Três horas a chorar pelas janelinhas e nem uma pela dor. Conheço uma miúda que faria igual, e depois pedia o dobro!
C 20 : Dente de Leite, Dinheiro e Economia
Pensamento
Três horas a chorar pelas janelinhas e nem uma pela dor. Conheço uma miúda que faria igual, e depois pedia o dobro!
Conteúdo da publicação
Uma manhã como tantas outras: caos na casa. Muitas coisas jogadas pelo chão — bolsas, sapatos, meias, cobertores, brinquedos. Uma casa típica de família com duas crianças, de seis e quatro anos, que brincam e correm livremente.
Bela é uma menina loira de olhos azuis, inteligente, meiga e decidida. Está na fase de trocar os dentes de leite pelos permanentes. Já estava há três meses com um dente mole, balançando para lá e para cá, mas que não caía. Observei, à noite, que o dente estava começando a ficar escuro em suas bordas.
— Amanhã vamos amarrar um fio dental e vamos puxar o dente, porque ele já está mole há muito tempo. Acho que agora precisamos puxar com a cordinha — eu disse.
Bela, meio assustada, respondeu que não queria, que o dente iria cair sozinho, e começou a chorar. Fomos dormir.
Pela manhã, logo após o café, falei:
— Vá pegar o fio dental, vamos amarrar o dente.
Ela começou a chorar, e eu a acalmei:
— Não vai doer, ele já está caindo. Está bem mole, vou amarrar e você puxa.
Ela assentiu e foi pegar o fio dental. Deitou no sofá, abriu a boca e eu amarrei o fio. Ela tentou puxar, mas, com medo, não fez força. Pedi para ver se eu poderia puxar. Ela assentiu. Peguei o fio dental, dei um único puxão e o dente caiu de sua boca.
Ela chorou, chorou e chorou muito, por três horas seguidas. Não porque doeu, mas porque achou que iria ficar feia. Na sala de aula, só haveria ela com quatro "janelinhas"; só ela não teria dente na frente. Disse que não queria ir para a escola. Chorou e chorou, mas não por dor.
Perto da hora de ir para a aula, Bela lembrou que poderia vender o dente e quis vendê-lo por cem dólares. Expliquei que aqui a moeda é o real e só temos reais, então ela quis cem reais. Falei para ela ir ao pai e pedir o dinheiro. O pai barganhou e trocou os cem reais por vinte, valor que também foi dado à irmã de quatro anos.
Falei que elas poderiam poupar e guardar o dinheiro.
— O que é poupar? — perguntou Bela.
— É quando a gente guarda dinheiro para comprar algo mais caro e valioso.
A resposta da Bela foi rápida:
— Não quero poupar. Se eu precisar de mais dinheiro, eu vendo outro dente para o papai.
No dia seguinte, elas quiseram gastar o dinheiro comprando brinquedos. Nós as levamos à loja. Diana quis uma flauta de dezenove reais e gastou o seu dinheiro. Bela quis comprar um teclado de oitenta e nove reais.
Eu não quis comprar o teclado, na tentativa de ensinar economia e administração financeira para ela. Ela chorou na loja e ficou brava com o pai, porque ele não havia querido comprar o dente por cem reais e, agora, ela não tinha dinheiro suficiente.
Eu, animada em ensinar economia, disse que iria fazer uma tabela de tarefas e pagaria a ela todas as vezes que fizesse uma atividade preestabelecida.
Ela reclamou e disse:
— Eu não quero trabalhar, trabalhar é chato. Quero gastar dinheiro sem trabalhar.
— Mas todo mundo trabalha para ter dinheiro, assim é a vida.
— Mas a vida é chata assim. Eu quero ter dinheiro sem esforço, não quero fazer tarefas.
Fomos a outra loja e encontramos um teclado igual ao que ela queria por vinte e quatro reais. Como o dinheiro dela não daria, o pai completou e pagou a diferença.
Fomos para casa com as duas tocando a flauta e o teclado dentro do carro. Elas estavam felizes.
Thoughts
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PermalinkNa segunda leitura reparei que a Bela não brigou com você na loja, brigou com o pai, que foi quem pagou vinte. Criança guarda direitinho quem fez a conta. Minha filha, com treze, ainda cobra do pai uma promessa de 2019, e ele já desistiu de negar.
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PermalinkA flauta de dezenove reais ficou na minha cabeça: a irmã de quatro anos gastou tudo de uma vez e saiu feliz, sem lição nenhuma no meio. Dá pra ver que a Diana já resolveu a economia dela.
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PermalinkA Bela tem razão, viu 😅
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PermalinkTrês horas a chorar pelas janelinhas e nem uma pela dor. Conheço uma miúda que faria igual, e depois pedia o dobro!
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PermalinkVinte reais por um dente e a miúda ainda ficou a dever num teclado. O pai fez um bom negócio, se calhar bom demais.
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PermalinkA Bela querendo vender o dente por cem dólares, e só aceitando real depois da explicação, me fez pensar que ela já sabia que o preço era negociável antes de saber qual moeda usar. Aposto que a tabela de tarefas dura menos que o teclado. Gostei muito de ler! Isso vai render muita crônica boa ainda :)
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PermalinkBom dia. Ri sozinho quando a Bela disse que, se precisar de mais dinheiro, vende outro dente pro pai. Isso é raciocínio de gente grande, ela achou uma fonte de renda e não viu motivo nenhum pra guardar. Minha neta, de sete anos, faz uma conta parecida quando quer alguma coisa: pede pro avô, que paga melhor que a mãe.
Dá pra saber se a tabela de tarefas chegou a sair do papel?
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