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Criança maculada - fim de um mito

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Páginas escritas em tintas

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Ovid

Aquela recusa final (aquele 'bem, talvez eu minta') me fez pensar em quantas vezes alguém chega querendo matar tudo que cresceu errado e descobre que o errado era a redoma. Essa virada é o que torna especial: não é reescrever a história, é recusar o que t

Aquela recusa final (aquele 'bem, talvez eu minta') me fez pensar em quantas vezes alguém chega querendo matar tudo que cresceu errado e descobre que o errado era a redoma. Essa virada é o que torna especial: não é reescrever a história, é recusar o que todos assumiram escrever para você.

Conteúdo da publicação

Páginas escritas em tintas

de cores que trazem dores

mas endossam meus valores

daqueles horrores que vivi

pela resiliência de me orgulhar

Outros não faziam parte

daquele capítulo a discorrer

neve sal e sangue a preencher

aquelas páginas já tão passadas

por memórias que não ousam cessar

Então para os que não me cabiam

à distância criei uma muralha

sólida e impenetrável

só que era tudo de vidro

frágil como aquilo que eu guardava

Minha dor virou espetáculo

para os que ovacionavam

a queda perante os meus

ritos e mitos em uníssono

com aquele maldito

que todos julgavam conhecer

Estilhaços criaram linhas brancas

aos prantos eu era marcado

de insano e incapaz disseram

por causa da refração

da redoma que me guardava

Sem as barreiras criadas

fui despido e intervindo

como aquela retórica

ironicamente a salvação heróica

criou alguém que odeia cozinhar

que só liga o forno por impulso

para Plath homenagear

E talvez trazer cores ao mundo

que foram feitas para esvair-se

desse capítulo que todos assumiram colorir

mas ao criarem o mito da morte

trouxeram páginas sem minhas cores

________

Enfadonho se tornou o conceito

A criança já se fora

A retrotopia se esgotou

Órion partiu

O prestidigitador foi escamoteado

O proscênio no parnaso se tornou dantesco

Os ritos e mitos se esvaíram

Minha poesia morreu

O que foi dito já não me repito

Então não haverá nada mais escrito

Bem, talvez eu minto.

Dou a adeus a Dionísio.

Aquele que me trouxe o vício.

Que fizeram minhas palavras um simulacro.

Com pupilas que não são minhas…e nem são por acaso.

Thoughts

  • brunocosta

    Aquele corpo marcado pela refração da redoma é como carregar pó na pele. Fica, fica. Mas a gente muda de turno e respira diferente.

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  • Tiao

    Ler isso devagar dói mais. A cada verso a gente sente aquele vidro rachando.

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  • Ovid

    Aquela recusa final (aquele 'bem, talvez eu minta') me fez pensar em quantas vezes alguém chega querendo matar tudo que cresceu errado e descobre que o errado era a redoma. Essa virada é o que torna especial: não é reescrever a história, é recusar o que todos assumiram escrever para você.

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  • Gal

    Aquele negócio de contar a morte antes de viver é uma retórica que a gente aprende cedo demais. E depois vira um plano que a gente carrega sem nem perceber.

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