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ENTRE SOMBRAS E PECADOS

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CAPÍTULO 19 — O MONSTRO

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CAPÍTULO 19 — O MONSTRO

A manhã seguinte nasceu cinzenta.

Blackwood parecia diferente.

Talvez porque, pela primeira vez, ninguém estava fingindo que estava tudo bem.

A mansão permanecia isolada.

Carros da polícia ocupavam a entrada.

Os convidados da noite anterior haviam sido interrogados.

Alguns foram embora durante a madrugada.

Outros permaneceram na cidade porque não tinham para onde ir.

Mas uma coisa era certa:

ninguém falava sobre outra coisa.

A mulher desaparecida continuava desaparecida.

A sala M-04 havia sido interditada.

E a polícia havia encontrado algo no corredor do segundo andar.

Sangue.

Pouco.

Mas suficiente para transformar um desaparecimento em uma possível tentativa de homicídio.

Liam estava parado diante da janela do quarto.

Não havia dormido.

Yasmin estava sentada na poltrona atrás dele.

Também não.

Durante horas, os dois haviam permanecido em silêncio.

Até que ela finalmente perguntou:

— Você sabia.

Liam continuou olhando pela janela.

— Sabia o quê?

— Não faça isso.

Ele fechou os olhos.

— Fazer o quê?

— Fingir que não sabe.

Liam virou lentamente.

— Yasmin...

— Você sabia o que era M-04.

— Não exatamente.

— Mas sabia alguma coisa.

Silêncio.

— Sim.

Ela se levantou.

— Então por que mentiu?

— Porque eu não tinha certeza.

— Você sempre tem uma razão.

— Porque geralmente existe uma razão.

Yasmin balançou a cabeça.

— É isso que mais me assusta em você.

Liam permaneceu imóvel.

— Você sempre encontra uma justificativa para esconder alguma coisa.

— Eu estava tentando proteger você.

— E quem protege você?

Ele não respondeu.

Yasmin se aproximou.

— Você percebe que está fazendo exatamente aquilo que seu pai fez?

A frase atingiu Liam como um golpe.

Seu rosto mudou.

— Não compare meu pai comigo.

— Então pare de agir como ele.

Liam desviou o olhar.

Por alguns segundos, Yasmin viu algo que quase nunca aparecia nele.

Dor.

Não raiva.

Dor.

Mas ela não voltou atrás.

— Eu preciso saber quem você é, Liam.

Ele respirou fundo.

— Talvez você não goste da resposta.

— Eu já não gosto das mentiras.

---

O HOMEM QUE NÃO DORMIA

Liam tinha um hábito estranho.

Quando era criança, nunca dormia de costas para a porta.

Nunca.

A cama precisava ficar posicionada de maneira que ele pudesse enxergar a entrada.

Se alguém mudasse os móveis do quarto, ele ficava acordado.

Seu pai dizia que aquilo era paranoia.

Sua mãe dizia que era medo.

Mas ninguém perguntava por que ele tinha medo.

Até aquela noite.

A noite em que sua mãe desapareceu.

Liam tinha dez anos.

Estava deitado.

O quarto escuro.

Chovia.

Ele ouviu passos no corredor.

Depois vozes.

A voz da mãe.

A voz do pai.

Uma discussão.

Então um barulho.

Algo caiu.

Depois...

silêncio.

Liam abriu a porta.

O corredor estava vazio.

Mas havia sangue no chão.

Ele ficou parado.

Não chorou.

Não gritou.

Voltou para o quarto.

Fechou a porta.

E ficou sentado diante dela durante horas.

Esperando.

Esperando alguém voltar.

Sua mãe não voltou.

Na manhã seguinte, seu pai entrou no quarto.

— Sua mãe foi embora.

Liam perguntou:

— Ela vai voltar?

O pai respondeu:

— Não.

Foi naquele momento que alguma coisa dentro dele mudou.

Se alguém podia simplesmente desaparecer...

então ele precisava saber onde todos estavam.

Precisava saber o que faziam.

Precisava antecipar tudo.

Precisava controlar.

Porque, na cabeça de uma criança assustada, controle parecia a única forma de impedir outra perda.

O problema era que Liam cresceu.

O medo também.

---

O ESPELHO

Naquela manhã, Liam estava diante do espelho.

Observava o próprio rosto.

A barba por fazer.

As olheiras.

O cabelo desalinhado.

Parecia cansado.

Mas havia outra coisa.

Ele não reconhecia completamente o homem que via.

— Você está virando ele.

A voz de Yasmin veio da porta.

Liam não respondeu.

— Seu pai.

Ele apertou a mandíbula.

— Não.

— Então prove.

Liam virou.

— Como?

— Confie em mim.

— Eu confio.

— Não.

Ela se aproximou.

— Você confia em mim quando eu faço o que você espera.

Liam ficou em silêncio.

— Quando eu questiono você, quando descubro algo que você queria esconder, você fecha todas as portas.

— Porque algumas coisas são perigosas.

— E algumas coisas são simplesmente desconfortáveis.

Ele olhou para ela.

— Você acha que eu gosto de ser assim?

— Não.

Yasmin tocou o próprio cabelo.

Era o mesmo gesto de quando ficava nervosa.

Liam observou.

— Você ainda faz isso.

Ela parou.

— E você ainda percebe.

— Sempre percebi.

— Por quê?

Liam respondeu sem pensar:

— Porque quando éramos crianças, você fazia isso antes de mentir.

Yasmin franziu a testa.

— Eu mentia?

— Às vezes.

— Sobre o quê?

Liam quase sorriu.

— Quando roubava doces da cozinha.

Ela riu.

— Você lembra disso?

— Lembro.

— Eu achava que você não lembrava de quase nada.

— Eu lembro de você.

O sorriso dela desapareceu lentamente.

— Só de mim?

Liam ficou em silêncio.

E aquela resposta dizia mais do que qualquer palavra.

---

O ARQUIVO

Valentina estava em uma sala da universidade.

Tinha passado a noite estudando os arquivos.

Alice estava com ela.

— Você precisa dormir.

— Depois.

— Valentina.

— Alice.

— Você está há quase vinte horas acordada.

— E você?

Alice bocejou.

— Eu não estou sendo interrogada pela própria consciência.

Valentina sorriu.

— Eu estou.

Ela abriu o arquivo novamente.

A gravação.

As cinco crianças.

A voz.

A mãe de Liam.

M-04.

Alice observou a tela.

— Você percebeu uma coisa?

— O quê?

— O vídeo não mostra quem gravou.

Valentina parou.

— Exatamente.

— E se encontrarmos a câmera original?

Valentina olhou para ela.

— Talvez encontremos a pessoa que estava atrás dela.

Alice assentiu.

— E talvez ela saiba quem é M-04.

Valentina fechou o notebook.

— Vamos voltar à mansão.

— Você está louca.

— Provavelmente.

— Isso não foi um elogio.

— Eu sei.

---

DOMINIC

Dominic não tinha ido para casa.

Estava sentado sozinho em seu carro.

Aurora havia bloqueado seu número.

Não respondia mensagens.

Ele abriu uma fotografia antiga.

Ele e Aurora.

Primeiro ano da faculdade.

Ela sorria.

Ele também.

Pareciam felizes.

Dominic passou o dedo pela fotografia.

Não lembrava exatamente quando as coisas haviam mudado.

Talvez tivesse sido aos poucos.

Primeiro, perguntou onde ela estava.

Depois começou a exigir respostas.

Depois começou a decidir com quem ela poderia sair.

Depois...

começou a acreditar que aquilo era amor.

Seu celular vibrou.

Mensagem de Ethan:

"Você está bem?"

Dominic digitou:

"Sim."

Apagou.

Escreveu novamente:

"Não."

Enviou.

Ethan respondeu:

"Quer conversar?"

Dominic ficou olhando para a mensagem.

Ele quase recusou.

Era o que sempre fazia.

Mas, dessa vez:

"Quero."

---

A INFÂNCIA DE DOMINIC

Eles se encontraram em uma praça vazia.

Ethan sentou ao lado dele.

— O que aconteceu?

Dominic demorou.

— Você já teve medo de perder alguém?

Ethan riu levemente.

— Todo mundo já.

— Não desse jeito.

Dominic olhou para as próprias mãos.

— Meu irmão desapareceu quando eu era criança.

Ethan ficou sério.

— Eu não sabia.

— Ninguém sabe.

— O que aconteceu?

— Ele ficou desaparecido por seis horas.

— E voltou?

— Sim.

Dominic respirou.

— Mas eu nunca voltei ao normal.

— Por quê?

— Porque meu pai disse uma coisa.

Ethan esperou.

— Ele disse que, se eu realmente amasse alguém, nunca poderia deixar essa pessoa escapar.

Ethan ficou em silêncio.

Dominic continuou:

— Eu acreditei.

— Aurora não é seu irmão.

— Eu sei.

— Então por que você tenta controlar ela?

Dominic respondeu:

— Porque quando ela sai pela porta, uma parte de mim acredita que nunca vai voltar.

Ethan olhou para ele.

— Isso explica.

Dominic assentiu.

— Mas não justifica.

Ethan ficou surpreso.

Dominic continuou:

— Eu sei.

Era a primeira vez que ele dizia aquilo.

---

O QUARTO DE AURORA

Aurora estava sentada no chão do quarto.

Noah estava perto da janela.

— Você ainda ama ele?

Aurora demorou.

— Não sei.

— E isso dói?

— Muito.

Noah se aproximou.

— Por quê?

— Porque eu lembro de quando ele era bom comigo.

— E agora?

— Agora eu lembro também de tudo que ele fez.

Noah sentou ao lado dela.

Aurora encostou a cabeça na parede.

— Eu passei tanto tempo tentando provar que ele me amava que esqueci de perguntar se eu era feliz.

Noah olhou para ela.

— E era?

Aurora respondeu:

— Não.

---

A PORTA M-04

No fim da tarde, Valentina e Alice retornaram à mansão.

A polícia havia liberado parte da propriedade.

O corredor do segundo andar permanecia interditado.

Alice mostrou uma pequena câmera.

— Se formos pegas...

— Não seremos.

— Você está ficando igual ao Liam.

Valentina parou.

— Não diga isso.

Alice sorriu.

— Foi uma brincadeira.

— Não foi engraçado.

Elas chegaram à sala.

A porta estava aberta.

Valentina entrou.

As caixas permaneciam espalhadas.

Mas alguma coisa havia mudado.

A fotografia das cinco crianças tinha desaparecido.

— Alguém esteve aqui.

Alice olhou ao redor.

— Com certeza.

Valentina encontrou uma gaveta aberta.

Dentro havia uma fita cassete.

Sem etiqueta.

Ela pegou.

— Isso estava aqui antes?

Alice balançou a cabeça.

— Não.

Valentina encontrou um gravador antigo.

Colocou a fita.

A gravação começou.

Chiado.

Depois...

uma voz infantil.

— Você prometeu.

Outra voz respondeu.

— Eu sei.

— Você disse que ele não ia voltar.

Silêncio.

— Eu estava errada.

A criança começou a chorar.

Então a voz feminina:

— Quando eu disser para correr, vocês correm.

Valentina congelou.

Alice olhou para ela.

— Essa é a mãe de Liam.

A gravação continuou.

— Liam, você precisa cuidar dela.

Uma criança respondeu:

— Eu vou.

Yasmin.

A voz infantil:

— Promete?

— Prometo.

Valentina sentiu um arrepio.

Então veio uma terceira voz.

Mas não era de criança.

Era masculina.

— Eles não podem sair.

A gravação terminou.

Valentina ficou imóvel.

Alice perguntou:

— Quem era aquele homem?

Valentina não respondeu.

Porque havia reconhecido a voz.

Ela já tinha ouvido antes.

No telefone.

---

A MARCA

Enquanto Valentina investigava, Liam estava na casa azul.

Sozinho.

Não sabia por que havia ido.

Talvez porque alguma coisa dentro dele tivesse reconhecido o caminho.

A casa estava abandonada.

As janelas quebradas.

As paredes cobertas de mofo.

Ele entrou.

Cada passo despertava uma lembrança.

Uma mesa.

Um corredor.

Uma escada.

E então...

um pequeno desenho na parede.

Duas crianças.

De mãos dadas.

Liam passou os dedos sobre o desenho.

Uma lágrima escorreu.

Ele lembrava.

Não tudo.

Mas o suficiente.

Yasmin estava ali.

Ele também.

E havia outra criança.

Uma menina.

Ela estava chorando.

Liam fechou os olhos.

A lembrança veio como um golpe.

— Não conta para ninguém.

A voz da menina.

— Eu não vou.

— Promete?

— Prometo.

Depois outra lembrança.

Uma porta abrindo.

Um homem entrando.

Liam puxando Yasmin.

— Corre!

Ele abriu os olhos.

Respirava rápido.

Olhou para a parede.

Havia uma pequena marca.

Uma estrela.

A mesma estrela da pulseira da fotografia.

— M-04...

Ele tocou a marca.

E encontrou algo escondido atrás dela.

Um pequeno compartimento.

Dentro havia uma chave.

E um papel.

Apenas uma frase:

"Você prometeu protegê-la."

Liam sentiu o peito apertar.

— Eu prometi...

Mas não sabia quem havia prometido proteger.

Yasmin?

A menina?

Ou as duas?

---

O MONSTRO

Quando Liam voltou para a mansão, Yasmin estava esperando.

Ela percebeu imediatamente que alguma coisa tinha acontecido.

— Onde você estava?

Ele não respondeu.

— Liam.

Ele entregou a chave.

Yasmin olhou.

— Onde encontrou?

— Na casa azul.

Ela segurou.

— O que é isso?

— Não sei.

— Você está mentindo novamente.

— Não.

— Então diga.

Liam respirou fundo.

— Eu lembrei de uma menina.

Yasmin ficou imóvel.

— Qual menina?

— Não sei o nome.

— O que aconteceu com ela?

— Eu prometi protegê-la.

— E protegeu?

Liam desviou o olhar.

— Não sei.

Yasmin ficou em silêncio.

— Liam...

Ele olhou para ela.

— Talvez eu seja exatamente aquilo que você pensa.

— Um monstro?

Ele assentiu.

— Talvez.

Yasmin se aproximou.

— Monstros não costumam ter medo de machucar quem amam.

Liam respondeu:

— Eu tenho medo de machucar você.

— Então não faça isso.

— Eu não sei se consigo.

Ela segurou o rosto dele.

— Então aprenda.

Liam fechou os olhos.

Por alguns segundos, não existia o homem controlador.

Não existia o herdeiro.

Não existia o homem que todos temiam.

Existia apenas um garoto assustado tentando entender por que perdeu a mãe.

Yasmin o abraçou.

Liam hesitou.

Depois a abraçou também.

Mas, quando abriu os olhos...

viu alguém do outro lado da rua.

Um homem parado.

Observando a mansão.

Liam soltou Yasmin.

— Fique aqui.

Ela segurou seu braço.

— Não.

— Yasmin.

— Você prometeu não esconder mais nada.

Ele olhou para ela.

— Tem alguém nos observando.

Ela ficou séria.

— Quem?

Liam olhou novamente.

O homem havia desaparecido.

No chão, porém, havia alguma coisa.

Um envelope.

Liam saiu.

Pegou.

Abriu.

Dentro havia uma fotografia.

Era ele.

Criança.

Ao lado de Yasmin.

E da terceira menina.

No verso:

"Você se lembra dela agora."

Liam virou a fotografia.

Havia outra frase.

"Mas ainda não se lembra do que fez."

Ele ficou imóvel.

Yasmin apareceu atrás dele.

— O que foi?

Liam não respondeu.

Ela pegou a fotografia.

Seu rosto perdeu a cor.

— Quem é ela?

Liam encarou a imagem.

— Não sei.

— Você está com medo.

— Estou.

— De quê?

Ele olhou para Yasmin.

— De descobrir que talvez eu não tenha sido a vítima naquela noite.

Um trovão cortou o céu.

E, dentro da mansão, todas as luzes se apagaram novamente.

Dessa vez...

uma voz ecoou pelos alto-falantes.

— Boa noite, Liam.

Ele levantou a cabeça.

A voz continuou:

— Sentiu saudade de casa?

Yasmin segurou a mão dele.

Liam apertou os dedos dela.

A voz riu.

— Então vamos começar a lembrar.

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