Já estava arrumado com o uniforme da escola, sentado no sofá da sala, com a mochila ao meu lado. Eithan estava por perto, esperando a hora do café, enquanto eu encarava o relógio na parede, impaciente.
— Essa casa inteira demora uma eternidade pra acordar... Resmunguei, cruzando os braços.
Mas, na verdade, eu nem estava tão preocupado com o café da manhã. Minha cabeça estava ocupada demais com o que havia acontecido na noite anterior.
A cozinha. A voz chamando o nome da garota. E, principalmente, a expressão dela quando percebeu que eu não estava mentindo.
Eu tinha certeza de que não havia sido eu.
Soltei um suspiro e esfreguei o rosto com as mãos, tentando organizar meus pensamentos.
Que droga foi aquela?
Antes que pudesse pensar em mais alguma coisa, lembrei-me de outro detalhe: a garota parecia querer me contar alguma coisa antes da mãe dela aparecer furiosa na cozinha. Eu não sabia exatamente o que era, mas havia percebido sua expressão.
E aquilo estava me incomodando.
— Ei, Eithan...
Começei, olhando para meu irmão.
— Você acha que tem alguma coisa estranha acontecendo nessa casa?
Ele provavelmente faria aquela cara de quem estava prestes a me encher de perguntas, então me arrependi quase imediatamente de ter falado.
— Esquece. Não foi nada
Resmunguei, desviando o olhar.
Levantei-me do sofá e comecei a andar pela sala, ajeitando a alça da mochila no ombro. Eu não gostava de ficar pensando nessas coisas, principalmente quando não conseguia encontrar uma explicação lógica.
Foi então que ouvi passos vindos da escada.
Olhei naquela direção e vi a filha da cuidadora descendo junto da mãe. Ela parecia apressada, como se estivesse procurando alguma coisa ou tivesse acabado de se lembrar de algo importante.
Franzi a testa, acompanhando seus movimentos com o olhar.
Será que ela também passou a noite pensando no que aconteceu?
Mordi discretamente o interior da bochecha e desviei os olhos, fingindo desinteresse.
Não era como se eu me importasse com o que aquela garota estava pensando.
Pelo menos, era o que eu tentava dizer a mim mesmo.
Quando ela se aproximou da sala, lembrei-me de como parecia assustada na cozinha. Eu ainda queria descobrir o que tinha acontecido naquela noite, mas não perguntaria na frente de todo mundo.
— Até que enfim resolveu aparecer
Murmurei, ajeitando a mochila no ombro.
— Pensei que fosse chegar na escola só amanhã.
Cruzei os braços e revirei os olhos, escondendo minha curiosidade atrás do meu habitual mau humor.
Porém, quando percebi que ela parecia preocupada com alguma coisa, meu sorriso debochado desapareceu por um instante.
O que será que aconteceu?
Olhei para ela mais uma vez, decidido a perguntar assim que tivéssemos um momento sozinhos.
Porque, de alguma forma, eu tinha a sensação de que o que ela queria me contar estava relacionado àquela noite.
E eu precisava descobrir a verdade.