Diz-se que da arte de sofrer o ser humano é um aluno. Ou eu acho que é (afinal, somos muito bons em quase nada). Mas, pense bem em quantos casos relacionados a separações não chegam a esse fim por conta da dificuldade de sofrer, melhor, de aguentar o sofrimento. Considero esse exemplo muito pouco profundo para esse assunto - não que amar o outro seja simples ou supérfluo, mas muitas vezes esse relacionamento já está fadado a isso, ao fim repentino e egoísta -. O luto. Sim. Ele sim é algo que descreve o sofrer do ser; nele a pessoa encontra seu “eu” que se fora junto com aquele que foi, isto é, quem se foi tinha uma visão única sua e agora você se foi - ou aquela personagem morreu. Quem anda sem máscaras nesse grande teatro sem atos? - , e ainda mais, você permanece sem aquele olhar, sua imagem ainda existe (isso mostra independência), no entanto, até que ponto a independência em relação ao outro pode ser mantida sem se tornar egoísmo.
Quando eu estava aprendendo violão gostava de uma moça e queria impressioná-la - por isso, não gosto tanto de exemplificar o sofrimento com relações amorosas, as minhas pelo menos não servem -, durante esse aprendizado acabei por começar a tocar na igreja. Muito ruim. Errava tudo. Porém, aos olhos de uma pessoa estava tudo bem, não tendo como motivo a conivência com o erro, mas ela via algo que eu ainda não consigo ver. Aliás, não vejo muito. Portanto, minhas deduções são bem passíveis de erro. Essa pessoa morreu há 7 meses. Não a vi partir. Lembro-me de que uma dia ela disse:
— Olha! Você sorriu! e hoje em dia busco sorrir mais.
Inclusive, um dos sinais dela era o sorriso. Pessoa do riso fácil. O João dela não existe mais. Nós nem sabemos realmente quem somos aos olhos alheios. Se - esse “se” é uma condicional muito boa, mas inexistente - eu soubesse que ela não iria mais fazer aquela sobremesa de abacaxi, não teria pedido que a fizesse quando eu retornasse.
— João, farei com o maior prazer quando você vier de férias.
Uma psicóloga me ensinou que, dividir as dores faz com que doam menos. Não que você tenha que às tomar de mim ( eu gosto delas, e acredito que fazem parte de mim), igualmente você tem as suas. Mas eu ainda acredito que não voltar a elas seja um erro. Sim, a pessoa se foi, mas querendo ou não, dentro de mim - e de você - é o que há. As lembranças. Os risos. A distância. Os erros. As falas. A tristeza. A inexistência. O triste é morar nisso tudo. Esquecer-se do real. De quem ainda está bem perto. Mas, é tão fácil escrever isso. O piloto automático nos torna egoístas. Eu sou. Quem não é?
Sorrir mais. Abraçar. Olhar. Falar. Ter sentido. Uma série que acaba e você quer mais. Uma pessoa que morre e sentimos saudades. Passar no vestibular. Por que é assim?
Quem escreve isso que chama-se vida e está repleta de sofrimento
— E amor. - disse alguém. Foi você né.
Desejo ser dependente de alguém. Ser vulnerável. Isso se tornou muito pessoal, hein.
Não como uma rama da videira que morre ao se separar, mas como uma pessoa que procura uma sombra em um dia quente. Ela consegue viver muito bem - e sofrer também -. Faz suas coisas. Sai. Porém, o dia está bem quente e ela deseja descansar. Armar tenda. Construir memória. Ser algo para alguém e um dia perder essa imagem. Porque isso é inevitável, mas todo o resto também é. Toda uma vida muito boa.
João Gabriel.