Eu ainda estou aqui
Não quero que sintam culpa
quando eu finalmente disser
que estou cansado.
Não quero discursos tardios,
nem lágrimas que só chegam
quando já não existe ninguém
para enxugá-las.
Eu só queria que tivessem percebido
antes que o silêncio virasse morada.
Eu dei sinais.
Dei tantos.
Estavam nas palavras que engoli,
nos abraços que nunca pedi,
nas noites em que sorri
quando tudo dentro de mim
pedia apenas um lugar para descansar.
Minha casa nunca soube onde era.
Procurei abrigo em pessoas,
em lugares,
em promessas,
em pequenos momentos de carinho.
Mas sempre parecia haver uma porta
que eu não podia atravessar.
E eu fiquei do lado de fora,
carregando minhas próprias lágrimas,
sem saber para quem contar,
sem saber em qual colo chorar,
sem saber quem ficaria
se eu finalmente dissesse:
“Eu não estou bem.”
Talvez ninguém tenha entendido
que eu não queria desaparecer.
Eu só queria que a dor desaparecesse.
Queria acordar um dia
sem sentir o peso de tudo
que nunca consegui dizer.
Queria um abraço
que não precisasse ser pedido.
Queria alguém que dissesse:
“Pode descansar.
Hoje eu seguro você.”
Por muito tempo pensei
que talvez não houvesse lugar para mim.
Mas então percebi...
Talvez minha casa
não fosse um lugar que eu ainda conheci.
Talvez fosse um lugar
que eu ainda precisasse encontrar.
Então, mesmo cansado,
mesmo machucado por dentro,
mesmo carregando marcas
que ninguém consegue enxergar,
eu continuo aqui.
Não porque tenha sido fácil.
Mas porque, em algum canto de mim,
ainda existe uma pequena voz
que sussurra:
“Fica mais um pouco.”
E talvez seja tudo que eu precise por hoje.
Não promessas.
Não respostas.
Apenas mais um pouco.
Até encontrar
um lugar onde eu possa finalmente dizer:
“Aqui eu posso ficar.
Aqui eu posso chorar.
Aqui eu posso ser eu.
Aqui, finalmente, alguém me abraça.”