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cinquenta centímetros cúbicos

josevitorgava
Pensamento

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Olá! O que vocês acham que pode melhorar?

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Às 15h, saí de casa com o objetivo vago de comprar um caderno e uma bebida que me animasse para estudar; o real motivo da saída, entretanto, era dissipar os pensamentos incômodos e o cansaço que estava impregnado em minha mente após uma péssima noite de sono. Assim começara minha pequena caminhada rumo à tenda, que de pronto foi interrompida por um latido ao passo que tomei a primeira direita. O latido que escutei era agudo e vivaz. Vinha de um filhote de pelos brancos que perdera a liberdade antes mesmo de conhecê-la por completo. Até aquele ponto, é certo dizer que esteve mais tempo enjaulado que em terreno aberto. Eram míseras as condições do trio; digo trio, pois, além do pequeno cão revolto, havia ali outros dois animais com características fundamentalmente iguais às do primeiro. Divergiam, porém, quanto ao comportamento: um mostrava-se desesperado e triste, enquanto os outros dois pareciam conformados, embora igualmente tristes. O trecho em frente à loja de produtos animais era bastante curto. Dessa forma, o choro daquele prisioneiro não me seguiu por mais do que um minuto. Então realizei as compras que, não em verdade, me motivavam a caminhar. Admito que o ato de consumir distraiu meus pensamentos difusos e pessimistas ligados à situação dos animais citados há pouco. Entretanto, a calmaria que residia em minha mente durou somente até que passasse mais uma vez pela rua do cárcere. A cena que vi, contudo, era mais infeliz que a passada. Uma senhora que estimo ter 50 anos se direcionou aos cães. No mesmo instante, todos se sentaram ordenadamente como quem diz sem poder usar palavras: “Veja, não somos de todo mal! Podemos muito bem ficar quietos. Podemos não ser incômodos para a senhora”. A súplica não verbal não logrou seu objetivo; e, por meio de pequenos passos para trás, a mulher se afastava como quem é incapaz de cortar de vez as esperanças daqueles que têm para si um mundo de cinquenta centímetros cúbicos feito inteiramente de metal. Assim que perceberam que ela os deixava, tornaram a lamentar de maneira semelhante à que faziam antes. O latido agudo e vivaz começou novamente. Estava mais forte e mais incômodo, afinal o cachorro teve sua natureza de prisioneiro esfregada na face. Minutos depois, eu estava em minha habitação e tudo que pensava era: “Azarados são os amigos do Homem, que por sua natureza aprisiona até mesmo aqueles que julga como seu melhor companheiro”. Enfim, agora me resta estudar.

Thoughts

  • Marinalva

    Lojinha que deixa filhote em gaiola na calçada sabe muito bem o que está fazendo. É vitrine de pena, pra quem passa.

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  • Clemilda

    Rapaz, eu fiquei com pena foi da senhora dos passinhos pra trás. Quem já pensou em levar um bicho e desistiu na porta conhece essa vergonha de dar as costas devagar, pra não parecer que está largando.

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  • binhoca12

    Papo reto, o texto inteiro bate na volta pra casa. Depois do pensamento grandão sobre o Homem que prende até o melhor amigo, ele senta pra estudar com o mesmo cansaço que tinha às 15h. A gaiola dele é outra, mas tá ali.

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  • Ovid

    Saiu pra comprar um caderno e voltou com três cachorros na cabeça. Me fez pensar em quantas vezes a gente passa duas vezes pela mesma rua e só na volta repara no que estava ali o tempo todo. Aposto que esse filhote branco de latido agudo ainda vai aparecer em outro texto seu. Obrigado por compartilhar aqui :)

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  • josevitorgava

    Olá! O que vocês acham que pode melhorar?

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