Me senti citado na meta de não pensar nela por quinze minutos virando vinte e três horas de tentativa. Daí eu faço igual com dieta: decido às oito da noite que amanhã começo, e às oito e cinco já tô negociando com a geladeira. A meta pequena é a mais perigosa, porque falhar nela dá uma vergonha que meta grande nunca dá.
EU SOU UM HOMEM RESOLVIDO
Pensamento
Me senti citado na meta de não pensar nela por quinze minutos virando vinte e três horas de tentativa. Daí eu faço igual com dieta: decido às oito da noite que amanhã começo, e às oito e cinco já tô negociando com a geladeira. A meta pequena é a mais peri
Conteúdo da publicação
EU SOU UM HOMEM RESOLVIDO
(Só não me pergunte sobre o quê.)
Eu sou um homem resolvido.
Muito bem resolvido, aliás.
Já fiz as pazes com o passado,
já aceitei o que ficou para trás,
já entendi que certas histórias
não voltam nunca mais.
Inclusive, ontem mesmo,
depois de refletir profundamente,
decidi que não pensaria nela
pelos próximos quinze minutos.
Faz vinte e três horas que estou tentando.
Mas isso é irrelevante.
Eu amadureci.
Hoje, quando sinto saudade,
não mando mensagem.
Escrevo poesia.
É praticamente a mesma coisa,
só que com mais metáforas
e nenhuma chance de resposta.
Tenho uma inteligência emocional admirável.
Consigo identificar meus sentimentos,
dar nome a cada um deles,
analisar suas origens,
compreender seus mecanismos...
E continuar fazendo exatamente
a mesma merda de sempre.
Mas estou evoluindo.
Antes, eu criava expectativas.
Agora, crio expectativas conscientes.
Sei que provavelmente vai dar errado,
reconheço os sinais,
identifico os riscos...
E vou mesmo assim.
A diferença é que agora
posso dizer que fui por vontade própria.
Isso é autoconhecimento.
Ou falta de vergonha.
Ainda estou trabalhando nessa hipótese.
Também aprendi a seguir em frente.
Sigo em frente de manhã,
recuo à tarde,
reflito à noite
e, de madrugada,
publico uma frase sobre o tempo.
O tempo, aliás,
é um sujeito muito mal compreendido.
Dizem que cura tudo.
Mas nunca vi o tempo pagar terapia,
comprar chocolate
ou explicar por que alguém
visualizou uma mensagem
e respondeu três dias depois.
O tempo só passa.
Quem resolve as coisas somos nós.
Ou pelo menos é o que dizem
as pessoas que conseguem dormir
sem revisar conversas antigas.
Tenho inveja dessa gente.
Dormem oito horas.
Acordam dispostas.
Tomam café da manhã
sem imaginar diálogos hipotéticos
com pessoas que nem estão presentes.
Uma vida praticamente sobrenatural.
Eu, por outro lado,
sou um homem de profundidade.
Penso sobre o amor,
a existência,
a fragilidade dos encontros
e o sentido da vida.
Principalmente quando estou no banho,
porque aparentemente
é o único lugar onde meu cérebro
recebe autorização para funcionar.
Já resolvi problemas filosóficos
inteiros debaixo do chuveiro.
Já perdoei desafetos.
Já superei paixões.
Já construí uma vida nova.
Aí desligo a água,
pego a toalha
e volto a ser o mesmo cidadão
que esqueceu o que ia fazer
assim que entrou no quarto.
Mas não se preocupem.
Estou bem.
Muito bem.
Tão bem que, se alguém perguntar
como anda minha vida amorosa,
responderei com absoluta serenidade:
“Estou numa fase maravilhosa.”
E mudarei de assunto
antes que a pessoa pergunte detalhes.
Porque há perguntas
que exigem respostas,
e há perguntas que exigem
um poeta com experiência em fugas.
No fim das contas,
talvez a maturidade seja isso:
rir das próprias contradições,
aceitar que a gente não sabe tudo
e parar de fingir que tem controle
sobre cada capítulo da vida.
Afinal, ninguém é tão resolvido
quanto parece nas redes sociais.
Uns postam frases de superação.
Outros postam indiretas.
Eu escrevo poemas.
Cada um sofre
com a ferramenta que tem.
E, se amanhã eu aparecer
falando de liberdade,
desapego e novos horizontes...
Acreditem.
Estou falando sério.
Só não me perguntem
por que passei a tarde inteira
olhando para o teto.
Sou um homem resolvido.
Só estou resolvendo
umas últimas coisinhas.
Desde agosto.
De algum ano.
Enfim.
A vida segue.
E eu também.
Às vezes até na direção certa.
Mas, se eu olhar para trás,
finjam que não viram.
É pesquisa poética.
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PermalinkMe senti citado na meta de não pensar nela por quinze minutos virando vinte e três horas de tentativa. Daí eu faço igual com dieta: decido às oito da noite que amanhã começo, e às oito e cinco já tô negociando com a geladeira. A meta pequena é a mais perigosa, porque falhar nela dá uma vergonha que meta grande nunca dá.
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