CAPÍTULO 20 — O BEIJO
A voz desapareceu.
As luzes da mansão continuaram apagadas.
Durante alguns segundos, ninguém se mexeu.
Yasmin ainda segurava a mão de Liam.
Ele permanecia olhando para os alto-falantes instalados no corredor, como se pudesse arrancar deles uma resposta apenas com os olhos.
— Liam...
Ele não respondeu.
— Liam, olha para mim.
Dessa vez, ele obedeceu.
Yasmin percebeu imediatamente.
O homem diante dela estava diferente.
Não era o Liam arrogante que entrava em uma sala e fazia todos abaixarem os olhos.
Não era o homem que sempre tinha uma resposta pronta.
Ele parecia perdido.
— Você conhece essa voz? — ela perguntou.
— Não.
— Tem certeza?
— Não.
Yasmin franziu a testa.
— Você acabou de dizer que não conhece.
— Eu não reconheço conscientemente.
— Isso não é a mesma coisa.
Liam desviou o olhar.
— Eu sei.
Ela apertou a mão dele.
— O que você está lembrando?
Ele respirou fundo.
— Uma porta.
— Que porta?
— Uma porta vermelha.
Yasmin ficou em silêncio.
— Eu lembro de você.
Ela sentiu o coração acelerar.
— De mim?
— Você estava chorando.
— Por quê?
Liam fechou os olhos.
A lembrança veio novamente.
Pequenos flashes.
Uma casa.
Uma sala.
Uma janela aberta.
Yasmin criança escondida atrás de uma cortina.
Ele segurando sua mão.
E uma terceira criança.
Uma menina.
Chorando.
— Eu não consigo lembrar o rosto.
— Mas lembra dela?
— Sim.
— O que aconteceu?
Liam abriu os olhos.
— Alguém mandou a gente correr.
— Quem?
Ele ficou em silêncio.
— Liam.
— Meu pai.
Yasmin soltou lentamente a mão dele.
— Seu pai estava lá?
— Acho que sim.
— E minha família?
— Eu não sei.
— Então como você sabe que nossas famílias estão envolvidas?
— Porque encontrei os documentos.
— Documentos que você escondeu de mim.
— Sim.
Yasmin respirou fundo.
— Você percebe que cada vez que eu descubro alguma coisa, aparece outra pergunta?
— É exatamente por isso que estou tentando descobrir tudo antes de contar.
Ela ficou olhando para ele.
— Não.
Liam franziu a testa.
— Não?
— Você está tentando descobrir tudo antes de me contar porque tem medo de perder o controle.
Ele não respondeu.
— Acertei.
Liam passou a mão pelo cabelo.
— Talvez.
— Não é talvez.
Ela se aproximou.
— Você tem medo de descobrir alguma coisa sobre você.
O silêncio respondeu por ele.
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A CASA AZUL
Horas depois, Liam voltou para a casa azul.
Dessa vez, Yasmin foi junto.
A estrada estava quase completamente vazia.
A chuva havia deixado o chão coberto de lama.
Yasmin olhava pela janela do carro.
— Por que essa casa?
— Não sei.
— Você veio aqui quando era criança?
— Sim.
— Com quem?
— Minha mãe.
Ela virou o rosto.
— E comigo?
Liam olhou rapidamente para ela.
— Sim.
Yasmin ficou surpresa.
— Eu não lembro.
— Você era pequena.
— Você lembra de mim, mas eu não lembro de você.
— Eu nunca esqueci.
A frase saiu naturalmente.
Yasmin ficou alguns segundos em silêncio.
— Você lembra de como eu era?
Liam sorriu de leve.
— Mais do que deveria.
— Como?
Ele estacionou.
— Você falava muito quando estava nervosa.
— Eu ainda faço isso.
— Eu sei.
— E?
— Você mexia no cabelo quando mentia.
Ela passou a mão pelos cachos.
— Ainda faço isso?
— Quando está tentando esconder alguma coisa.
Yasmin sorriu.
— E você?
— O quê?
— O que você fazia quando estava nervoso?
Liam demorou.
— Eu ficava quieto.
— Ainda faz.
— Sim.
— Então você não mudou tanto.
Liam abriu a porta do carro.
— Talvez tenha mudado mais do que você imagina.
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A casa parecia ainda menor por dentro.
Yasmin caminhou devagar.
Cada cômodo parecia carregar uma memória que não conseguia alcançar.
Ela parou diante de uma parede.
Havia marcas de lápis.
Alturas de crianças.
Datas.
Nomes.
Liam se aproximou.
— Essa é minha.
Ele apontou para uma marca.
LIAM — 10 ANOS.
Logo abaixo havia outra.
YASMIN — 9 ANOS.
Ela passou os dedos pela parede.
— Eu realmente estive aqui.
— Muitas vezes.
— Por que não lembro?
— Porque alguma coisa aconteceu depois.
Yasmin olhou para ele.
— O quê?
— Não sei.
Ela caminhou mais alguns passos.
Então parou.
Uma sensação estranha tomou conta dela.
— Espera.
Liam se virou.
— O quê?
— Eu conheço esse lugar.
Ela fechou os olhos.
Uma lembrança.
Um balanço no quintal.
Uma menina correndo.
Uma criança negra com o cabelo cheio.
Liam.
Ela sorriu.
Ele estava segurando alguma coisa.
Um pequeno brinquedo.
— Você roubou meu urso.
Liam sorriu.
— Você deixou no chão.
— Era meu.
— Agora é meu.
— Me devolve.
A pequena Yasmin tentou puxar o brinquedo.
Liam levantou o braço.
Ela começou a rir.
A lembrança desapareceu.
Yasmin abriu os olhos.
Lágrimas estavam em seu rosto.
— Eu lembro.
Liam se aproximou.
— Do quê?
— Você roubava meu urso.
Ele sorriu.
— Eu não roubei.
— Roubou.
— Você me deu.
— Eu tinha nove anos!
— E eu tinha dez.
Ela riu entre as lágrimas.
— Você era insuportável.
— Você gostava de mim.
Yasmin olhou para ele.
— Talvez.
Liam ficou sério.
— Eu gostava de você.
Ela não respondeu.
Porque sabia que ele estava falando do passado.
Mas também sabia que havia outra coisa naquela frase.
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O QUARTO
Eles encontraram uma porta no final do corredor.
Liam parou.
— Essa porta...
— O quê?
— Eu não lembro dela.
Yasmin tocou na maçaneta.
Estava trancada.
Liam tirou a chave encontrada anteriormente.
Ela entrou perfeitamente.
Yasmin olhou para ele.
— Isso estava escondido aqui o tempo todo?
— Talvez.
A porta abriu.
O cômodo estava coberto de poeira.
Havia uma cama pequena.
Um armário.
Uma escrivaninha.
E desenhos nas paredes.
Três crianças.
Sempre três.
Yasmin se aproximou.
— Liam...
Ele estava olhando para um desenho.
As três crianças estavam de mãos dadas.
Mas uma delas havia sido riscada várias vezes.
— Quem fez isso?
— Eu.
— Por quê?
— Não lembro.
Ela observou o desenho.
— Essa sou eu?
— Sim.
— E esse é você.
— Sim.
Ela apontou para a terceira criança.
— E ela?
Liam não respondeu.
Yasmin olhou novamente.
— Você sabe quem é.
— Eu não sei.
— Liam.
— Eu não sei!
A voz dele ecoou pelo quarto.
Yasmin recuou.
Ele percebeu.
Imediatamente se arrependeu.
— Desculpa.
— Tudo bem.
— Não está.
Liam respirou fundo.
— Eu odeio não lembrar.
Yasmin se aproximou.
— Talvez seja por isso que você tenta controlar tudo.
Ele a encarou.
— Talvez.
— Porque você acha que, se souber onde todo mundo está, ninguém poderá desaparecer.
Liam abaixou a cabeça.
— Quando minha mãe desapareceu, eu procurei por ela durante anos.
— Sozinho?
— Sim.
— Seu pai não ajudou?
Ele riu sem humor.
— Meu pai dizia que eu precisava aceitar.
— E você nunca aceitou.
— Não.
Yasmin tocou o braço dele.
— Eu sinto muito.
Liam olhou para a mão dela.
Depois para seus olhos.
— Não tenha pena de mim.
— Eu não tenho.
— Então o que você sente?
Ela demorou.
— Medo.
Ele assentiu.
— Justo.
— Mas também sinto que existe alguma coisa em você que ninguém conhece.
— Existe.
— E eu quero conhecer.
Liam ficou muito perto.
— Isso pode ser perigoso.
— Eu já percebi.
— Você ainda pode ir embora.
Yasmin sustentou seu olhar.
— Você sempre fala isso.
— Porque é verdade.
— Mas você espera que eu vá?
Liam não respondeu.
Yasmin se aproximou mais.
— Você quer que eu vá?
Ele respirou fundo.
— Não.
A resposta foi quase um sussurro.
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A FERIDA
Eles ficaram em silêncio.
A chuva começou novamente.
O som das gotas batendo no telhado preenchia o quarto.
Yasmin percebeu que Liam estava olhando para sua boca.
Ela também percebeu que estava fazendo o mesmo.
Mas nenhum dos dois se mexeu.
— Liam...
— Não.
— Não o quê?
— Não faça isso.
— Isso o quê?
— Me olhar desse jeito.
Ela sorriu.
— E como eu estou olhando?
— Como se não tivesse medo de mim.
— Eu tenho.
— Então deveria ir embora.
— Talvez eu esteja cansada de fugir.
Liam passou a mão pelo rosto.
— Você não sabe o que está fazendo comigo.
— Então me conta.
— Eu não consigo.
— Por quê?
— Porque toda vez que alguém chega perto demais...
Ele parou.
— O quê?
— Eu começo a imaginar como vou perder essa pessoa.
Yasmin sentiu o coração apertar.
— Você acha que vai me perder?
— Todo mundo vai embora.
— Eu não sou todo mundo.
— É exatamente isso que me assusta.
Ela ficou em silêncio.
Liam continuou:
— Quando eu tinha dez anos, eu aprendi que amar alguém significava esperar o pior.
— E desde então você tenta controlar tudo.
— Sim.
— Inclusive eu.
— Sim.
— E você sabe que isso está errado.
— Sei.
— Então por que continua?
Liam olhou para ela.
— Porque às vezes o medo fala mais alto que a razão.
Yasmin se aproximou.
— E agora?
— Agora o que?
— Quem está falando mais alto?
Liam não respondeu.
Yasmin colocou a mão no rosto dele.
Dessa vez, ele não recuou.
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O BEIJO
O primeiro beijo aconteceu lentamente.
Sem pressa.
Sem certeza.
Como se ambos soubessem que estavam atravessando uma linha que mudaria alguma coisa.
Yasmin encostou os lábios nos dele.
Liam ficou imóvel por um segundo.
Depois correspondeu.
Não havia violência.
Não havia posse.
Apenas tensão acumulada durante semanas finalmente encontrando uma saída.
Quando se afastaram, Yasmin continuou segurando o rosto dele.
Liam abriu os olhos.
— Isso foi uma péssima ideia.
Ela sorriu.
— Foi?
— Sim.
— Então por que está sorrindo?
Liam percebeu.
Estava sorrindo.
Um sorriso raro.
Quase infantil.
Yasmin tocou o canto de sua boca.
— Você ainda sorri assim.
Ele franziu a testa.
— Assim como?
— Igual quando era criança.
— Você lembra?
— Agora lembro.
Ela sorriu.
— Você fazia isso quando queria fingir que não tinha feito alguma coisa.
Liam riu baixo.
— E você ainda mexe no cabelo quando está nervosa.
Yasmin percebeu a própria mão presa nos cachos.
— Para.
— Eu não disse nada.
— Você está olhando.
— Porque eu gosto.
Ela ficou sem resposta.
Por alguns segundos, os dois apenas se olharam.
Então Liam se aproximou novamente.
Dessa vez, Yasmin não esperou.
Beijou-o.
E o segundo beijo foi diferente.
Mais intenso.
Mais emocional.
Como se o passado deles estivesse tentando recuperar os anos perdidos.
Quando se separaram, Yasmin encostou a testa na dele.
— Liam.
— Sim?
— Eu não quero ser mais uma pessoa que você tenta controlar.
Ele fechou os olhos.
— Eu sei.
— Se isso continuar...
— Eu vou tentar.
— Não.
Ele abriu os olhos.
— O quê?
— Você não vai tentar.
Ela segurou a mão dele.
— Você vai aprender.
Liam sorriu.
— Você sempre foi mandona.
— E você sempre foi irritante.
— Talvez por isso eu gostasse de você.
Yasmin sorriu.
— Talvez?
— Muito.
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A CONSEQUÊNCIA
O momento terminou quando o celular de Liam vibrou.
Ele olhou para a tela.
Número desconhecido.
Mensagem.
"Bonito reencontro."
Liam ficou sério.
Outra mensagem chegou.
"Mas vocês estão esquecendo da terceira criança."
Yasmin leu.
Seu sorriso desapareceu.
— Ele sabe que estamos aqui.
Liam digitou:
"Quem é você?"
A resposta veio imediatamente.
"Pergunte à sua mãe."
Liam congelou.
Yasmin percebeu.
— Sua mãe?
Outra mensagem.
"Ela deixou uma coisa para vocês na casa azul."
Liam olhou para a porta.
— Não.
— O quê?
— Isso é uma armadilha.
— Talvez.
— Você fica aqui.
Yasmin cruzou os braços.
— Não.
— Yasmin.
— Você não vai sozinho.
— Pode ser perigoso.
— Então vamos juntos.
Liam ficou olhando para ela.
Por um instante, parecia que discutiria.
Mas desistiu.
— Tudo bem.
Eles voltaram para o corredor.
Antes de sair, Yasmin olhou novamente para o desenho das três crianças.
Alguma coisa chamou sua atenção.
A terceira criança não havia sido completamente apagada.
No pulso dela havia um pequeno símbolo.
Uma estrela.
Yasmin tocou o desenho.
— Liam.
Ele voltou.
— O quê?
— Eu já vi essa estrela.
— Onde?
Ela olhou para ele.
— Na minha infância.
Liam ficou imóvel.
— Você tem certeza?
— Não.
Ela passou os dedos pelo desenho.
— Mas sinto que conheço.
Liam olhou para a estrela.
Depois para Yasmin.
— Então talvez você se lembre antes de mim.
Um barulho veio do andar de baixo.
Os dois congelaram.
Passos.
Lentos.
Alguém estava dentro da casa.
Liam fez sinal para Yasmin ficar atrás dele.
Os passos pararam.
Silêncio.
Então uma voz feminina surgiu do andar inferior.
Baixa.
Trêmula.
Familiar.
— Liam?
Ele perdeu a cor.
Yasmin segurou seu braço.
— Você conhece essa voz?
Liam não conseguiu responder.
A voz chamou novamente:
— Liam... sou eu.
Ele deu um passo em direção à escada.
Yasmin sussurrou:
— Quem é?
Liam olhou para ela.
Seus olhos estavam cheios de algo que ela nunca tinha visto.
Esperança.
Medo.
E uma dor antiga.
— Minha mãe.