série crônicas
Uma típica manhã de sábado. Depois de dias sem ver o sol, ele resolveu dar as caras. As meninas dormiram bem, sem crises de asma e sem perder o sono — isso é raro aqui em casa, pois ou acordam à uma da madrugada e ficam acordadas até as seis, ou despertam com falta de ar e tosse.
A mais velha tinha um trabalho para fazer, uma maquete de uma casa. Não tínhamos material para confeccioná-la e lá fomos nós às compras.
Logo que chegamos à primeira loja de variedades, a mais nova solta: — Pai, me dá um carro rosa?
O pai olha para ela e diz: — Dou sim, deve ter um carro aqui, mas acho que na cor rosa vai ser difícil. Você ajuda o pai a procurar?
Ela dá um pulo de alegria e bate as palmas: — Bebé, eu vou ganhar um carro! — fala para a irmã mais velha.
Comprei a argila para confeccionar a casa. Eu fazendo cálculos de como estruturá-la com o material. — Já achei a argila, acho que dá para fazer a casa com isso! — falo para o marido. — Vamos, temos que fazer o almoço.
— Vamos passar em outra loja de variedades, não achei o carro rosa que ela quer.
Consinto com a cabeça. E lá vamos nós para outra loja de coisas importadas da China.
Ele procura em todas as prateleiras de brinquedos por um carro com algum detalhe rosa. Não encontra.
Lá vamos nós para a terceira loja. Procuramos e nada de encontrar o tal carro rosa que ela insistia em querer, afinal, ela tem quatro anos.
O pai pega um carro na prateleira, olha para ela e diz: — Já fomos em três lojas e não encontrei o carro que você pediu. O que acha de ficar com este aqui na cor preta? — mostrando um carrinho de brinquedo que estava na prateleira.
Ela começa a chorar e diz que não, que quer o carro, e insiste: — Você prometeu que iria me dar o carro!
— O pai prometeu — afirma ele, tentando argumentar —, mas pode ser de outra cor.
Ela olha para ele com lágrimas escorrendo e diz que sim com a cabeça.
Ele pega o carro preto e o estende para ela pegar. Ela olha para o objeto por alguns segundos e olha para o pai sem entender. — Não quero esse — diz ela.
— Mas você disse que podia ser de outra cor — afirma ele.
Ela, firmemente, fala: — Eu quero um carro que dê para eu andar dentro. Não quero esse daí, eu quero um igual àquele do shopping.
Olho para o marido, ele olha para mim. — Ela quer um carro elétrico — falo com surpresa —, daqueles que a gente aluga e a criança anda sozinha?
— Mas eu entendi que era de brinquedo! Não achei que fosse esse carro elétrico — disse o pai.
Ela começa a chorar muito, dizendo: — Você prometeu!
O pai começa a falar, tentando convencer a menina: — Mas eu achei que era um carro de brinquedo de dez reais e não um carro que custa mais de mil. Vai ser difícil achar esse carro. O pai promete que vai procurar em outro lugar, pode ser?, agora vamos para casa e procuro na internet ?
— Você promete? — pergunta a minha filha para o pai — Por que eu não esqueço!
Por fim, não compramos o carro elétrico naquele dia; ele ficou para a lista de presentes de Natal. E realmente ela não esqueceu: já se passaram quatro meses e ela está com um cofrinho em forma de porco colocando toda a moedinha que encontra para a compra do seu carro rosa, e todo dia ela lembra o pai da promessa.