Repara que quando Órion some, Antares aparece. Aqui embaixo as Três Marias são do céu de verão e o Escorpião é do de inverno, e a história antiga diz que os dois nunca dividem o céu porque o escorpião matou o caçador. Verão indo, inverno chegando.
Eterno amante de verão - em busca de outra estação
Pensamento
Repara que quando Órion some, Antares aparece. Aqui embaixo as Três Marias são do céu de verão e o Escorpião é do de inverno, e a história antiga diz que os dois nunca dividem o céu porque o escorpião matou o caçador. Verão indo, inverno chegando.
Conteúdo da publicação
Nota
Eterno amante de verão parte de uma ideia simples: o verão não é uma estação, é um estado. Tomei emprestado o imaginário popular do amor de verão, feito de sal, luau e prazo curto, e o segui até onde ele esfria.
Há amores que não cabem no calendário. Este conjunto segue um deles: um amante que leva o verão consigo e não sabe habitar outra estação. À superfície, tudo brilha e cheira a maresia. Por baixo, a água é mais fria do que parece. Leia devagar, como quem entra no mar: a superfície acolhe, o fundo pede tempo.
Amar fora de estação
Nunca houve promessa de pertencimento,
Senão a certeza do inevitável distanciamento.
Uns se conformaram com o fato do esvaecimento,
Outros sabotaram por receio do afastamento.
Alguns são inverno, outros são verão,
Cada qual condenado à sua própria estação.
Outonos encontram primaveras em entusiasmo,
Enquanto o amante procura o que perdeu ao ocaso.
Amar fora da estação
É beber vinho tinto sob o sol escaldante,
Sentir no próprio corpo um tempo que não lhe cabe,
Procurar, no inverno, o afago que nasceu em contramão.
E suportar, de estação em estação,
a mesma condição:
Um eterno amante de verão, em busca de outra estação.
Cheiro de ciao
O sal que consome o ferro
é o mesmo que me faz eterno.
Melão doce, eu me apresento
Fascinando junto com o momento.
Ciano preenche o ambiente
de um jeito bem eloquente,
Completando a maresia que me sustenta
Ao passo em que tu me atentas.
Bergamota e groselha
vão formando o poema:
de água e sal,
sal e sol,
sol e mar.
Tabaco finalizando o campo de fascínio.
Eis que lhe descrevo o meu centro certeiro:
magnólia e Íris,
hortelã e cedro.
Que lhes endosso,
como contrastante, raro e temperado
Perfume este que meu cheiro há de querer:
doce mar,
assim como naquele luau —
amor de verão e o cheiro de ciao.
…
Salgado e doce se torna meu aroma,
Lhes convido a sentir-lo em meu pescoço.
E ao discorrer suas mãos sobre meus versos —
Depravados, porém honestos.
Recitando:
Areia e sal,
Perfume e suor,
Sexo e amor.
Um eterno amante de verão,
Em busca de outra estação.
Cor de oliva
Estás a encarar, pupilas a dilatar
Por conta do então vislumbre
De cores oliva, traços de mel,
Caramelo salgado e doce maresia.
Em prosa e clericot, a recitar
Rimas e versos, de deslumbre,
Inescrutáveis como uma cascavel,
Sibilando retórica para sua fantasia.
Sobrancelhas perfeitas e abundantes,
Rosto de maxilar e nariz marcantes;
Trazendo um traço assimétrico e estético.
Como pode alguém deificado e poético?
Sua silhueta esguia e alta,
Como os templos de Malta,
Esculpida em Globigerina,
Numa nobreza tão genuína.
A brisa do mar vem destruindo as rimas
Que, há instantes, eram truísticas,
Por conta de uma cena toda cênica,
De uma gota de suor, lenta e obscena.
Sua presença, por si só,
é um poema.
Seus gestos, delicados,
trazem tormento
Para aqueles que o cercam.
O azul parahyba, ele contempla,
em olhos cheios de melancolia
e maresia de águas gélidas.
Essa poesia vai encaracolando
os versos.
Em seus cabelos,
emaranhados pelo vento.
E ao descrever o suposto amor de verão.
Irão faltar cores nos outros,
ao moço rabiscar.
Tão atento vi-me a contemplar-lhe
Que o espelho vem a relembrar-me
O amante que outrora eu já fora,
Um poema em cores de valia.
Vívido em meus amores,
afora pelo mundo,
esculpindo minhas dores.
Além do cais
Pobre indivíduo
preso ao ritmo das marés,
perdido ao relento,
sem norte,
graças à canção.
“Navegue até mim,
me deixe lhe amar,
meu amor, meu amor,
por ti eu fico.”
Ao escutar,
o navegante vê-se a sentir
falta da vida além dos cais,
que está passando,
enquanto se finda
em águas dantescas e abissais.
O refrão promete o sol eterno,
em um tom que parece maior,
mas, ao recitar
os novos versos,
deixa o seu lamento
menor.
A voz ainda o clama,
de longe:
“Navegue em minha direção,
meu amor, meu amor,
não, não estou preparado,
espere um pouco mais.”
É impossível levar
um barco sem temporais
nos movimentos das ondas,
em uníssono com o canto,
em tom menor que o conto.
“Não me venhas a seguir,
já não me vejo em ti,
em invernos clamas a si
o que o verão tens de mim.”
A ondulação das marés
fez o navegante sumir
através da névoa
densa e gélida,
enquanto só encontra
calor na canção a repetir:
“Navegue até mim,
me deixe lhe amar,
meu amor, meu amor,
fique por mim.”
Com o Si, a si se despede,
ao passo do amor,
que se sucede.
Em estado insone,
esvai-se
no novo paço
do descompasso.
No frio do verão
pus-me a sumir.
Quando estavas a banhar
sob essas águas
Lhe alertei em um Si menor:
“Tenhas cuidado, amor,
as minhas marés
são de águas
das mais
gélidas
fontes.”
Com esse refrão,
de que vens a escutar
só o que convém,
tu sempre retornas
pro amante no além.
Rafael
Rafael, aqui lhe escrevo
para confessar o meu desejo
de lhe ter ao meu peito,
me deixando, inevitavelmente,
sem jeito.
Tudo por conta de um vinho
que me prometeste aculá
e que seria perfeito,
Se trouxeres pro lado de cá.
Então, preciso lhe confessar,
algo que pode doer,
Eu preciso lhe agradecer,
Ao mostrar que não preciso te ter.
Somos duas estações
Em descompasso.
Que se complementaram
Totalmente pelo acaso.
Não há necessidade
Em amar o outro,
Muito menos o outrem.
A mim mesmo encontro,
nos encontros do além.
A sonoridade da sua voz
me fez desfazer alguns nós.
Amar-me a mim mesmo,
como amar a ti, meu amante.
Amor de verão
Nossos corpos quentes
Entrelaçados e despidos
Suspiros em sintonia
Excitados e ponderados
Firmes e encharcados
Meu perfume cor ciano
Nos envolvia em maresia
O seu hálito alcoólico
Doce como melão
Pele dourada
Cabelo com textura
Deveras salgada
Sal em seus ombros
Areia em seus pés
Olhando minha alma
Através do véu dos meus olhos
Uma carícia em meu rosto
Um afago em seu torso
Um beijo de caramelo e sal
Sob a luz de Órion
A iluminar o luau
Nesses dias de verão
Verão e sol
Sol e mar
Mar e sal
Sal e suor
Suor e sexo
Sexo e amor
Amor e verão
Amor de verão
Que está fadado à outra estação
Enxugo sua lágrima
Me despeço com as cinzas
De um cigarro
E um abraço
Em seu corpo
O futuro esperado
Será com outro
Que provavelmente
Dirá que fui apenas uma mentira
De fato
Fui
Mas
O verão acabou
O luau terminou
Órion sumiu
Ele foi embora
Eu fui embora
O peso é pra quem fica
Enxugo uma lágrima que secara
Antares reluz
Um suspiro
e
Até
Thoughts
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PermalinkRepara que quando Órion some, Antares aparece. Aqui embaixo as Três Marias são do céu de verão e o Escorpião é do de inverno, e a história antiga diz que os dois nunca dividem o céu porque o escorpião matou o caçador. Verão indo, inverno chegando.
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PermalinkBotar Rafael antes de Amor de verão muda o rumo da coletânea. Rafael já resolve a questão, amar a si mesmo e não precisar ter o outro. Só que tudo volta pro luau e fecha no Até. Pra mim a paz chegou primeiro e a despedida doeu do mesmo jeito.
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PermalinkSão bons poemas, infelizmente não consegui ler todas. Porque juntou tanto assim?
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