Eu renasci da morte não uma, mas quatro vezes.
Como uma praga que retorna de século em século,
renasci líquida — e ainda assim carregando cada memória
desse passado infernal que consumiu minha carne.
Na última, renasci como um mar inteiro:
revolto, odioso, tempestuoso.
Nada do deserto veranil que atravessei de joelhos,
abrindo uma trilha de pele seca e morta.
Minhas unhas viraram garras,
perfeitas para visitar minhas próprias mortes quando quiser
sem cair de volta no meu inferno.
Agarro-me ao nada que deixaram.
Volto outra vez — mais visceral, mais perigosa, mais venenosa.
O mundo suplicou por isso.
Minhas cicatrizes, que não se apagam,
não são marcas de guerra.
Como estalactites, penduro-me sobre sua cama
na hora de dormir
e gotejo sangue em sua boca, em seus olhos.
Foi assim que aprendi a respirar.
Foi assim que meu peito se rendeu à vida.
Meu cabelo entrando na sua boca,
te fazendo engasgar,
sufocar — para essa lenta e doce morte de hoje.
Você não pode voltar. Não é como eu.
Tenho olhos que enxergam por pálpebras fechadas,
meus ossos rangem como espadas em batalha.
Não, não estou ficando velha:
sou uma mulher dura depois da minha última morte.
Você, um velho cansado, gordo e entalado
no meu longo cabelo preto.
Sou a víbora do mundo,
a ave de rapina,
a cova vazia,
a planta que consome a carne.
Em cada forma, sua sentença.
Em cada digestão, eu retorno.
Hoje quis te visitar no passado.
Quis encontrar a primeira porta que me levou até você.
Mas só encontrei os ossos que deixei para trás.
E antes de ir embora,
triturei tudo com os dentes.
Criatura tenebrosa do mar,
como um tubarão engulo tudo à minha frente —
e agora você é pó que não vale
nem uma estrela morta.
De que me vale provar o veneno da tua boca
se até em você ele apodreceu?
De que me vale me alimentar das tuas migalhas?
Eu me cubro delas antes de dormir.
Nunca serão pó de fada.
Nunca serão pó de ouro.
Renasci como meu próprio Deus,
com meus próprios mandamentos para te julgar.
Uma vez fui teu altar
e você rezava sobre mim.
Hoje te condeno ao inferno
apenas por eu estar feliz.
Eu sou assim tão cruel?
Oh doce amor,
oh doce orgulho,
oh doce burrice —
como pudeste me ver como tua bonequinha?
Humbert Humbert,
você não me vale mais um centavo.
Diga —
você me teme agora?
Pensa em mim agora?
Me deseja agora?
Não.
Você é apenas um covarde.
Lúcifer repetindo, como um papagaio,
que não caiu.
Mas você nunca foi a cobra do meu jardim.
Nunca foi minha tentação no deserto.
Sou eu quem devora olhos devotos,
quem derrama veneno sem tocar tua podridão.
E quando me ergo como o monstro dos teus sonhos,
dobro-me de tamanho,
engolindo toda luz que existe,
devorando sonhos —
para então me encolher como um gato
aos pés da tua cama,
ronronando por carinho
antes de esmigalhar tua face.
Renasci de novo, só para medir o estrago.
Tão porco medíocre que não deixou
nem uma lembrança
para eu retornar.
Tua sombra vale menos
que a fumaça de um cigarro.
E tudo que é teu, eu tomo para mim.
Sou um Deus nesta vida;
na anterior, uma bruxa.
Você sempre esteve em perigo.
Eu nunca fui queimada.
Um felino brincando com o novelo das tuas mentiras,
esperando o momento exato
de te expor sem derme.
Duas vidas antes, eu era uma sereia.
E no meu nadir — meu templo —
eu te devorei.
E por quantas mortes eu tiver,
por quantas vidas eu retornar:
Líquida,
enquanto houver mar.
Sólida,
enquanto existirem montanhas.
Gasosa,
enquanto houver ar.
Uma fênix
depois que tudo explodir.