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Filhos do Abandono

RafaelDuGueto

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Capítulo 12 — Dez Dias de Paraíso

Na manhã seguinte, Mary acordou com o som de alguém abrindo a porta.

Por um instante, assustou-se.

Seu corpo ainda guardava a lembrança da cela fria, dos gritos de Amélia e do medo de ser arrastada novamente pelos corredores.

Mas, quando abriu os olhos, encontrou a mesma cama confortável, o cobertor macio e a claridade do sol atravessando a janela.

Amélia entrou carregando uma bandeja.

— Bom dia, Mary.

A menina sentou-se imediatamente.

Era a primeira vez que ouvia aquela mulher pronunciar seu nome sem raiva.

— Bom dia, moça.

— Trouxe seu café. Coma tudo.

Sobre a bandeja havia pão, leite, frutas e um pequeno pedaço de bolo.

Mary olhou para a comida sem acreditar.

— É tudo meu?

Amélia colocou a bandeja sobre a cama.

— Tem mais alguém aqui?

Mary sorriu timidamente.

Pegou o pão com as duas mãos e começou a comer.

Nunca havia recebido tantas coisas de uma só vez.

— Posso guardar o bolo para depois?

A enfermeira olhou para ela.

— Por quê?

— Porque, se eu comer agora, depois não vou ter mais.

Amélia permaneceu em silêncio por um instante.

— Amanhã terá outro.

Mary ergueu os olhos.

— Promete?

— Coma logo, menina.

Mary não insistiu.

Mas guardou aquela resposta como se fosse uma promessa.

No segundo dia, Amélia apareceu carregando uma caixa de papelão.

Colocou-a no chão e mandou Mary abrir.

Dentro havia uma boneca de cabelos desgrenhados, alguns bichos de pelúcia, blocos de madeira e pequenos objetos coloridos.

Mary ficou imóvel.

— São de quem?

— Seus, por enquanto.

A menina pegou a boneca cuidadosamente.

Uma de suas pernas estava costurada e o vestido tinha uma pequena mancha, mas Mary não pareceu perceber.

— Ela tem nome?

— Você é quem decide.

Mary pensou por alguns segundos.

— Amanda.

Amélia desviou o olhar.

— Faça como quiser.

Naquela tarde, Mary brincou durante horas.

Conversou com a boneca, ensinou-lhe as letras que imaginava existir e fingiu que as duas estavam em uma sala de aula.

Organizou os blocos de madeira como se fossem carteiras.

Depois, colocou Amanda diante delas.

— Hoje a gente vai aprender a ler — anunciou.

A boneca permaneceu em silêncio.

Mary sorriu.

— Não tem problema. Eu também não sei.

E continuou brincando.

Pela primeira vez desde a morte da amiga, pronunciou seu nome sem chorar.

No terceiro dia, chegaram roupas.

Vestidos, blusas, sapatos e pequenas peças cuidadosamente dobradas.

Amélia espalhou tudo sobre a cama.

— Vamos experimentar.

Mary nunca havia visto tantas roupas destinadas a uma única pessoa.

Tocava cada tecido como se tivesse medo de estragá-lo.

— Posso escolher?

— Primeiro vamos ver o que serve.

Experimentou um vestido azul.

Depois um branco.

Em seguida, um amarelo com pequenos detalhes nas mangas.

Mary girou diante do espelho.

— Parece roupa de princesa!

Amélia ajeitou a barra do vestido.

— Fique parada.

A menina obedeceu.

— Minha mãe vai gostar quando me vir assim.

A enfermeira não respondeu.

Continuou observando o caimento das roupas, anotando quais precisavam de ajustes.

Mary, entretanto, só conseguia pensar em como seria bonito voltar para casa vestida daquele jeito.

Talvez sua mãe sorrisse.

Talvez dissesse que ela estava linda.

Talvez, naquele dia, sua mãe ficasse em casa para brincar com ela.

No quarto dia, Mary recebeu lápis de cor e algumas folhas de papel.

Desenhou uma casa.

Fez duas janelas, uma porta vermelha e uma árvore tão grande que ultrapassava o telhado.

Ao lado, desenhou duas pessoas de mãos dadas.

Uma era ela.

A outra, sua mãe.

Depois acrescentou uma terceira figura.

Amanda.

Ficou olhando para o desenho por algum tempo.

Não sabia onde colocar a amiga.

No fim, decidiu desenhá-la entre as duas.

Quando Amélia entrou no quarto, encontrou Mary concentrada.

— O que está fazendo?

— Minha família.

A enfermeira observou o papel.

— E essa menina?

— É a Amanda.

Amélia reconheceu o nome mencionado nos registros da instituição.

— Achei que você não quisesse mais falar dela.

Mary continuou olhando para o desenho.

— Eu gosto de lembrar dela.

Fez uma pausa.

— Só não gosto de lembrar do que aconteceu.

Amélia não encontrou resposta.

Pegou o desenho e colocou-o sobre a pequena mesa.

— Está na hora do almoço.

Mary correu para lavar as mãos.

No quinto dia, Amélia levou um estojo de maquiagem para o quarto.

Havia pincéis, pequenos espelhos e recipientes que Mary reconheceu imediatamente.

— Minha mãe tem um desses!

A enfermeira abriu o estojo.

— Hoje vamos experimentar algumas coisas.

Mary aproximou-se, curiosa.

— Você vai me deixar bonita?

— Vamos cuidar da sua aparência.

A menina sentou-se diante do espelho.

Amélia começou a pentear seus cabelos, dividindo-os em pequenas mechas.

Mary gostou daquela sensação.

Fechou os olhos.

Por um instante, imaginou que fosse sua mãe quem estivesse ali.

— Você sabe fazer trança?

— Sei.

— Minha mãe também sabe. Mas ela quase nunca tem tempo.

Amélia continuou penteando.

Depois, aplicou discretamente alguns produtos no rosto da menina e observou o resultado.

Não pareceu satisfeita.

Retirou parte deles e recomeçou.

Mary percebeu a concentração da enfermeira.

— Ficou feio?

— Não. Estou vendo o que funciona melhor.

A menina voltou a sorrir.

Amélia experimentou diferentes penteados e combinações, buscando dar à aparência de Mary uma formalidade que não combinava com sua idade.

Mas Mary não compreendia aquela intenção.

Para ela, aquilo era uma brincadeira.

E fazia muito tempo que ninguém dedicava tantas horas exclusivamente a ela.

No sexto dia, Mary passou a esperar Amélia todas as manhãs.

Já conhecia o som de seus passos.

Sabia identificar a chave girando na fechadura e reconhecia sua voz antes mesmo que a porta se abrisse.

— Bom dia, moça!

Amélia colocou uma bandeja sobre a mesa.

— Você acorda falando, menina?

Mary riu.

Era um riso leve.

Diferente daquele sorriso tímido dos primeiros dias.

— Hoje vamos brincar?

— Tenho trabalho.

Mary fez um pequeno bico.

— Mas depois você volta?

A enfermeira hesitou.

— Talvez.

— Tá bom.

Mary aceitou a resposta satisfeita.

Naquela tarde, sentou sua boneca Amanda sobre a cama e contou-lhe que havia feito uma amiga nova.

— Ela é meio brava — confidenciou. — Mas agora está ficando boazinha.

Depois abraçou a boneca.

— Acho que ela gosta de mim.

Do lado de fora, Amélia atravessava o corredor sem imaginar que havia se tornado parte das brincadeiras da menina.

No sétimo dia, Mary perguntou quando voltaria para casa.

Amélia estava organizando alguns vestidos sobre a cama.

— Não sei.

— Mas o doutor disse que talvez eu pudesse sair.

— Ele disse que as coisas poderiam melhorar.

Mary pensou por alguns segundos.

— Mas já melhoraram.

A enfermeira interrompeu o que fazia.

— Como assim?

Mary apontou para a cama.

— Eu tenho cobertor. Tenho comida. Tenho brinquedos.

Olhou para o espelho.

— E roupas bonitas.

Sorriu.

— Então acho que ele estava falando a verdade.

Amélia permaneceu em silêncio.

Mary aproximou-se.

— Você acha que minha mãe está com saudade?

A enfermeira voltou a dobrar as roupas.

— Provavelmente. - Amélia se lembrou das ordens de não deixar a menina triste, então se segurou para não responder como gostaria.

Mary pareceu satisfeita.

Não perguntou mais nada.

À noite, deitada em sua cama, imaginou sua mãe preparando uma surpresa para recebê-la.

Talvez um bolo.

Talvez um abraço demorado.

Talvez a mãe prometesse nunca mais deixá-la sozinha.

Mary fechou os olhos sorrindo.

No oitavo dia, Amélia trouxe um par de sapatos.

Mary experimentou-os e caminhou pelo quarto, tentando não fazer barulho.

Os sapatos eram um pouco desconfortáveis.

— Estão apertados? — perguntou a enfermeira.

— Um pouquinho.

Amélia anotou algo em seu caderno.

— Precisamos de outro número.

Mary retirou os sapatos e colocou-os cuidadosamente ao lado da cama.

— Eles são bonitos, e me deixam mais alta tia.

— Então vamos encontrar um que sirva.

Naquele mesmo dia, algumas roupas foram levadas para ajustes.

Mary observava Amélia examinando cada peça.

As escolhas já não pareciam feitas para agradar à criança, mas para atender a um padrão que somente a enfermeira conhecia.

A menina, entretanto, continuava encantada.

Nunca havia recebido tanta atenção.

E a gratidão que sentia tornava cada nova ordem mais fácil de obedecer.

No nono dia, Mary estava inquieta.

Sabia que se aproximava o encontro com o doutor Hamilton.

Amélia havia mencionado que precisariam acordar cedo no dia seguinte.

A menina passou boa parte da tarde conversando com sua boneca.

— Amanhã vou sair daqui, Amanda.

Apertou-a contra o peito.

— Acho que vou ver minha mãe.

Depois se afastou para observar o rosto de pano.

— Se eu puder, vou levar você também.

Naquela noite, Amélia entrou para recolher algumas roupas.

Mary correu até ela.

— Moça, posso te dar um abraço?

A pergunta surpreendeu a enfermeira.

— Para quê?

Mary pareceu confusa.

— Porque você cuidou de mim.

Amélia ficou parada.

Não disse que sim.

Tampouco disse que não.

Mary aproximou-se e a abraçou pela cintura.

A enfermeira permaneceu imóvel, com os braços ao lado do corpo.

Depois de alguns segundos, tocou brevemente os cabelos da menina.

— Vá dormir, Mary.

— Boa noite!

— Boa noite.

Amélia saiu.

O décimo dia chegou com uma manhã clara.

Mary despertou antes de ouvir os passos no corredor.

Sentou-se na cama e olhou para a boneca Amanda.

— É hoje.

A menina sorriu.

Levantou-se, arrumou o cobertor como havia aprendido e esperou.

Quando Amélia entrou, trazia roupas cuidadosamente separadas.

— Bom dia. Precisamos começar.

Mary levantou os braços, animada.

— Vou conhecer gente nova?

— Vai acompanhar o doutor Hamilton.

— E depois eu volto para minha mãe?

Amélia não respondeu.

Começou a preparar a menina.

Penteou seus cabelos, ajustou as roupas e examinou cada detalhe diante do espelho.

Mary observava o próprio reflexo.

Havia algo diferente.

As roupas eram mais sensuais. O penteado era elaborado, e a maquiagem modificava a aparência infantil de seu rosto.

A menina inclinou a cabeça.

— Estou parecida com minha mãe.

Amélia parou por um instante.

Depois continuou o que fazia.

— Fique quietinha. Já estamos terminando.

Mary obedeceu.

Quando finalmente ficou pronta, olhou novamente para o espelho.

Aquela imagem lhe pareceu bonita.

Quase importante.

Como se estivesse prestes a participar de alguma ocasião especial.

— Gostou? — perguntou Amélia.

Mary assentiu entusiasmada.

— Muito!

A enfermeira recolheu os objetos e guardou tudo no estojo.

— Então vamos.

Mary correu até a cama.

Pegou sua boneca.

— Posso levar Amanda?

— Não.

A menina hesitou.

— Mas ela vai ficar sozinha.

Amélia olhou para o brinquedo.

— Deixe-a aqui. Depois você volta para buscá-la.

Mary pensou por alguns segundos.

Aproximou a boneca do rosto e beijou-lhe a testa.

— Eu volto logo, tá?

Colocou-a cuidadosamente sobre o travesseiro.

Depois caminhou até a porta.

Amélia segurou sua mão e a conduziu pelo corredor.

Mary estava feliz.

Imaginava que o doutor Hamilton havia preparado algo especial.

Talvez finalmente pudesse sair daquele lugar.

Talvez encontrasse sua mãe.

Talvez aqueles dez dias fossem apenas o começo de uma vida diferente.

Ao final do corredor, Hamilton aguardava.

Vestia um terno escuro e observou a menina em silêncio.

Amélia parou diante dele.

— Está pronta, doutor.

Hamilton examinou discretamente a apresentação de Mary.

Depois sorriu.

— Muito bem.

Estendeu a mão.

— Vamos, Mary?

A menina segurou seus dedos.

— Vamos!

E caminhou ao lado dele sem olhar para trás.

Durante dez dias, Mary acreditou ter encontrado o paraíso.

Thoughts

  • DILMAR

    Os dez dias de paraíso são a mesma conta do bolo guardado pra depois, né não. A Mary já aprendeu que coisa boa acaba, e mesmo assim deixou a Amanda no travesseiro achando que volta pra buscar.

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  • chuvaEterna

    Égua, a Amélia anotando o número do sapato e o que precisa ajustar, igual quem prepara encomenda. Ela sabe pra onde a Mary vai e tá fazendo o serviço mesmo assim.

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