Ontem consegui um trabalho.
E deveria ter sido felicidade,
mas meu coração não soube comemorar.
Porque junto com a oportunidade
veio o medo.
Um medo enorme,
desses que apertam o peito
e fazem a gente se perguntar
se ainda sabe viver sozinha.
Eu devia ter ouvido a mim mesma
quando ainda tinha forças.
Mas ouvi você.
Quando disse para eu largar o trabalho,
ficar em casa,
deixar que você cuidasse de tudo,
eu acreditei.
E fui ficando.
Fui deixando meus planos,
meu dinheiro,
minha independência,
minha coragem
em algum lugar do caminho.
Agora você não está mais aqui
para segurar a minha mão.
E eu estou.
Só eu.
Com as contas,
com as escolhas,
com as consequências
e com esse medo absurdo
de não conseguir.
Sinto como se tivesse acordado
no meio de um oceano.
Sou um peixinho de lama
que caiu no vasto mar.
Na lama eu conhecia o chão.
Sabia onde pisar.
Sabia onde me esconder.
Aqui não.
Aqui tudo é fundo.
Não existe chão para os meus pés,
não existe margem para descansar,
não existe ninguém dizendo
para onde eu devo nadar.
E eu tenho medo.
Medo de nadar e me cansar.
Medo de tentar e fracassar.
Medo de não conseguir pagar minhas contas.
Medo de precisar de alguém outra vez.
Medo de descobrir
que fiquei tempo demais parada
e esqueci como se vive.
Tenho medo de começar do zero
quando parece que o zero
já é longe demais para alcançar.
Olho para esse novo trabalho
e não vejo apenas uma oportunidade.
Vejo um abismo.
Vejo a mulher que preciso me tornar
e não reconheço o rosto dela.
Queria voltar no tempo.
Queria não ter escutado.
Queria ter segurado minha própria mão
quando alguém soltou.
Queria ter entendido
que amor nenhum deveria
me fazer abandonar a mim mesma.
Mas o passado não volta.
E o mar continua enorme.
Então, mesmo tremendo,
mesmo sem saber nadar direito,
eu vou tentar.
Uma braçada.
Depois outra.
Talvez eu chore no caminho.
Talvez eu queira desistir.
Talvez eu me sinta perdida
muitas vezes.
Mas, se eu continuar,
quem sabe um dia
eu descubra que aquele peixinho de lama
não estava perdido.
Estava aprendendo,
pela primeira vez,
a sobreviver em seu próprio mar.