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Peixinho de Lama

VanessaIlda

Conteúdo da publicação

Ontem consegui um trabalho.

E deveria ter sido felicidade,

mas meu coração não soube comemorar.

Porque junto com a oportunidade

veio o medo.

Um medo enorme,

desses que apertam o peito

e fazem a gente se perguntar

se ainda sabe viver sozinha.

Eu devia ter ouvido a mim mesma

quando ainda tinha forças.

Mas ouvi você.

Quando disse para eu largar o trabalho,

ficar em casa,

deixar que você cuidasse de tudo,

eu acreditei.

E fui ficando.

Fui deixando meus planos,

meu dinheiro,

minha independência,

minha coragem

em algum lugar do caminho.

Agora você não está mais aqui

para segurar a minha mão.

E eu estou.

Só eu.

Com as contas,

com as escolhas,

com as consequências

e com esse medo absurdo

de não conseguir.

Sinto como se tivesse acordado

no meio de um oceano.

Sou um peixinho de lama

que caiu no vasto mar.

Na lama eu conhecia o chão.

Sabia onde pisar.

Sabia onde me esconder.

Aqui não.

Aqui tudo é fundo.

Não existe chão para os meus pés,

não existe margem para descansar,

não existe ninguém dizendo

para onde eu devo nadar.

E eu tenho medo.

Medo de nadar e me cansar.

Medo de tentar e fracassar.

Medo de não conseguir pagar minhas contas.

Medo de precisar de alguém outra vez.

Medo de descobrir

que fiquei tempo demais parada

e esqueci como se vive.

Tenho medo de começar do zero

quando parece que o zero

já é longe demais para alcançar.

Olho para esse novo trabalho

e não vejo apenas uma oportunidade.

Vejo um abismo.

Vejo a mulher que preciso me tornar

e não reconheço o rosto dela.

Queria voltar no tempo.

Queria não ter escutado.

Queria ter segurado minha própria mão

quando alguém soltou.

Queria ter entendido

que amor nenhum deveria

me fazer abandonar a mim mesma.

Mas o passado não volta.

E o mar continua enorme.

Então, mesmo tremendo,

mesmo sem saber nadar direito,

eu vou tentar.

Uma braçada.

Depois outra.

Talvez eu chore no caminho.

Talvez eu queira desistir.

Talvez eu me sinta perdida

muitas vezes.

Mas, se eu continuar,

quem sabe um dia

eu descubra que aquele peixinho de lama

não estava perdido.

Estava aprendendo,

pela primeira vez,

a sobreviver em seu próprio mar.

Thoughts

  • RenataAlmeida

    Com esse medo de não haver ninguém a dizer para onde nadar veio-me à cabeça o José do Drummond, sozinho no escuro sem saber para onde ir. O teu peixinho, ao menos, decide dar a braçada.

    Permalink
  • MargemDaPagina

    A lama não aparece só como castigo. Ali ela conhecia o chão, sabia onde pisar e onde se esconder, e o poema deixa isso de pé em vez de fingir que a vida antiga era só prisão.

    É a coisa mais difícil de admitir a quem nos lê: que a dependência também era abrigo. Aposto que a mulher do trabalho novo vai sentir falta da lama em dias maus, e isso não a desmente em nada.

    Permalink

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Ontem consegui um trabalho.

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