CAPÍTULO 18 — A NOITE VERMELHA
A chuva começou pouco depois das oito da noite.
Primeiro, eram apenas algumas gotas contra as janelas da mansão Blackwood.
Depois, o céu pareceu desabar.
Os relâmpagos iluminavam os jardins por alguns segundos, revelando as árvores retorcidas e os caminhos de pedra que levavam até a enorme casa.
Dentro da mansão, entretanto, tudo parecia normal.
Música.
Luzes.
Roupas caras.
Taças sendo erguidas.
Sorrisos.
Pessoas conversando como se nada no mundo pudesse alcançá-las.
Era assim que a família Blackwood gostava de esconder seus problemas.
Com festas.
Quanto maior o segredo...
maior precisava ser a distração.
Naquela noite, a mansão estava cheia.
Empresários.
Estudantes.
Filhos de famílias influentes.
Professores.
Artistas.
Pessoas que tinham dinheiro.
E pessoas que queriam desesperadamente ter.
Gabriel estava nos bastidores, segurando o microfone.
Respirava fundo.
Era sua primeira apresentação para uma plateia daquele tamanho.
— Você está nervoso? — perguntou uma mulher da organização.
Gabriel sorriu.
— Um pouco.
— Não parece.
— É porque aprendi a sorrir quando estou quase surtando.
Ela riu.
— Boa sorte.
Gabriel olhou para o palco.
As luzes se apagaram.
Seu coração acelerou.
Por alguns segundos, esqueceu tudo.
A faculdade.
As contas.
A discussão com a mãe.
O favor que devia a Liam.
Tudo.
Quando entrou no palco, os aplausos começaram.
E Gabriel sorriu.
Não o sorriso que usava para esconder seus problemas.
Dessa vez era verdadeiro.
Ele finalmente estava vivendo o sonho que carregava desde criança.
Mas, enquanto cantava...
alguém o observava.
No segundo andar.
Atrás de uma porta entreaberta.
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O VESTIDO PRETO
Yasmin chegou pouco depois das nove.
Estava usando um vestido preto simples.
Nada exagerado.
Nada chamativo.
Ainda assim, quando entrou na mansão, algumas pessoas olharam.
Ela odiava aquilo.
Nunca gostou de chamar atenção.
Principalmente porque sabia que, naquela casa, atenção quase nunca significava algo bom.
Ela ajeitou os cabelos cacheados atrás da orelha.
Era um gesto que fazia sempre que ficava nervosa.
Desde criança.
Liam sabia disso.
E estava observando do outro lado do salão.
Ele não percebeu quando começou a sorrir.
Era quase imperceptível.
Aquele pequeno movimento no canto da boca.
Yasmin percebeu.
E caminhou até ele.
— Você está sorrindo.
Liam imediatamente voltou ao rosto sério.
— Não estou.
— Está sim.
— Deve ser impressão sua.
Ela cruzou os braços.
— Você mente muito mal quando está comigo.
— E você observa demais.
— Talvez porque eu conheça você.
Liam a encarou.
Por alguns segundos, o barulho da festa desapareceu.
— Conhece?
Yasmin respirou.
— Algumas partes.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Quais?
Ela pensou.
— Quando você está irritado, você mexe o maxilar.
Liam ficou imóvel.
— Quando está mentindo, olha para o lado esquerdo.
Ele desviou o olhar.
Yasmin sorriu.
— Viu?
Liam soltou uma pequena risada.
— Você ainda faz isso.
— O quê?
— Inclina a cabeça quando está tentando descobrir alguma coisa.
Ela franziu a testa.
— Eu faço isso?
— Fazia quando era criança.
Yasmin perdeu o sorriso.
— Você lembra?
Liam demorou para responder.
— Algumas coisas.
Ela olhou para ele.
— Eu também.
— Do quê?
Yasmin passou os dedos pelos cabelos.
— De um lugar.
Liam ficou atento.
— Qual?
— Uma casa azul.
O sorriso dele desapareceu.
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A CASA AZUL
— Eu estive lá — disse Yasmin.
— Quando?
— Não sei.
— Tem certeza?
— Tenho.
Liam olhou ao redor.
— Não fale disso aqui.
— Por quê?
— Porque algumas paredes têm ouvidos.
Yasmin soltou uma risada nervosa.
— Você fala como se estivéssemos em um filme.
— Eu gostaria que fosse.
Ela ficou séria.
— Você lembra dela?
— Da casa?
— Sim.
Liam olhou para uma janela.
O reflexo do relâmpago iluminou seu rosto.
— Lembro da chuva.
Yasmin sentiu um arrepio.
— Eu também.
— E de uma mulher gritando.
Ela fechou os olhos.
Por um instante, ouviu novamente aquela voz.
Distante.
Desesperada.
— Corre!
Yasmin abriu os olhos.
Respirava rapidamente.
Liam percebeu.
— Yasmin.
— Estou bem.
— Você não está.
— Estou.
— Você está fazendo aquilo novamente.
— O quê?
— Fingindo que está tudo bem.
Ela ficou em silêncio.
Era exatamente o que fazia.
Desde criança.
Quando sentia medo, sorria.
Quando queria chorar, dizia que estava cansada.
Quando precisava de alguém, dizia que conseguia sozinha.
Liam sabia.
Talvez melhor do que deveria.
— Você sempre mexeu no cabelo quando estava assustada — disse ele.
Yasmin parou de tocar os cachos.
— Como você sabe disso?
Liam não respondeu.
E isso foi suficiente para assustá-la.
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VALENTINA
Valentina chegou à festa quase uma hora depois.
Não queria estar ali.
Mas precisava.
Ela havia passado a última hora revisando o vídeo.
Cinco crianças.
Duas mulheres.
Um projeto.
Uma frase que não conseguia tirar da cabeça.
M-04 ainda está viva.
Ela precisava descobrir quem era.
Ao entrar na mansão, viu Alice.
— Você veio.
Alice segurava uma câmera.
— Eu vim trabalhar.
Valentina olhou para ela.
— Mentira.
Alice sorriu.
— Também vim investigar.
— Você é péssima mentindo.
— Aprendi com gente perigosa.
As duas riram.
Mas o momento durou pouco.
Valentina ficou séria.
— Eu descobri uma coisa.
Alice percebeu imediatamente.
— O quê?
— Minha mãe conhecia a mãe de Liam.
Alice perdeu o sorriso.
— Tem certeza?
Valentina mostrou a fotografia.
Alice segurou a imagem.
— Onde você conseguiu isso?
— Minha mãe deixou.
— Você nunca me contou que tinha uma fotografia dela.
— Porque eu nunca tinha visto antes.
Alice observou os detalhes.
— Valentina...
— O quê?
— Olha aqui.
Ela apontou para o fundo da fotografia.
Uma porta.
Acima dela havia uma placa.
ARQUIVO M-04.
Valentina sentiu o coração acelerar.
— A gente precisa encontrar essa sala.
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DOMINIC
Dominic estava no bar.
Segurava um copo que não havia tocado.
Aurora estava do outro lado da sala.
Conversando com Noah.
Dominic observava.
Não gostava daquela sensação.
Nunca gostou de perder controle.
Desde criança, havia aprendido que perder alguém significava ser fraco.
Seu pai ensinara isso.
Quando Dominic tinha nove anos, seu irmão mais velho desapareceu por algumas horas durante uma festa familiar.
Dominic lembrava perfeitamente.
Lembrava de procurar pela casa.
De chorar.
De perguntar onde ele estava.
E de ouvir o pai dizer:
— Homens não choram.
Depois, quando encontraram o irmão, Dominic segurou a mão dele com tanta força que os dedos ficaram brancos.
Naquela noite, seu pai entrou no quarto.
— Se você ama alguém, precisa saber onde essa pessoa está.
Dominic acreditou.
Durante anos.
Talvez até hoje.
Por isso controlava Aurora.
Perguntava onde ela estava.
Com quem estava.
Por que demorava.
Por que sorria para determinado homem.
Ele confundia controle com cuidado.
Possessividade com amor.
Medo com autoridade.
E naquela noite...
estava prestes a descobrir que aquilo poderia destruir tudo.
Aurora passou por ele.
Dominic segurou seu braço.
— Podemos conversar?
Ela olhou para a mão dele.
— Solta.
Ele soltou.
— Eu só quero conversar.
— Então converse.
— Você está diferente.
— Talvez eu só tenha parado de fingir.
Dominic ficou em silêncio.
— Você gosta dele?
Aurora olhou para Noah.
Depois para Dominic.
— Isso importa?
— Para mim, sim.
— Esse é o problema.
Ela foi embora.
Dominic ficou sozinho.
E sentiu algo que odiava.
Medo.
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A PORTA
Valentina e Alice encontraram o corredor do segundo andar.
Era pouco iluminado.
A música da festa chegava abafada.
Valentina segurava o celular como lanterna.
— Aqui.
Alice apontou para uma porta.
Havia uma pequena placa de metal.
Nada escrito.
Apenas:
M-04.
Valentina tocou na maçaneta.
Trancada.
— Claro.
Alice tirou uma pequena ferramenta da bolsa.
Valentina olhou.
— Você anda com isso?
— Sou fotógrafa.
— Isso não explica.
— Nunca se sabe.
A fechadura cedeu.
A porta abriu.
O ambiente estava completamente escuro.
O cheiro era de papel velho.
E poeira.
Havia caixas.
Pastas.
Fotografias.
Valentina acendeu a luz.
Uma lâmpada piscou.
Depois permaneceu acesa.
Alice começou a fotografar.
Valentina abriu uma das caixas.
Dentro havia documentos.
M-01.
Outra.
M-02.
Outra.
M-03.
Ela encontrou a quarta.
M-04.
Seu coração acelerou.
— Alice.
— O quê?
— Achei.
Ela abriu.
Mas a pasta estava vazia.
Valentina ficou parada.
— Não.
— Talvez tenham retirado os documentos.
— Não.
Ela virou a pasta.
No fundo havia uma fotografia.
Valentina puxou.
Cinco crianças.
As mesmas do vídeo.
Mas havia uma diferença.
Na fotografia, uma das crianças estava circulada com caneta vermelha.
Yasmin.
Ao lado dela havia uma anotação:
"Memória preservada parcialmente."
Valentina arregalou os olhos.
— Meu Deus.
Alice pegou a fotografia.
— O que isso significa?
Valentina não respondeu.
Então encontrou outra anotação.
"M-04 apresenta resistência."
Alice ficou séria.
— Resistência a quê?
Valentina virou a fotografia.
No verso havia uma data.
17 DE OUTUBRO.
E uma frase:
"A próxima sessão será definitiva."
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O SOM
Um barulho veio do corredor.
Passos.
Alice apagou a luz.
Valentina segurou a respiração.
Os passos se aproximaram.
Pararam diante da porta.
Silêncio.
Valentina olhou para Alice.
A maçaneta começou a girar.
Devagar.
A porta abriu.
Mas ninguém entrou.
As duas esperaram.
Então ouviram uma voz.
— Eu sei que vocês estão aí.
Valentina reconheceu.
A mesma voz do telefonema.
Alice fez um gesto para ela não responder.
A porta fechou.
Os passos se afastaram.
Valentina respirou.
— Quem era?
Alice respondeu:
— Não sei.
— Eu sei.
— Quem?
Valentina olhou para a fotografia.
— Alguém que quer que a gente encontre M-04.
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O CORTE DE ENERGIA
De repente...
tudo apagou.
A música parou.
As luzes da mansão desapareceram.
Gritos ecoaram pelo salão.
Taças quebraram.
Pessoas começaram a correr.
Yasmin procurou Liam.
— Liam?
Nada.
Ela tentou ligar.
Sem sinal.
— Liam!
Um relâmpago iluminou o corredor.
Por um segundo, Yasmin viu alguém parado no final dele.
Uma silhueta.
Alto.
Imóvel.
Ela piscou.
A pessoa havia desaparecido.
Então ouviu uma voz atrás dela.
— Yasmin.
Ela virou.
Liam.
— Você está bem?
Ela segurou o braço dele.
— Onde você estava?
— Procurando você.
— Eu vi alguém.
— Quem?
— Não sei.
Liam olhou para o corredor.
Seu rosto ficou sério.
— Precisamos sair daqui.
— Por quê?
Antes que ele pudesse responder...
um grito veio do andar de cima.
---
A NOITE VERMELHA
Todos correram.
Liam subiu as escadas.
Yasmin atrás dele.
Dominic veio logo depois.
Aurora.
Noah.
Alice.
Valentina.
Gabriel saiu do palco.
Ethan apareceu no corredor.
Quando chegaram ao segundo andar...
o silêncio era absoluto.
Uma porta estava aberta.
A sala M-04.
No chão havia uma fotografia.
E sangue.
Yasmin levou a mão à boca.
— Meu Deus.
Liam a puxou para trás.
— Não olha.
Mas ela já tinha visto.
No centro da fotografia havia uma das cinco crianças.
O rosto estava riscado.
Valentina se aproximou.
— Não toque.
Ela parou.
— Isso é sangue?
Alice respondeu:
— Parece.
Dominic olhou para Liam.
— O que está acontecendo?
Liam não respondeu.
Então uma pessoa apareceu no final do corredor.
Correndo.
Era Gabriel.
— Liam!
— O quê?
Gabriel estava pálido.
— Tem alguém lá embaixo.
— Quem?
— Eu não sei.
— O que aconteceu?
Gabriel respirou fundo.
— Eu vi uma pessoa entrando pela porta dos fundos.
Liam olhou para Ethan.
— Fique com elas.
Ethan assentiu.
— E você?
— Vou descobrir quem entrou.
Yasmin segurou o braço dele.
— Não vai sozinho.
Liam olhou para ela.
— Yasmin...
— Não.
Ela apertou a mão dele.
— Você sempre manda todo mundo ficar para trás.
— Porque eu sei o que existe lá fora.
— E eu também tenho o direito de escolher.
Liam ficou olhando para ela.
Finalmente assentiu.
— Fique perto de mim.
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O CORREDOR
Eles desceram.
A mansão estava em caos.
Algumas pessoas tinham ido embora.
Outras estavam tentando encontrar amigos.
Os seguranças procuravam o responsável pelo corte de energia.
Liam encontrou a porta dos fundos aberta.
No chão havia pegadas.
Molhadas.
Yasmin olhou.
— Ele veio da chuva.
— Sim.
— E saiu por aqui?
Liam se agachou.
Observou as marcas.
— Não.
— Como sabe?
Ele apontou.
As pegadas terminavam no corredor.
Não havia outras seguindo para fora.
Yasmin ficou séria.
— Então ele ainda está aqui.
Liam levantou.
— Exatamente.
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A SALA DE MÚSICA
Um som veio do lado esquerdo.
Uma nota de piano.
Depois outra.
Yasmin segurou o braço de Liam.
— Tem alguém ali.
Eles entraram.
O piano estava vazio.
Mas uma tecla continuava pressionada.
Liam se aproximou.
Havia um pequeno gravador sobre o instrumento.
Ele apertou o botão.
Uma gravação começou.
Uma criança chorando.
Yasmin congelou.
A voz infantil dizia:
— Eu quero ir embora.
Outra voz respondeu:
— Você não pode.
Yasmin começou a respirar rapidamente.
— Eu conheço essa voz.
Liam olhou para ela.
— De quem?
Ela levou a mão à cabeça.
— Eu...
A gravação continuou.
A criança chorava.
Então uma voz feminina dizia:
— Liam, não deixe ela sozinha.
Yasmin abriu os olhos.
— Sua mãe.
Liam ficou imóvel.
A gravação terminou.
O gravador desligou sozinho.
Então o telefone de Liam vibrou.
Uma mensagem.
"Você está lembrando."
Outra chegou.
"Mas ainda não se lembra de quem era a menina."
Liam apertou o celular.
Yasmin percebeu.
— O que foi?
Ele mostrou.
Ela leu.
Depois olhou para ele.
— Eu estava lá.
Liam não respondeu.
— Eu estava naquela sala.
— Talvez.
— Não.
Ela tocou o próprio peito.
— Eu sinto isso.
Liam segurou o rosto dela delicadamente.
— Então vamos descobrir juntos.
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O DESAPARECIMENTO
Um novo grito ecoou pela mansão.
Todos voltaram para o salão.
Uma das convidadas havia desaparecido.
Seu celular estava sobre a mesa.
Seu casaco ainda estava na cadeira.
Mas ela não estava em lugar nenhum.
Os seguranças começaram a procurar.
Dominic perguntou:
— Quem era ela?
Ninguém sabia.
Alice pegou o celular.
— Ela estava aqui há poucos minutos.
Valentina olhou para a tela.
Havia uma mensagem aberta.
"Eu encontrei M-04."
Valentina ficou pálida.
— Não.
Alice olhou para ela.
— O quê?
Valentina mostrou.
— Ela descobriu.
Liam apareceu atrás delas.
— O que ela descobriu?
Valentina entregou o celular.
Liam leu.
Seu rosto ficou sombrio.
— M-04.
Yasmin perguntou:
— O que isso significa?
Liam olhou para ela.
— Não sei.
Mas era mentira.
Pela primeira vez, Yasmin percebeu.
Ele sabia alguma coisa.
— Liam.
Ele permaneceu em silêncio.
— Você sabe.
— Não aqui.
— Você prometeu.
— E vou cumprir.
— Então me diga.
Liam olhou ao redor.
Centenas de olhos estavam naquela sala.
E alguém estava observando os dois.
— Não agora.
Yasmin ficou decepcionada.
— Então quando?
Liam respondeu baixo:
— Quando estivermos vivos o suficiente para ouvir a resposta.
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A ÚLTIMA IMAGEM
Pouco depois da meia-noite, a polícia chegou.
A festa acabou.
As pessoas foram interrogadas.
A mansão foi isolada.
Mas ninguém encontrou a mulher desaparecida.
Nem o responsável pelo corte de energia.
Nem quem havia deixado o gravador.
Valentina estava do lado de fora.
Alice ao seu lado.
— Você vai contar à polícia sobre o arquivo?
Valentina olhou para a mansão.
— Ainda não.
— Por quê?
— Porque não sei em quem confiar.
Alice ficou em silêncio.
Valentina tirou a fotografia do bolso.
Aquela com as cinco crianças.
— Minha mãe estava envolvida.
— Sim.
— E eu acho que ela tentou proteger essas crianças.
Alice perguntou:
— Você acha que ela conseguiu?
Valentina olhou para a fotografia.
— Não.
— Como sabe?
Valentina apontou para a criança marcada.
Yasmin.
— Porque alguém escreveu que ela resistiu.
Alice ficou séria.
— Resistiu ao quê?
Valentina respondeu:
— Ainda não sei.
Do outro lado do estacionamento, um carro preto estava parado.
O mesmo carro.
A mesma pessoa.
Observando.
Dentro do veículo, uma mão segurava uma fotografia.
Era uma fotografia antiga.
Liam e Yasmin crianças.
De mãos dadas.
Atrás deles estava a casa azul.
Uma terceira criança aparecia parcialmente na imagem.
Seu rosto estava cortado.
A pessoa virou a fotografia.
No verso estava escrito:
"Eles estão começando a lembrar."
Uma segunda frase estava abaixo.
"Preparem a próxima etapa."
O carro arrancou.
Naquela noite, ninguém percebeu que, dentro da mansão Blackwood, uma câmera escondida continuava gravando.
A lente estava apontada para Liam.
E, ao lado dele...
Yasmin.
A imagem ficou alguns segundos em silêncio.
Então uma voz masculina surgiu no áudio.
— M-04 está próxima da memória completa.
Pausa.
— E Liam está começando a lembrar também.
Outra voz perguntou:
— Devemos interferir?
A primeira respondeu:
— Ainda não.
— Por quê?
Silêncio.
Então:
— Porque quero descobrir o que ele fará quando lembrar quem realmente era naquela noite.
A gravação terminou.
E a tela ficou preta.