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C 016 - ''por que eu não esqueço''

BELADIA
Pensamento

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Ovid

Um pai negociando cor de carro em três lojas quando o pedido era outro carro inteiro, hahaha. Aposto que ele ainda vai contar essa história no aniversário de quinze anos dela, e ela vai corrigir a versão. Me fez pensar em como as promessas feitas distraíd

Um pai negociando cor de carro em três lojas quando o pedido era outro carro inteiro, hahaha. Aposto que ele ainda vai contar essa história no aniversário de quinze anos dela, e ela vai corrigir a versão. Me fez pensar em como as promessas feitas distraído são as que mais cobram. Obrigado por trazer mais uma!

Conteúdo da publicação

série crônicas

Uma típica manhã de sábado. Depois de dias sem ver o sol, ele resolveu dar as caras. As meninas dormiram bem, sem crises de asma e sem perder o sono — isso é raro aqui em casa, pois ou acordam à uma da madrugada e ficam acordadas até as seis, ou despertam com falta de ar e tosse.

A mais velha tinha um trabalho para fazer, uma maquete de uma casa. Não tínhamos material para confeccioná-la e lá fomos nós às compras.

Logo que chegamos à primeira loja de variedades, a mais nova solta: — Pai, me dá um carro rosa?

O pai olha para ela e diz: — Dou sim, deve ter um carro aqui, mas acho que na cor rosa vai ser difícil. Você ajuda o pai a procurar?

Ela dá um pulo de alegria e bate as palmas: — Bebé, eu vou ganhar um carro! — fala para a irmã mais velha.

Comprei a argila para confeccionar a casa. Eu fazendo cálculos de como estruturá-la com o material. — Já achei a argila, acho que dá para fazer a casa com isso! — falo para o marido. — Vamos, temos que fazer o almoço.

— Vamos passar em outra loja de variedades, não achei o carro rosa que ela quer.

Consinto com a cabeça. E lá vamos nós para outra loja de coisas importadas da China.

Ele procura em todas as prateleiras de brinquedos por um carro com algum detalhe rosa. Não encontra.

Lá vamos nós para a terceira loja. Procuramos e nada de encontrar o tal carro rosa que ela insistia em querer, afinal, ela tem quatro anos.

O pai pega um carro na prateleira, olha para ela e diz: — Já fomos em três lojas e não encontrei o carro que você pediu. O que acha de ficar com este aqui na cor preta? — mostrando um carrinho de brinquedo que estava na prateleira.

Ela começa a chorar e diz que não, que quer o carro, e insiste: — Você prometeu que iria me dar o carro!

— O pai prometeu — afirma ele, tentando argumentar —, mas pode ser de outra cor.

Ela olha para ele com lágrimas escorrendo e diz que sim com a cabeça.

Ele pega o carro preto e o estende para ela pegar. Ela olha para o objeto por alguns segundos e olha para o pai sem entender. — Não quero esse — diz ela.

— Mas você disse que podia ser de outra cor — afirma ele.

Ela, firmemente, fala: — Eu quero um carro que dê para eu andar dentro. Não quero esse daí, eu quero um igual àquele do shopping.

Olho para o marido, ele olha para mim. — Ela quer um carro elétrico — falo com surpresa —, daqueles que a gente aluga e a criança anda sozinha?

— Mas eu entendi que era de brinquedo! Não achei que fosse esse carro elétrico — disse o pai.

Ela começa a chorar muito, dizendo: — Você prometeu!

O pai começa a falar, tentando convencer a menina: — Mas eu achei que era um carro de brinquedo de dez reais e não um carro que custa mais de mil. Vai ser difícil achar esse carro. O pai promete que vai procurar em outro lugar, pode ser?, agora vamos para casa e procuro na internet ?

— Você promete? — pergunta a minha filha para o pai — Por que eu não esqueço!

Por fim, não compramos o carro elétrico naquele dia; ele ficou para a lista de presentes de Natal. E realmente ela não esqueceu: já se passaram quatro meses e ela está com um cofrinho em forma de porco colocando toda a moedinha que encontra para a compra do seu carro rosa, e todo dia ela lembra o pai da promessa.

Thoughts

  • fsantos1307

    A mais velha outra vez, como na crónica anterior, a ver o sábado girar à volta da caçula, e ela só queria a maquete. Faz-me lembrar a minha prima mais nova, que também nunca deixou cair uma promessa.

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  • conto84

    Na primeira leitura fiquei do lado do pai, coitado, três lojas num sábado. Relendo, reparei na mais velha: a maquete de argila some da história assim que a irmã chora. A casa ficou pronta a tempo do trabalho?

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  • cadernoPreto

    Uma menina de quatro anos avisando que não esquece é o aviso mais sério que já li num texto. O pai riu por dentro na hora, aposto, e quatro meses depois ainda ouve a cobrança no café da manhã.

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  • brunocosta

    Três lojas para descobrir que ela nunca quis o carro de brinquedo. O meu pai também prometia à pressa e depois andava meses a ouvir aquilo.

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  • Ovid

    Um pai negociando cor de carro em três lojas quando o pedido era outro carro inteiro, hahaha. Aposto que ele ainda vai contar essa história no aniversário de quinze anos dela, e ela vai corrigir a versão. Me fez pensar em como as promessas feitas distraído são as que mais cobram. Obrigado por trazer mais uma!

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  • anogueira52

    Um pai que promete sem saber o que prometeu, e uma menina de quatro anos que guardou a palavra melhor do que ele. O cofrinho de porco recebendo moedinha há quatro meses foi a parte que me fez parar: ela está pagando a parte dela, moeda por moeda. Pergunto à senhora: o pai já começou a olhar o preço desse carro rosa?

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