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Coisa E Tal

LairaLatsch
Pública 4 conversas 10 pensamentos 70 votos positivos 0 voto negativo 0 série

A vida é uma coisa e tal. E de que vale essa coisa, se ela nos acorrenta, nos amedronta, nos adoece, nos apodrece e, no fim, nos mata?

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Pensamento

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Ovid

A parte em que a memória não segura o último livro lido, e logo depois a saudade de Lady Lazarus que ainda assim é relida toda noite, é onde o poema fica mais exato. A perda e a volta ao mesmo texto no mesmo gesto. Aposto que essa dobra saiu de uma vez, s

A parte em que a memória não segura o último livro lido, e logo depois a saudade de Lady Lazarus que ainda assim é relida toda noite, é onde o poema fica mais exato. A perda e a volta ao mesmo texto no mesmo gesto. Aposto que essa dobra saiu de uma vez, sem plano antes. Obrigado por trazer isto pra cá.

Conteúdo da publicação

A vida é uma coisa e tal.
E de que vale essa coisa,
se ela nos acorrenta,
nos amedronta, nos adoece,
nos apodrece
e, no fim, nos mata?

A paz é tão abstrata e ilusória quanto a própria vida.
Talvez só os monges budistas merecessem o direito de viver —
eles que, ainda acorrentados,
gastam seus dias sob as montanhas,
meditando,
ano após ano,
até encontrar algum sentido.
E que sentido encontram?
A espera da morte?

Pergunto a Deus quem me deu
esse direito penumbroso de viver —
sequer o pedi,
sequer o desejei.
E por que permanecer neste lugar,
se tudo o que tenho são dores,
lágrimas
e cortes espalhados pelo corpo?

Nesta encarnação, pergunto o que fui na anterior
para merecer tal sofrimento.
O que fiz de tão ruim
para viver acorrentada —
não apenas nas correntes,
mas no pior cerco de espinhos venenosos
que eu poderia encontrar?

Quem fui na vida passada
para, nesta, não merecer um único dia de paz?

Os meus dias passam como flashes,
lampejos dentro da mente,
onde nem uma tarde com amigos
consigo realmente aproveitar.

A vida é uma coisa e tal.
E essa coisa é como um bebê num útero que eu nunca desejei,
sangrando pétalas por entre minhas pernas.
Queria que ela se esvaísse, que fosse embora.
Desejo já ter vivido metade da minha vida.
Desejo que, quando eu for embora,
ao menos não sofra —
pois já sofri o suficiente
nesta coisa chamada vida.

Mas essa coisa me aprisiona
numa jaula mental
onde sequer consigo enxergar
o próximo passo.
Apenas repito tudo o que sou,
tudo o que faço —
um vai e vem infinito,
como um corvo repetindo
a única frase que aprendeu.

E o que aprendi desta vida?
Dormir, acordar,
tomar um copo de leite ou de café,
trabalhar, me exaurir,
e dormir novamente.

A vida é uma coisa e tal,
e dessa coisa eu queria me livrar
o quanto antes.

Mas olho para minha estante e me pergunto:
Quantos livros deixarei de ler?
Quantas músicas deixarei de ouvir?
Quantos filmes deixarei de assistir?
E quantas pessoas deixarei de ser —
aquelas que, ao menos,
não despertam todo dia dentro desse sofrimento,
aquelas mergulhadas em ignorância tão profunda
que não percebem
o quão trágica a vida é.

Sylvia, uma vez, se perguntou
quantas pessoas gostaria de ser
e jamais seria;
quantos livros gostaria de ler
e jamais leria.
E quanto tempo eu teria de passar
dentro dessa coisa
para me sentir completa —
se minha mente, essa mente estúpida e doente,
não consegue lembrar
as palavras do último livro que leu?

Mas fica a saudade.
Saudade de Esther,
saudade da Redoma de Vidro.
Saudade de Lady Lazarus,
de quem não lembro sequer uma frase
e preciso reler
todas as noites
antes de dormir.

Saudade dos meus próprios escritos,
dos quais nem sei o que está no papel.
Pois esta mente — a minha mente doente —
mal consegue se manter de pé.

Que coisa é a vida —
tão desgraçada, tão desgraçável, tão triste —
que sequer pode nos dar
um segundo de paz?

Thoughts

  • poeta93

    Ó, essa doeu.

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  • linhaTorta

    Reparei que ela pergunta várias vezes o que foi na vida passada e nunca pergunta o que fazer com esta. O texto inteiro fica virado pra trás, pra cobrança, e só na hora dos livros, das músicas e dos filmes que faltam é que ele olha pra frente. Foi ali que mudou de peso aqui pra mim.

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  • fsantos1307

    Li isto à noite e fiquei com a pergunta das pessoas que ficam por ser. Ainda estou a pensar nas minhas.

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  • anogueira52

    A lista do fim, dormir, acordar, o copo de leite ou de café, trabalhar, exaurir e dormir de novo, é o pedaço que mais pesa aqui, justamente por não ter enfeite nenhum. O resto do texto grita e essa parte só enumera, como quem soma. Eu fiquei pensando que a repetição faz mais estrago do que as correntes e os espinhos que vêm antes.

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  • Ovid

    A parte em que a memória não segura o último livro lido, e logo depois a saudade de Lady Lazarus que ainda assim é relida toda noite, é onde o poema fica mais exato. A perda e a volta ao mesmo texto no mesmo gesto. Aposto que essa dobra saiu de uma vez, sem plano antes. Obrigado por trazer isto pra cá.

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  • Rui_Salgueiro

    A estante e a conta dos que já não vais chegar a ler ficou-me atravessada. Escreveste isto de uma vez ou foste juntando aos bocados?

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