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Filhos do Abandono

RafaelDuGueto

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Capítulo 10 — A Casa de Recuperação para Menores Infratores

Mary chegou à Casa de Recuperação para Menores Infratores sem compreender por que estava ali.

Ainda trazia consigo as lembranças da escola, os gritos dos adultos e a imagem de Amanda caída no banheiro.

Havia passado o dia tentando explicar que não fizera nada.

Ninguém quis ouvi-la.

O edifício era antigo, cercado por muros altos e grades enferrujadas. As paredes, marcadas pela umidade, pareciam guardar histórias que ninguém tinha coragem de contar.

Ao atravessar o portão principal, Mary sentiu o peso de uma realidade que não conseguia compreender.

Não sabia quanto tempo permaneceria naquele lugar.

Não sabia quando voltaria para casa.

E, principalmente, não sabia se alguém viria buscá-la.

Entre os funcionários que receberam a menina estava Amélia, uma enfermeira de expressão severa e olhos que pareciam incapazes de demonstrar qualquer compaixão.

Desde que soubera da chegada de Mary, Amélia havia destinado um futuro àquela criança.

Um futuro que não constava em nenhum documento da instituição.

A enfermeira integrava um esquema criminoso que se escondia atrás do aparente compromisso da casa de recuperação.

Seus integrantes eram homens e mulheres capazes de negociar a dignidade alheia com a mesma indiferença com que discutiam o preço de uma mercadoria.

E seus clientes, embora raramente mostrassem o rosto, conseguiam ser ainda piores.

À frente daquela organização estava o doutor Hamilton Nóbrega.

Diretor da instituição.

Responsável pela segurança, pelo tratamento e pela recuperação dos menores que ali chegavam.

Ao menos oficialmente.

Mary foi conduzida por um corredor estreito.

As lâmpadas amareladas iluminavam mal o caminho. O cheiro de umidade se misturava ao de produtos de limpeza, incapazes de disfarçar o abandono do edifício.

Ao final do corredor, Amélia abriu uma porta de ferro.

A cela era pequena.

Não havia cama, cobertor ou qualquer objeto que oferecesse conforto.

A menina foi deixada ali, sem roupas, comida ou explicação.

— Por favor, eu quero minha mãe — pediu Mary.

Amélia não respondeu.

— Eu não fiz nada...

A enfermeira fechou a porta.

O som do cadeado se chocando contra a ferragem percorreu o corredor.

Mary correu até as grades.

— MOÇA! POR FAVOR!

Nenhuma resposta.

— Eu quero ir embora!

Seus gritos encontraram apenas o silêncio.

Naquela noite, chorou até não ter mais forças.

Encolhida sobre o chão frio, tentou dormir enquanto o corpo tremia e a cabeça repetia, incessantemente, a mesma lembrança.

Amanda.

A blusa.

O banheiro.

O sangue.

O último som de que se recordou foi o de um cadeado.

Depois, o cansaço venceu.

O segundo dia

Passos ecoaram pelo corredor.

Mary estava deitada de costas para as grades, com os joelhos próximos ao peito.

Havia acordado diversas vezes durante a noite, assustada com ruídos que não conseguia identificar.

O rosto estava inchado de tanto chorar.

Cada vez que fechava os olhos, via Amanda.

E, quando os abria, encontrava as mesmas paredes.

Os passos se aproximaram.

Pararam diante de sua cela.

O cadeado produziu um estalo seco, seguido pelo rangido da porta de ferro.

Amélia entrou.

— Levanta.

Mary não se moveu imediatamente.

A enfermeira aproximou-se e segurou-a pelos braços.

— Vamos, assassina. Tenho que te dar um banho. Você vai conhecer alguém.

Mary tentou acompanhar seus passos, mas estava fraca.

— Eu quero minha mãe...

Amélia apertou-lhe o braço.

— Escuta aqui, garota. É melhor você aprender a se comportar. Ninguém neste lugar vai se importar se um monstro como você desaparecer.

Mary começou a chorar novamente.

— Eu não matei a Amanda...

— Cala a boca!

A menina abaixou a cabeça.

Ser chamada de assassina fazia a imagem da amiga retornar com uma força insuportável.

Mas havia algo ainda pior.

Quanto mais escutava aquela palavra, mais parecia esquecer quem realmente era.

Mary sempre soubera seu nome.

Sabia o nome da mãe, a rua onde morava e a aparência de sua casa.

Entretanto, naquele lugar, todas essas informações pareciam não ter importância.

Para aquelas pessoas, ela era apenas uma assassina.

E começava a temer que jamais voltassem a chamá-la de outra coisa.

Amélia a conduziu até uma sala de banho.

O ambiente possuía paredes manchadas de bolor, chão de cimento irregular e uma antiga janela de vidros esverdeados.

A luz da manhã entrava enfraquecida, dando ao lugar uma aparência doentia.

Não havia chuveiro.

Apenas uma mangueira presa à parede.

Amélia abriu o registro.

A água atingiu Mary com força.

A menina recuou instintivamente, protegendo o rosto com os braços.

Estava gelada.

Depois de uma noite inteira tremendo de frio, seu corpo parecia incapaz de suportar aquela sensação.

— Fica parada! — ordenou Amélia.

Mary tentou obedecer.

Mas o frio a fazia estremecer.

A enfermeira perdeu a paciência.

— Vamos, demônio! Se lava!

Mary tentou alcançar a mangueira, mas Amélia a afastou.

— Tira esse sangue da cara! Você precisa estar limpa!

A menina levou as mãos ao rosto.

Já não sabia se ainda havia sangue ali.

A sensação era de que o cheiro do banheiro da escola continuava impregnado em sua pele.

— Se eu tiver que fazer tudo por você, vai se arrepender de ter nascido!

Mary permaneceu em silêncio.

Lavou-se como conseguiu.

Amélia observava cada movimento com impaciência, como se aquela criança fosse um inconveniente que precisava resolver antes de iniciar os compromissos do dia.

Quando terminou, recebeu um vestido amarelo.

O tecido era simples, mas estava limpo.

Mary segurou a roupa por alguns segundos.

Naquela manhã, até mesmo vestir-se parecia depender da autorização de outra pessoa.

Amélia voltou a conduzi-la pelos corredores.

Dessa vez, caminharam em direção à parte administrativa da instituição.

Ali, as paredes estavam pintadas, o chão era encerado e as janelas possuíam cortinas.

O cheiro de mofo desaparecera.

Mary percebeu a diferença.

Era como se existissem dois edifícios dentro de um mesmo lugar.

Um onde as pessoas sofriam.

Outro onde ninguém precisava enxergar o sofrimento.

Antes de chegarem ao final do corredor, Amélia parou.

Abaixou-se ligeiramente, aproximando o rosto do de Mary.

— Presta bastante atenção no que vou te dizer.

A menina ergueu os olhos.

— Você vai conhecer um homem muito importante. Vai responder tudo o que ele perguntar. E não vai inventar nenhuma história.

Mary permaneceu em silêncio.

— Entendeu?

Ela assentiu.

Amélia apertou-lhe o braço mais uma vez.

— Se falar alguma besteira, está morta.

A menina sentiu a garganta apertar.

Queria perguntar quem era aquele homem.

Queria saber por que precisava conhecê-lo.

Mas já havia aprendido em casa, que algumas perguntas apenas faziam os adultos ficarem mais irritados.

Continuaram caminhando.

Até que chegaram diante de uma grande porta de madeira.

Amélia bateu duas vezes.

Uma voz masculina respondeu do outro lado.

— Entre.

A porta se abriu.

Mary precisou apertar os olhos.

A claridade que vinha da sala contrastava violentamente com a pouca luz dos corredores pelos quais havia passado.

O ambiente era amplo.

Havia estantes, livros organizados, quadros nas paredes e uma grande mesa de madeira ao centro.

Atrás dela, uma janela ocupava boa parte da parede.

A luz do sol entrava diretamente pelo vidro, iluminando o contorno de um homem sentado em uma poltrona.

Mary não conseguia enxergar seu rosto com clareza.

Via apenas a silhueta escura cercada pela claridade.

Por um instante, aquela figura pareceu possuir algo de divino.

Como se o homem estivesse sentado em um lugar ao qual nenhuma das outras pessoas da instituição pudesse chegar.

— Doutor Hamilton, aqui está a menina que mencionei ao senhor — anunciou Amélia.

O homem permaneceu sentado por alguns segundos.

Depois se levantou.

Vestia um terno bem-ajustado e movia-se com tranquilidade.

Não demonstrava pressa.

Seus passos eram silenciosos sobre o piso.

Ao contrário de Amélia, não parecia irritado.

Aproximou-se de Mary e inclinou ligeiramente a cabeça.

— Qual é o seu nome, mocinha?

— Mary.

A resposta saiu automaticamente.

Seu olhar permanecia vazio.

— Mary... — repetiu Hamilton, como se experimentasse o som daquele nome. — É um nome muito bonito.

A menina não respondeu.

Ele observou seu rosto por alguns instantes.

Os olhos inchados.

Os cabelos úmidos.

As pequenas mãos que seguravam a barra do vestido amarelo.

— Pelo que me contaram, você não foi uma boa menina.

Mary baixou os olhos.

— Consegue me contar o que aconteceu?

Ela tentou falar.

A garganta parecia fechada.

Hamilton aguardou.

— Eu não fiz nada...

— Não fez?

Mary balançou a cabeça.

— Eu só queria ir à escola!

As lágrimas voltaram a escorrer por seu rosto.

Hamilton não demonstrou surpresa.

— Você gosta de estudar?

A pergunta pareceu desconcertá-la.

— Eu nunca estudei.

— Nunca?

— Era meu primeiro dia. Eu só fui ver...

A menina começou a chorar com mais intensidade.

Tentava organizar as palavras, mas as lembranças surgiam todas ao mesmo tempo.

— A Amanda me chamou... Ela era minha amiga... Eu não fiz nada...

Hamilton observou a criança em silêncio.

Não se aproximou para consolá-la.

Não perguntou sobre Amanda.

Tampouco demonstrou interesse em compreender a acusação.

Apenas aguardou alguns segundos, até que o choro começou a incomodá-lo.

Então falou.

Sua voz continuava tranquila.

— Pare.

Mary tentou conter as lágrimas.

Hamilton inclinou levemente a cabeça.

— Você já chorou demais, não acha?

A menina o encarou.

Naquele momento, percebeu algo estranho.

Amélia gritava, ameaçava e parecia sentir prazer em demonstrar sua autoridade.

Aquele homem não precisava fazer nada disso.

Bastava falar.

E todos pareciam obrigados a obedecer.

Mary tentou limpar o rosto com as mãos.

Mas as lágrimas continuavam caindo.

Hamilton suspirou discretamente.

E permaneceu olhando para ela.

Thoughts

  • RafaelDuGueto

    Estou com receio de escrever os próximos capítulos, o que acham que acontecerá?

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