Desde o capítulo VII que espero pelo Mahadev. Passei das três páginas por causa do recipiente, queria ver o que tinha lá dentro 🙃
Capítulo VIII — A Traição
Pensamento
Desde o capítulo VII que espero pelo Mahadev. Passei das três páginas por causa do recipiente, queria ver o que tinha lá dentro 🙃
Conteúdo da publicação
A estação das monções havia chegado.
Durante dias, uma chuva pesada caiu sobre Varanasi, transformando as ruas em rios de lama. O Ganges havia subido, e a Casa da Compaixão permanecia aberta dia e noite.
Amara mal dormia.
Havia doentes chegando de regiões distantes, crianças separadas das famílias e famílias inteiras que haviam perdido suas casas.
Ainda assim, ela permanecia de pé.
— Descanse um pouco — pediu Arjun certa noite.
— Depois.
— Você disse isso ontem.
Amara sorriu.
— Então amanhã talvez eu cumpra.
Arjun não sorriu de volta.
Havia algo diferente em seu olhar.
Nos últimos dias, um jovem chamado Dev havia chegado à Casa da Compaixão.
Dizia ser um peregrino.
Contava que havia perdido os pais durante uma epidemia e que desejava servir aos outros.
Amara o acolhera sem fazer perguntas.
— Aqui ninguém precisa provar que merece ajuda — dissera ela.
Dev começou trabalhando na cozinha.
Depois passou a cuidar dos estoques.
Era inteligente, educado e prestativo.
Em poucas semanas, todos confiavam nele.
Todos, menos Arjun.
— Há alguma coisa nele que não me agrada — disse certa noite.
Amara olhou para o amigo.
— Por quê?
— Não sei.
— Então talvez seja injusto julgá-lo.
Arjun suspirou.
— Talvez.
Mas não conseguiu afastar a desconfiança.
Naquela mesma noite, enquanto todos dormiam, Dev deixou a Casa da Compaixão.
Caminhou pelas ruas estreitas até uma casa abandonada.
Bateu três vezes.
A porta abriu.
Mahadev estava esperando.
— E então?
Dev entrou.
— Ela confia em mim.
— Ótimo.
— Não gosto disso.
Mahadev sorriu.
— Você recebeu uma tarefa. Não sentimentos.
Dev abaixou a cabeça.
— O que quer que eu faça?
Mahadev colocou sobre a mesa um pequeno recipiente.
— Amanhã haverá uma cerimônia pública.
— E?
— Quero que o povo encontre isso entre os pertences dela.
Dev olhou para o recipiente.
— O que é?
— Não importa.
— E se descobrirem que foi plantado?
— Não descobrirão.
Dev permaneceu em silêncio.
Mahadev aproximou-se.
— Você quer continuar vivendo como um mendigo?
O jovem fechou os olhos.
— Não.
— Então faça o que precisa ser feito.
Na manhã seguinte, a Casa da Compaixão estava cheia.
Centenas de pessoas haviam chegado para participar da distribuição de alimentos.
Amara permanecia no centro da multidão.
Não havia luxo.
Não havia tronos.
Ela usava seu velho sari vermelho e carregava o mesmo rosário que recebera do Mestre.
De repente, gritos surgiram do lado de fora.
— Abram caminho!
Mahadev entrou acompanhado de vários homens.
O ambiente ficou silencioso.
— O que deseja? — perguntou Amara.
— A verdade.
— Então diga.
Mahadev ergueu a voz para que todos ouvissem.
— Esta mulher não é uma serva da compaixão.
É uma impostora.
Murmúrios espalharam-se pela multidão.
Amara permaneceu imóvel.
— E quais são suas provas?
Mahadev fez um gesto.
Dois homens revistaram os aposentos.
Poucos minutos depois, voltaram.
Um deles carregava o pequeno recipiente.
Mahadev o ergueu.
— Encontramos isto entre os pertences de Amara.
As pessoas começaram a cochichar.
— O que é? — perguntou Meera.
Mahadev respondeu:
— Um objeto usado em práticas proibidas.
Amara olhou para o recipiente.
Não o reconhecia.
— Isso não é meu.
— Claro que não — respondeu Mahadev.
— Foi colocado lá.
O sacerdote sorriu.
— Quem acreditará em você?
Algumas pessoas começaram a se afastar.
Outras olhavam para Amara com dúvida.
Foi então que Dev apareceu.
Mahadev olhou diretamente para ele.
— Você trabalha aqui?
Dev hesitou.
— Sim.
— Então diga a todos se já viu Amara usando objetos semelhantes.
O jovem ficou imóvel.
Amara olhou para ele.
Seus olhos se encontraram.
Naquele instante, Dev sentiu vergonha.
A jovem não estava com raiva.
Não havia ódio em seu olhar.
Havia apenas uma pergunta silenciosa:
Por quê?
Dev baixou a cabeça.
— Eu...
Mahadev o interrompeu.
— Responda!
O jovem respirou profundamente.
— Não.
— O quê?
— Nunca vi Amara fazer isso.
O sorriso de Mahadev desapareceu.
— Pense bem antes de continuar.
Dev levantou o rosto.
— Ela nunca pediu dinheiro de ninguém.
Nunca expulsou ninguém.
Nunca obrigou ninguém a segui-la.
E nunca usou aquilo.
A multidão começou a murmurar.
Mahadev ficou furioso.
— Você está mentindo!
Dev respondeu:
— Fui eu quem colocou o recipiente nos aposentos dela.
O silêncio foi absoluto.
Amara ficou imóvel.
Mahadev empalideceu.
Dev continuou:
— Fui enviado por você.
Algumas pessoas começaram a gritar.
Mahadev tentou sair, mas a multidão fechou a passagem.
Amara levantou a mão.
— Deixem-no passar.
Todos olharam para ela.
— Mas ele traiu você! — gritou Arjun.
Amara respondeu:
— Eu sei.
— Então por que deixá-lo ir?
— Porque a vingança não irá devolver a verdade.
Dev começou a chorar.
— Por que você não me odeia?
Amara aproximou-se.
— Porque você já está sofrendo com aquilo que fez.
O jovem caiu de joelhos.
— Perdoe-me.
Amara ficou alguns segundos em silêncio.
— Eu perdoo você.
Mas não confunda perdão com esquecimento.
Dev levantou os olhos.
— O que devo fazer?
— Conte a verdade.
E foi exatamente isso que ele fez.
Diante de toda a cidade, revelou a tentativa de Mahadev de destruir a reputação de Amara.
O sacerdote foi expulso pelas autoridades locais e perdeu a influência que exercia sobre a comunidade.
Mas Amara não comemorou.
Naquela noite, sentou-se sozinha às margens do Ganges.
Arjun aproximou-se.
— Você está triste.
— Estou cansada.
— Você venceu.
Amara olhou para o rio.
— Não.
Ninguém venceu.
Uma pessoa foi manipulada.
Outra tentou destruir alguém.
E centenas quase acreditaram em uma mentira.
Ela permaneceu em silêncio por algum tempo.
Então perguntou:
— Arjun, você ainda desconfia de Dev?
— Sim.
Amara sorriu.
— Então talvez seja você quem precisa aprender a perdoar.
Arjun baixou a cabeça.
— Talvez.
Uma brisa atravessou o rio.
A chama azul brilhou no peito de Amara.
Mas, dessa vez, algo diferente aconteceu.
A luz não permaneceu apenas nela.
Por um instante, pequenas chamas azuis apareceram nos corações das pessoas reunidas na Casa da Compaixão.
Uma após outra.
Como estrelas surgindo na noite.
Amara ficou imóvel.
Não havia explicação.
Não havia espetáculo.
Apenas centenas de pequenas luzes.
E então compreendeu:
A chama nunca havia sido apenas dela.
Ela havia sido uma lembrança.
Uma lembrança de que a esperança pode passar de uma pessoa para outra.
Enquanto observava aquelas luzes, uma voz pareceu surgir dentro de seu coração.
Não uma voz que ordenava.
Não uma voz que exigia.
Apenas uma certeza:
"Agora estás pronta para voltar ao lugar onde tudo começou."
Amara fechou os olhos.
O grande templo.
As portas fechadas.
As flores lançadas ao chão.
A rejeição.
A dor.
Tudo voltou à sua memória.
Ela sabia o que precisava fazer.
Depois de tantos anos, retornaria ao templo de Kali.
Mas desta vez não iria pedir para entrar.
Iria levar consigo aqueles que um dia haviam sido deixados do lado de fora.
E, quando as portas se abrissem novamente diante dela, Amara descobriria que o maior desafio de sua vida ainda estava esperando por ela.
Thoughts
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PermalinkMahadev ainda não acabou.
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PermalinkUai, a Amara acolhendo o Dev sem pergunta nenhuma me lembrou gente que eu já recebi assim, chegando de madrugada sem dizer de onde vinha. Quase sempre deu certo. O Dev confessar na frente de todo mundo foi coisa que cê já tinha decidido antes de escrever o capítulo, sô?
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PermalinkEssa volta ao templo de Kali levando quem ficou do lado de fora vai dar mais trabalho que o Mahadev deu. Com um sacerdote a multidão resolveu, com uma porta fechada cheia de gente olhando vai ser bem mais difícil.
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PermalinkFicou-me a Amara sozinha à beira do Ganges, a responder que está cansada quando o Arjun lhe diz que venceu. Senti mais nessa troca curta do que na cena da multidão. Quem passou dias sem dormir a segurar uma casa cheia de doentes não quer vitória nenhuma, quer silêncio, e ela pede isso sem o dizer.
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PermalinkPô, o Dev planta a prova de noite e de manhã já confessa na frente da cidade inteira. Achei rápida demais essa virada, cara. Quem topa uma coisa dessas pra não voltar a ser mendigo não amolece com um olhar só.
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PermalinkDesde o capítulo VII que espero pelo Mahadev. Passei das três páginas por causa do recipiente, queria ver o que tinha lá dentro 🙃
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PermalinkA frase do mendigo foi o que convenceu o Dev. O Mahadev achou onde doía, a fome, e apertou ali. Ele nunca quis fazer aquilo, só não enxergava outra saída pra não voltar pra rua.
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PermalinkAs pequenas chamas azuis aparecendo no peito das pessoas da Casa da Compaixão mudam a história inteira. Até aqui a chama era só da Amara, e agora ela deixa de ser a única. Isso me fez pensar que o templo de Kali vai receber muita gente com a mesma luz, e não uma mulher sozinha que um dia foi mandada embora. Obrigado por seguir postando!
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PermalinkO Arjun desconfiou do Dev desde que ele chegou na cozinha, e no fim ainda é ele que leva o sermão de que precisa aprender a perdoar. Eu fiquei do lado dele o capítulo inteiro, uai. Ele acertou sobre o Dev e sai de cabeça baixa, e a Amara nem reconhece que ele tinha razão.
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