Capítulo 11 — A Bondade dos Carrascos
Hamilton permaneceu olhando para Mary.
A menina tentava conter o choro. Passava as pequenas mãos pelo rosto, enxugando lágrimas que insistiam em aparecer.
O diretor observava tudo com uma tranquilidade quase desconcertante.
— Amélia.
— Sim, doutor?
— A partir de hoje, quero que você cuide pessoalmente desta menina.
A enfermeira pareceu surpresa.
— Pessoalmente, senhor?
— Foi o que eu disse.
Hamilton retornou à poltrona, acomodando-se atrás da grande mesa de madeira.
— Quero que ela seja alimentada adequadamente. Três refeições por dia, no mínimo. Verifique se possui algum ferimento e providencie o tratamento necessário.
Mary ergueu discretamente o rosto.
Alimentada.
Tratamento.
Eram palavras que, depois daquela noite, pareciam pertencer a outro mundo.
— E mais uma coisa — continuou Hamilton. — Não quero que a trate mal.
Amélia permaneceu imóvel.
— Doutor, com todo o respeito, essa menina é acusada de...
— Eu sei perfeitamente do que ela é acusada, e não tem diferença alguma.
A interrupção foi tranquila.
Não houve aumento no tom de voz.
Ainda assim, Amélia se calou imediatamente.
Hamilton juntou as mãos sobre a mesa.
— Não lhe perguntei o que pensa a respeito dela. Dei-lhe uma orientação.
A enfermeira abaixou ligeiramente a cabeça.
— Sim, senhor.
Mary acompanhava a conversa sem compreender.
Aquela era a mesma mulher que a ameaçara de morte poucos minutos antes.
Agora, diante daquele homem, parecia incapaz de contrariar uma única palavra.
Hamilton voltou sua atenção para a criança.
— Está com fome, Mary?
A menina hesitou.
Seu estômago doía desde a noite anterior, mas tinha medo de responder.
— Um pouquinho...
— Um pouquinho? — repetiu ele, esboçando um sorriso.
Mary assentiu.
— Então vamos resolver isso.
Olhou novamente para Amélia.
— Providencie comida assim que saírem daqui. E quero que ela tenha um quarto apropriado.
— Vou solicitar uma vaga no alojamento feminino.
— Não.
A resposta veio imediatamente.
Hamilton se inclinou para a frente.
— Ela não ficará com as outras crianças.
Amélia franziu a testa.
— Onde deseja acomodá-la?
— No setor reservado. Prepare um quarto individual, com cama, cobertores e tudo o que for necessário.
— Mas aquele setor não está sendo utilizado, doutor.
— Então volte a utilizá-lo.
Houve um breve silêncio.
— E quero discrição absoluta — acrescentou Hamilton. — Nenhuma das outras crianças deverá saber que Mary está aqui.
A menina olhou para ele.
Não entendeu por que sua presença precisava ser escondida.
Hamilton prosseguiu:
— Não quero comentários entre funcionários. Não quero visitas. Ninguém deve entrar naquele setor sem minha autorização.
Amélia assentiu lentamente.
— Entendido.
— E não haverá necessidade de comunicar a presença dela aos demais setores. Tudo relacionado à menina deverá passar diretamente por mim.
Dessa vez, Mary percebeu algo diferente na expressão da enfermeira.
Não era raiva.
Era compreensão.
Como se Amélia finalmente tivesse entendido alguma coisa que permanecia completamente desconhecida para ela.
Hamilton abriu uma gaveta e retirou uma pequena agenda.
Folheou algumas páginas.
Parou em uma delas.
— Daqui a dez dias teremos uma nova reunião.
Amélia ergueu os olhos.
— Já está confirmada?
— Está.
Ele fechou a agenda.
— Quero levá-la comigo.
Mary não compreendeu a referência.
Olhou para a enfermeira e depois para Hamilton.
— Eu vou sair daqui?
A pergunta interrompeu a conversa.
Pela primeira vez desde que entrara na sala, sua voz demonstrava algo diferente do medo.
Esperança.
Hamilton voltou-se para ela.
— Talvez, Mary.
A menina apertou as mãos uma contra a outra.
— Vou voltar pra minha casa?
Ele a observou por alguns segundos.
— Primeiro, precisamos cuidar de você.
Mary abaixou o rosto.
Não era exatamente uma resposta.
Mas também não era um não.
E, naquele momento, isso foi suficiente para fazê-la imaginar que ainda existia uma maneira de voltar para casa.
Hamilton tornou a dirigir-se à enfermeira.
— Separe algumas roupas. Quero que experimente diferentes peças.
— Que tipo de roupas, doutor?
— Vestidos, sapatos, o que houver disponível e estiver em boas condições. Providencie peças adequadas ao tamanho dela.
Amélia fez um breve movimento afirmativo.
— Também quero que separe maquiagem.
Mary ergueu os olhos.
Maquiagem.
Lembrou-se imediatamente de sua mãe.
Maria Rosa costumava sentar-se diante de um espelho pequeno, algumas vezes quebrado nas extremidades, e passar cores pelo rosto antes de sair.
Mary gostava de observá-la.
Achava bonito como sua mãe parecia transformar-se diante daquele vidro.
Às vezes, a mãe deixava que ela experimentasse um pouco de batom.
Era uma lembrança boa.
Uma das poucas que permaneciam intactas.
— Maquiagem? — repetiu Amélia.
— Sim. Separe o necessário. Depois veremos o que será utilizado.
Hamilton fez uma pausa.
— Não quero improvisações no dia da reunião.
— Tudo estará pronto, doutor.
— Ótimo.
A enfermeira deu um passo na direção da porta.
— Posso levá-la?
Hamilton assentiu.
— Pode.
Mas, antes que saíssem, chamou novamente:
— Mary.
A menina se virou.
— Sim?
O diretor abriu um sorriso discreto.
— Se você se comportar bem, as coisas poderão melhorar bastante para você.
Mary tentou sorrir.
Não sabia se deveria agradecer.
Ainda assim, agradeceu.
— Obrigada, moço.
Hamilton pareceu apreciar a resposta.
— Doutor Hamilton — corrigiu, delicadamente.
— Obrigada, doutor Hamilton.
— Muito bem.
Amélia conduziu Mary para fora da sala.
A grande porta de madeira se fechou atrás delas.
No corredor, o silêncio parecia maior do que antes.
A enfermeira caminhava depressa, mas já não puxava a menina pelos braços.
Mary tentava acompanhar seus passos.
Depois de alguns metros, criou coragem para perguntar:
— Moça?
Amélia não respondeu.
— Eu vou poder ver minha mãe?
A enfermeira continuou andando.
— O doutor falou que talvez eu possa sair...
Amélia parou.
Virou-se lentamente.
Por alguns instantes, pareceu prestes a dizer alguma coisa.
Mas recordou as ordens recebidas.
— Você ouviu o que ele disse. Precisa se comportar.
Mary assentiu.
— Eu vou me comportar.
Amélia voltou a caminhar.
A menina a seguiu.
Dessa vez, passaram por outro corredor.
O ambiente era mais limpo. Havia portas de madeira em vez de grades, janelas com cortinas e uma iluminação menos desagradável.
Mary não entendia por que aquele lugar parecia tão diferente da cela onde passara a noite.
Ao chegarem diante de uma das portas, Amélia retirou uma chave do bolso.
Abriu.
O quarto era pequeno, mas possuía uma cama.
Havia também um armário, uma cadeira e uma janela voltada para o pátio interno.
Mary ficou parada na entrada.
Olhou para a cama.
Depois, para a enfermeira.
— Eu posso dormir aí?
Amélia soltou um suspiro.
— É para isso que serve uma cama, garota.
Mary entrou devagar.
Aproximou-se do colchão e tocou o lençol com a ponta dos dedos.
Estava limpo.
Sentou-se cuidadosamente, como se temesse estragar alguma coisa.
— Vou mandar trazer comida — informou Amélia.
Mary levantou o rosto.
— Obrigada.
A enfermeira não respondeu.
Caminhou até a porta e, antes de sair, olhou uma última vez para a menina.
Havia algo estranho naquela imagem.
Uma criança sentada sobre uma cama simples, agradecendo por coisas que jamais deveriam ter lhe sido negadas.
Amélia fechou a porta.
A chave girou na fechadura.
Mary ouviu o som.
Era diferente do cadeado da cela.
Mais discreto.
Quase delicado.
Mas continuava sendo uma porta trancada.
Sozinha, Mary deitou-se sobre o colchão.
O travesseiro tinha cheiro de sabão.
A janela deixava entrar um pouco de sol, e o quarto estava suficientemente aquecido para que ela não precisasse encolher o corpo.
Pela primeira vez desde que deixara a escola, sentiu que talvez as coisas pudessem melhorar.
Lembrou-se das palavras do diretor.
Se você se comportar bem, as coisas poderão melhorar bastante para você.
Mary não sabia o que aconteceria dali a dez dias.
Não sabia quem estaria naquela reunião.
Tampouco compreendia por que precisava experimentar roupas ou usar maquiagem.
Mas uma ideia começava a crescer em seus pensamentos.
Talvez o doutor Hamilton fosse uma pessoa boa.
Talvez ele acreditasse que ela não havia feito nada.
Talvez pudesse ajudá-la a voltar para casa.
A menina fechou os olhos.
Imaginou Maria Rosa abrindo a porta, chamando-a pelo nome e perguntando onde estivera durante todo aquele tempo.
Pela primeira vez, conseguiu adormecer sem chorar.
Não porque estivesse segura.
Mas porque acreditava estar.
(Existem esperanças que não iluminam o caminho. Apenas mascaram o perigo e enfraquecem o instinto.)