Os anjos, oh! pálidos vultos do tédio,
Quebram suas asas num voo derradeiro,
Despencam do céu num bravio remédio,
Beijando o abismo, seu lar verdadeiro.
Que vale o orvalho que embriaga os lírios?
Que vale a aurora que exala esplendor?
Se o mundo é um circo de risos empírios,
E a alma, um náufrago sem salvador?
Ó vida! És charco de lama e miséria,
Um circo grotesco de espectros em vão,
Cada esperança é mortal bactéria,
Rasgando as carnes do frágil cristão.
Eis que os anjos, em febre e lamento,
Desnudam seus corpos de luz carmesim,
No aço das lâminas ou no cimento,
Desenham sua arte no sangue sem fim.
Ó doce remédio! Suprema promessa!
A morte é a musa de todo poeta,
Viver ? É um vício que só nos apressa
Ao palco funéreo de uma opereta.
Silêncio, silêncio! Que caia a cortina,
Que o nada nos tome com seu manto frio,
Os anjos se vão, sua dança divina,
Partem em silêncio, morre a harmonia.