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CAPÍTULO XII — A PRIMEIRA DERROTA Sensível

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Arrepiei.

Arrepiei.

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“A primeira derrota não foi contra os inimigos. Foi contra a ilusão de que a força seria suficiente.”

Dois anos depois da queda de Bagdá, o mundo ainda cheirava a morte.

Ninjha e os cinco caminhavam com o resto da força deixada por Hulagu. A ordem tinha sido clara: avançar para o oeste. Aleppo caiu. Damasco caiu. O Egito era o próximo alvo — o último grande bastião muçulmano.

Khorchi ainda tentava fazer piadas, mas elas saíam mais fracas. Temur limpava o machado com mais força do que o necessário. Subotai já não falava tanto em glória. Jelme observava o horizonte com os olhos apertados. Orkhan, o mais velho, cuspia no chão sempre que alguém mencionava o nome de Bagdá.

Ninjha seguia calado. Quando falava, eram apenas três ou quatro palavras:

“Continuem andando.”

“Eles vão atacar em breve.”

Em setembro de 1260, a notícia chegou como um golpe de machado. Möngke Khan, o Grande Khan, estava morto na China.

Pela lei mongol, todos os príncipes de sangue deviam retornar à Mongólia para a eleição do novo líder. Hulagu levou a maior parte do exército e partiu. Deixou apenas dez a vinte mil homens sob o comando do general Kitbuqa na Palestina.

O grupo de Ninjha ficou. Os Mamelucos viram a oportunidade. Avançaram com um exército muito maior. A Batalha de Ain Jalut começou num vale estreito.

Os Mamelucos usaram a própria tática mongol contra eles: falsa retirada. Atraíram os mongóis para o fundo do vale. Quando os cavalos mongóis estavam cansados e a formação quebrada, os mamelucos fecharam o cerco pelos flancos.

Foi um massacre.

Ninjha lutou até o fim. Sua espada cortava com a mesma precisão fria de sempre. Ele viu Temur cair com três lanças nas costas. Viu Subotai ser arrastado do cavalo. Viu Khorchi tentar atirar uma última flecha antes de ter o pescoço aberto.

Quando Kitbuqa foi capturado e executado, o resto da força mongol foi cercado. Ninjha, Orkhan, Jelme e o que restava dos outros foram desarmados e amarrados.

Os dias seguintes foram em uma prisão insalubre.

Eles foram jogados numa masmorra úmida nos arredores de um vilarejo perto do campo de batalha. O chão era de terra molhada. As paredes suavam. O cheiro de fezes, sangue seco e corpos em decomposição enchia o ar. Ratos corriam entre as pernas dos prisioneiros. A comida era um pedaço de pão mofado por dia. Água, quando vinha, tinha gosto de ferrugem.

Os que sobraram dos seis estavam juntos numa cela apertada. Orkhan, com o rosto inchado e um corte profundo na testa, murmurou:

“Acabou. O mito acabou aqui.”

Jelme, encostado na parede, apenas fechou os olhos. Ninjha sentou-se no canto, as costas contra a pedra fria. Seus pulsos sangravam onde as cordas apertavam. Ele não reclamava. Não falava. Apenas olhava para o chão.

Subotai, ainda vivo mas com febre alta, tossiu e perguntou com voz fraca:

“Ei, Imortal… você vai morrer aqui também?”

Ninjha demorou a responder. Quando falou, sua voz saiu baixa, quase sem emoção:

“Ainda não.”

Os dias se arrastaram. Os guardas mamelucos passavam de vez em quando, chutando as grades e cuspindo insultos. “Os cães mongóis vão uivar antes de morrer”, diziam.

Na quinta noite, um oficial entrou na cela com uma tocha. Seu rosto estava sério.

“Amanhã ao amanhecer. Todos vocês. Execução pública. O Califa decaído vai ter sua vingança.”

Orkhan riu sem humor. Jelme abaixou a cabeça. Subotai fechou os olhos, tremendo de febre.

Ninjha continuou olhando para o chão. Dentro dele, algo antigo e frio se mexeu. Não era medo. Não era raiva. Era a mesma vontade que o fizera beber a poção tantos anos atrás.

A vontade de sobreviver.

Enquanto os outros prisioneiros tentavam dormir ou rezar, Ninjha permaneceu acordado, respirando devagar, memorizando cada detalhe da cela, cada som dos guardas, cada fraqueza nas correntes.

O sol ainda não tinha nascido quando os guardas voltaram para levá-los. Ninjha levantou-se primeiro.

Seus olhos opacos encontraram os dos companheiros restantes. Ele disse apenas quatro palavras, baixas e firmes:

“Fiquem prontos para correr.”


Thoughts

  • onboarding09

    Arrepiei.

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  • meiaTarde

    A água com gosto de ferrugem e o pão mofado uma vez por dia, foi aí que a cela me apertou. O Ninjha calado no canto, com os pulsos em sangue, assenta bem nessa parte.

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  • lteixeira71

    Möngke morreu em 1259 e Ain Jalut foi em setembro de 1260, então a notícia chegando quase junto com a batalha aperta o calendário mais do que ele foi de fato. Não estraga a cena, mas quem gosta do período vai parar aí.

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  • fioAtras

    Eram seis e sobraram três dentro daquela cela, e o Jelme só fecha os olhos e não diz uma palavra o capítulo inteiro. Dá pra ver que ele se despediu antes mesmo do oficial entrar com a tocha.

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  • sofadasala

    Orkhan cuspindo no chão toda vez que alguém fala de Bagdá diz mais que briga nenhuma. Homem desse tipo não desabafa, ele cospe.

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  • paginadobrada

    Subotai vivo com febre e ainda com fôlego pra provocar o Imortal, isso eu não esperava. Aposto que ele não sai vivo da execução.

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  • Ovid

    A lei que obriga todos os príncipes a voltarem para a eleição, e o exército indo embora junto com eles antes da batalha. Isso me fez pensar em quanta coisa grande caiu por causa de um calendário e não de uma espada. Aposto que é essa parte que vai doer mais no Ninjha depois, mais do que a cela.

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  • tresPaginas

    Fui dormir depois desta e sonhei com a masmorra. O Ninjha a decorar os sons dos guardas em vez de rezar, isso ficou-me cá. O próximo sai quando?

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“A primeira derrota não foi contra os inimigos. Foi contra a ilusão de que a força seria suficiente.”

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