois dela?

Com o passar dos anos, assisti a filmes grandiosos, distopias, guerras épicas e revoluções capazes de inflar o fígado. Histórias que nos fazem sentir a liberdade chegando como uma recompensa, como se bastasse tocar fogo em tudo para acreditar que a fumaça é sinal de rendição.

Mas comecei a pensar: o que acontece depois das revoluções?

Quem limpa tudo?

Quem trabalha na manhã seguinte?

Quem reconstrói as cidades?

E aqueles que sequer participaram da revolução? As pessoas que ficaram de fora porque sabiam que, no dia seguinte, precisariam continuar vivendo? Gente que não podia abandonar o trabalho, a família, os filhos, as contas e as pequenas obrigações que não desaparecem quando um regime cai.

Depois da revolução, vamos todos cantar Imagine, de John Lennon?

Imagine all the people
Livin' life in peace
You...

Comecei a criar certo ranço da letra. Ela é como uma flor colocada sobre um caixão: bonita, delicada, mas cercada pela lembrança de que amanhã tudo pode morrer. E, mesmo assim, a canção continua linda para diabo.

Os heróis que tocam fogo em tudo viram estátuas. Aqueles que constroem o amanhã permanecem anônimos. Quando descobrimos quem foram os verdadeiros heróis, às vezes já nem sabemos seus nomes.

Gente que fez mais do que o herói de ego inflado, aquele que precisa de um inimigo para se reconhecer como herói. Enquanto ele luta, alguém precisa cuidar dos detalhes. Alguém precisa fazer o pão de amanhã, consertar os encanamentos, recolher os escombros, abrir as portas e garantir que a vida continue.

E, muitas vezes, são os escravos da história que cuidam desses detalhes.

Assisti a tantos filmes que comecei a prever o que aconteceria. Tantas distopias protagonizadas por adolescentes que derrubam governos, como se um sistema inteiro pudesse ruir porque um grupo de jovens descobriu que o mundo é injusto. Na ficção, tudo parece possível. Na realidade, os sistemas sobrevivem até mesmo às pessoas que juraram destruí-los.

O antibiótico da Jornada do Herói já não funciona.

Os romances são previsíveis. Os vilões são caricatos. As lutas seguem coreografias esperadas. Os protagonistas carregam destinos grandiosos, e os conflitos parecem construídos para que, no fim, tudo encontre seu lugar numa conclusão satisfatória.

É claro que também envelhecemos. Acumulamos repertório, reconhecemos fórmulas e passamos a enxergar os mecanismos por trás das histórias. Talvez parte do meu cansaço venha disso.

Mas não é só isso.

A pergunta da criança continua ali, debaixo da ponte.

O que existe além da liberdade?

O que existe além do Inferno da Divina Comédia?

O que existe além do terror cósmico? Além dos deuses? Além das respostas grandiosas que inventamos para justificar nossa existência?

Quem nos criou?

Se somos um holograma, qual seria o sentido de construir um supercomputador quântico intergaláctico apenas para enganar seres humanos que, diante da vastidão do universo, parecem fungos crescendo num quarto fechado?

O que temos de tão especial?

Talvez o problema da Jornada do Herói seja justamente a necessidade de transformar a existência numa história que faça sentido. Precisamos de um chamado, de um inimigo, de uma provação, de uma vitória e de uma recompensa. Precisamos acreditar que o sofrimento nos levará a algum lugar e que, no final, tudo terá valido a pena.

Mas e se não houver recompensa?

E se o mundo não estiver esperando por um herói?

Escritores passam boa parte da vida imaginando a própria existência pela lógica da Jornada do Herói. Entretanto, na prática, muitos vivem a Jornada do Escravo. Trabalham, produzem, insistem, fracassam, recomeçam e esperam ser reconhecidos. Alguns só recebem reconhecimento depois de mortos, como tantos pintores e artistas que não conseguiram viver do próprio trabalho.

Infelizmente, muitas vezes é assim que acontece.

Mas isso não é um convite à desistência. Continue.

Continue escrevendo, criando e vivendo, mesmo que o reconhecimento não chegue. Não entregue sua existência inteira a um amanhã que talvez nunca lhe devolva aquilo que você investiu nele.

Ninguém tem certezas. Temos apenas o agora.

Morar no amanhã é alimentar a ansiedade. Isso não significa ser inconsequente, abandonar o planejamento ou agir como uma criança que acredita que basta desejar para que o mundo obedeça. Também não significa cair no maniqueísmo infantil da Jornada do Herói, dividindo o mundo entre mocinhos e vilões, liberdade e opressão, luz e trevas.

Seja maquiavélico, se for preciso. Observe as relações de poder, compreenda os interesses, reconheça as contradições. Seja coerente com o mundo em que vivemos, não com aquele que gostaríamos que existisse.

A vida é risco. Vivemos por um fio.

O risco é a jornada sonhada do herói.

O fio é a jornada da realidade do escravo.

#filosofia #reflexão #motivação #vida #liberdade #sociedade #psicologia #literatura #escrita #pensamentos #realidade #reflexõesdavida #desabafo #desenvolvimentopessoal #existência #revolução #distopia #cinema #cultura #histórias

Thoughts

  • WeAreSigmarsHeirs

    Depois do Quixote e dos moinhos, quem cabe aqui é o Velho do Restelo, de Os Lusíadas: fica no cais falando contra a glória enquanto as naus partem. O seu escravo da jornada tem algo dele, é quem fica em terra e sabe que alguém vai ter que viver com o que a aventura deixar.

    Permalink

Publicações relacionadas