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Eterno amante de verão - em busca de outra estação

unglamorous
Pensamento

Pensamento

Luzolo

São bons poemas, infelizmente não consegui ler todas. Porque juntou tanto assim?

São bons poemas, infelizmente não consegui ler todas. Porque juntou tanto assim?

Conteúdo da publicação

Nota

Eterno amante de verão parte de uma ideia simples: o verão não é uma estação, é um estado. Tomei emprestado o imaginário popular do amor de verão, feito de sal, luau e prazo curto, e o segui até onde ele esfria.

Há amores que não cabem no calendário. Este conjunto segue um deles: um amante que leva o verão consigo e não sabe habitar outra estação. À superfície, tudo brilha e cheira a maresia. Por baixo, a água é mais fria do que parece. Leia devagar, como quem entra no mar: a superfície acolhe, o fundo pede tempo.

Amar fora de estação

Nunca houve promessa de pertencimento,

Senão a certeza do inevitável distanciamento.

Uns se conformaram com o fato do esvaecimento,

Outros sabotaram por receio do afastamento.

Alguns são inverno, outros são verão,

Cada qual condenado à sua própria estação.

Outonos encontram primaveras em entusiasmo,

Enquanto o amante procura o que perdeu ao ocaso.

Amar fora da estação

É beber vinho tinto sob o sol escaldante,

Sentir no próprio corpo um tempo que não lhe cabe,

Procurar, no inverno, o afago que nasceu em contramão.

E suportar, de estação em estação,
a mesma condição:

Um eterno amante de verão, em busca de outra estação.

Cheiro de ciao

O sal que consome o ferro

é o mesmo que me faz eterno.

Melão doce, eu me apresento

Fascinando junto com o momento.

Ciano preenche o ambiente

de um jeito bem eloquente,

Completando a maresia que me sustenta

Ao passo em que tu me atentas.

Bergamota e groselha

vão formando o poema:

de água e sal,

sal e sol,

sol e mar.

Tabaco finalizando o campo de fascínio.

Eis que lhe descrevo o meu centro certeiro:

magnólia e Íris,

hortelã e cedro.

Que lhes endosso,

como contrastante, raro e temperado

Perfume este que meu cheiro há de querer:

doce mar,

assim como naquele luau —

amor de verão e o cheiro de ciao.

…

Salgado e doce se torna meu aroma,

Lhes convido a sentir-lo em meu pescoço.

E ao discorrer suas mãos sobre meus versos —

Depravados, porém honestos.

Recitando:

Areia e sal,

Perfume e suor,

Sexo e amor.

Um eterno amante de verão,

Em busca de outra estação.

Cor de oliva

Estás a encarar, pupilas a dilatar

Por conta do então vislumbre

De cores oliva, traços de mel,

Caramelo salgado e doce maresia.

Em prosa e clericot, a recitar

Rimas e versos, de deslumbre,

Inescrutáveis como uma cascavel,

Sibilando retórica para sua fantasia.

Sobrancelhas perfeitas e abundantes,

Rosto de maxilar e nariz marcantes;

Trazendo um traço assimétrico e estético.

Como pode alguém deificado e poético?

Sua silhueta esguia e alta,

Como os templos de Malta,

Esculpida em Globigerina,

Numa nobreza tão genuína.

A brisa do mar vem destruindo as rimas

Que, há instantes, eram truísticas,

Por conta de uma cena toda cênica,

De uma gota de suor, lenta e obscena.

Sua presença, por si só,

é um poema.

Seus gestos, delicados,

trazem tormento

Para aqueles que o cercam.

O azul parahyba, ele contempla,

em olhos cheios de melancolia

e maresia de águas gélidas.

Essa poesia vai encaracolando

os versos.

Em seus cabelos,

emaranhados pelo vento.

E ao descrever o suposto amor de verão.

Irão faltar cores nos outros,

ao moço rabiscar.

Tão atento vi-me a contemplar-lhe

Que o espelho vem a relembrar-me

O amante que outrora eu já fora,

Um poema em cores de valia.

Vívido em meus amores,

afora pelo mundo,

esculpindo minhas dores.

Além do cais

Pobre indivíduo

preso ao ritmo das marés,

perdido ao relento,

sem norte,

graças à canção.

“Navegue até mim,

me deixe lhe amar,

meu amor, meu amor,

por ti eu fico.”

Ao escutar,

o navegante vê-se a sentir

falta da vida além dos cais,

que está passando,

enquanto se finda

em águas dantescas e abissais.

O refrão promete o sol eterno,

em um tom que parece maior,

mas, ao recitar

os novos versos,

deixa o seu lamento

menor.

A voz ainda o clama,

de longe:

“Navegue em minha direção,

meu amor, meu amor,

não, não estou preparado,

espere um pouco mais.”

É impossível levar

um barco sem temporais

nos movimentos das ondas,

em uníssono com o canto,

em tom menor que o conto.

“Não me venhas a seguir,

já não me vejo em ti,

em invernos clamas a si

o que o verão tens de mim.”

A ondulação das marés

fez o navegante sumir

através da névoa

densa e gélida,

enquanto só encontra

calor na canção a repetir:

“Navegue até mim,

me deixe lhe amar,

meu amor, meu amor,

fique por mim.”

Com o Si, a si se despede,

ao passo do amor,

que se sucede.

Em estado insone,

esvai-se

no novo paço

do descompasso.

No frio do verão

pus-me a sumir.

Quando estavas a banhar

sob essas águas

Lhe alertei em um Si menor:

“Tenhas cuidado, amor,

as minhas marés

são de águas

das mais

gélidas

fontes.”

Com esse refrão,

de que vens a escutar

só o que convém,

tu sempre retornas

pro amante no além.

Rafael

Rafael, aqui lhe escrevo

para confessar o meu desejo

de lhe ter ao meu peito,

me deixando, inevitavelmente,

sem jeito.

Tudo por conta de um vinho

que me prometeste aculá

e que seria perfeito,

Se trouxeres pro lado de cá.

Então, preciso lhe confessar,

algo que pode doer,

Eu preciso lhe agradecer,

Ao mostrar que não preciso te ter.

Somos duas estações

Em descompasso.

Que se complementaram

Totalmente pelo acaso.

Não há necessidade

Em amar o outro,

Muito menos o outrem.

A mim mesmo encontro,

nos encontros do além.

A sonoridade da sua voz

me fez desfazer alguns nós.

Amar-me a mim mesmo,

como amar a ti, meu amante.

Amor de verão

Nossos corpos quentes

Entrelaçados e despidos

Suspiros em sintonia

Excitados e ponderados

Firmes e encharcados

Meu perfume cor ciano

Nos envolvia em maresia

O seu hálito alcoólico

Doce como melão

Pele dourada

Cabelo com textura

Deveras salgada

Sal em seus ombros

Areia em seus pés

Olhando minha alma

Através do véu dos meus olhos

Uma carícia em meu rosto

Um afago em seu torso

Um beijo de caramelo e sal

Sob a luz de Órion

A iluminar o luau

Nesses dias de verão

Verão e sol

Sol e mar

Mar e sal

Sal e suor

Suor e sexo

Sexo e amor

Amor e verão

Amor de verão

Que está fadado à outra estação

Enxugo sua lágrima

Me despeço com as cinzas

De um cigarro

E um abraço

Em seu corpo

O futuro esperado

Será com outro

Que provavelmente

Dirá que fui apenas uma mentira

De fato

Fui

Mas

O verão acabou

O luau terminou

Órion sumiu

Ele foi embora

Eu fui embora

O peso é pra quem fica

Enxugo uma lágrima que secara

Antares reluz

Um suspiro

e

Até

Thoughts

  • Terezinha

    Repara que quando Órion some, Antares aparece. Aqui embaixo as Três Marias são do céu de verão e o Escorpião é do de inverno, e a história antiga diz que os dois nunca dividem o céu porque o escorpião matou o caçador. Verão indo, inverno chegando.

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  • lcavalcanti93

    Botar Rafael antes de Amor de verão muda o rumo da coletânea. Rafael já resolve a questão, amar a si mesmo e não precisar ter o outro. Só que tudo volta pro luau e fecha no Até. Pra mim a paz chegou primeiro e a despedida doeu do mesmo jeito.

    Permalink
  • Luzolo

    São bons poemas, infelizmente não consegui ler todas. Porque juntou tanto assim?

    Permalink

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