Meus braços estão vermelhos de novo,
como há anos não se pintavam.
Queria algo mais afiado e eficaz
para perfurar minha veia e sugar toda a minha vida.
Mas sinto que não tenho mais sangue o suficiente para chorar,
nem lágrimas que deem conta de lavar
tudo aquilo que apodreceu dentro de mim.
Queria nunca ter nascido;
assim, não seria problema para a vida de tantos
e talvez o mundo encontrasse alguma paz
na minha ausência.
Há dias em que existir
parece um trabalho de tempo integral,
uma obrigação que não termina,
nem quando fecho os olhos,
nem quando imploro por silêncio
à desgraçada companheira
que habita minha cabeça.
O corvo maldito não vem bicar meus olhos
enquanto me esforço para escapar de mim mesma.
Estou exausta da vida,
estou exausta da morte que não vem
e desse intervalo miserável
em que não sei se ainda estou vivendo
ou apenas adiando o fim de cada dia.
A noite se arrasta pelas paredes
e a casa parece maior do que deveria.
Há um silêncio que não acolhe,
há uma cama que não oferece descanso,
há uma janela que me devolve
o reflexo de alguém que já não reconheço.
Meus dedos cheiram a ferrugem
e há coisas em mim que não sei consertar.
Carrego pequenas ruínas sob a pele
e um inverno antigo no peito
que nenhuma primavera parece alcançar.
Não tomo banho há um dia,
e o tempo perdeu a delicadeza
de me avisar quando passa.
As roupas se acumulam,
a louça espera por mãos que não chegam
e até abrir as cortinas
parece uma tarefa grande demais
para quem mal consegue abrir os olhos.
Já exauri todas as pessoas ao meu redor,
ou talvez seja apenas o que me digo
quando o medo de pedir ajuda
fala mais alto do que a vontade de ser ouvida.
Há tantas mãos que eu poderia alcançar,
mas não quero ser mais um peso
na vida de quem já carrega tanto.
Então me recolho,
como se desaparecer aos poucos
fosse uma forma de pedir desculpas
por ocupar espaço,
por sentir demais,
por não saber transformar em palavras
aquilo que me devora por dentro.
Queria ter aprendido a ser leve,
a não fazer tempestades de pequenas coisas,
a não sentir o mundo inteiro
desabando sobre meus ombros
sempre que alguma coisa em mim se parte.
Queria ter recebido um manual
para os dias em que a própria existência
se torna uma língua que não compreendo.
Eu só queria morrer por hoje,
deixar que a noite me cobrisse
sem perguntas, sem cobranças, sem lembranças,
e acordar em outra realidade amanhã,
uma em que meu nome não carregasse tristeza,
em que meus braços pudessem descansar
e minha cabeça finalmente se calasse.
Uma realidade em que eu não precisasse
me desculpar por estar cansada
nem fingir que amanhã será mais fácil
só para tranquilizar quem me ama.
Uma realidade em que o amor não parecesse
algo que preciso merecer
e em que permanecer
não fosse uma batalha travada em segredo.
Mas a madrugada continua
e eu continuo aqui,
entre os fantasmas que conheço pelo nome
e os dias que ainda não tive coragem de imaginar.
O corvo permanece distante,
a casa permanece em silêncio
e meu coração, mesmo exausto,
insiste em marcar as horas.
Não sei o que fazer com esta noite
nem como devolver ao meu corpo
a sensação de que ele é um lugar seguro.
Só sei que estou cansada,
tão cansada que até a tristeza
parece ter adormecido antes de mim.
E, se amanhã vier,
não lhe peço que me traga felicidade
nem que apague tudo o que aconteceu.
Peço apenas que seja diferente,
que me encontre um pouco menos ferida,
um pouco menos sozinha,
e que, por algumas horas,
eu não precise lutar tanto
para continuar aqui.