Cara, o velho deixando o nome na beira do rio eu li duas vezes e ainda não sei se captei. Essa coisa do rudraksha e do bastão de neem vem de uma religião que você conhece de perto?
Capítulo IV — O Mestre Sem Nome
Pensamento
Cara, o velho deixando o nome na beira do rio eu li duas vezes e ainda não sei se captei. Essa coisa do rudraksha e do bastão de neem vem de uma religião que você conhece de perto?
Conteúdo da publicação
O primeiro raio de sol rompeu a névoa que cobria as montanhas.
Amara permaneceu alguns instantes imóvel, levando a mão ao peito. A pequena chama azul que surgira durante a visão ainda brilhava sob sua pele, pulsando suavemente como um coração.
Ela desceu o penhasco sem saber para onde ir.
A única certeza que possuía era a voz que ainda ecoava em sua memória:
"Ao nascer do sol encontrarás aquele que te ensinará o primeiro segredo do verdadeiro sacerdócio."
Durante horas caminhou por uma antiga trilha cercada por árvores de banyan e figueiras centenárias.
O silêncio da floresta era profundo.
Até que sentiu o perfume de sândalo.
Seguiu o aroma.
Entre as árvores encontrou um pequeno eremitério de pedra, tão simples que parecia fazer parte da própria montanha.
Sentado diante de uma pequena fogueira estava um velho asceta.
Seu corpo era magro.
Os cabelos e a longa barba eram completamente brancos.
Vestia apenas um tecido gasto e carregava um rosário de sementes de rudraksha entre os dedos.
Seus olhos, porém, tinham o brilho de alguém que parecia contemplar o universo inteiro.
Antes mesmo que Amara falasse, o velho sorriu.
— Finalmente chegaste.
A jovem estremeceu.
— O senhor... estava me esperando?
— Há muitos anos.
Amara arregalou os olhos.
— Mas nós nunca nos vimos.
O ancião levantou-se lentamente.
Aproximou-se dela e pousou delicadamente a mão sobre seu peito.
A chama azul brilhou intensamente através do tecido.
O velho fechou os olhos e curvou a cabeça em reverência.
— A Grande Mãe marcou teu coração.
Não és apenas uma peregrina.
És aquela que caminhará onde muitos têm medo de entrar.
As lágrimas voltaram aos olhos de Amara.
— Então... a visão era real?
O asceta sorriu.
— O que é real?
Aquilo que os olhos enxergam?
Ou aquilo que transforma uma vida para sempre?
Amara permaneceu em silêncio.
O velho fez sinal para que ela o acompanhasse.
Atrás da pequena cabana havia um jardim.
Não era um jardim comum.
Flores cresciam ao lado de ervas medicinais.
Borboletas pousavam sem medo.
Pássaros bebiam água de uma fonte cristalina.
Ali também descansavam cães abandonados, uma vaca ferida e até um macaco com uma das patas machucadas.
Todos conviviam em perfeita harmonia.
— Este é meu templo — disse o velho.
— Não há paredes de mármore.
Não há ouro.
Mas toda criatura que sofre encontra abrigo aqui.
Amara compreendeu imediatamente.
A visão começava a fazer sentido.
Durante dias permaneceu ao lado do asceta.
Aprendeu a preparar remédios com plantas.
A cuidar dos doentes.
A alimentar quem tinha fome antes de alimentar a si mesma.
Aprendeu que uma oração dita com sinceridade podia confortar um coração aflito.
Aprendeu também o silêncio.
"Quem escuta verdadeiramente", dizia o velho, "ouve até as lágrimas que nunca caíram."
As semanas transformaram-se em meses.
Certa manhã, o asceta levou Amara até uma clareira.
No centro havia uma enorme figueira.
Suas raízes mergulhavam profundamente na terra, enquanto os galhos pareciam tocar o céu.
— Hoje aprenderás o primeiro segredo da verdadeira sacerdotisa.
Sentaram-se sob a árvore.
O velho colocou diante dela uma tigela cheia de água.
A superfície refletia seu rosto.
— O que vês?
— Vejo a mim mesma.
O velho tocou levemente a água.
A imagem se desfez.
— Agora?
— Nada.
— Exatamente.
Quando a água se agita, deixa de refletir a verdade.
Assim também é a mente.
Enquanto fores dominada pelo medo, pela raiva ou pelo orgulho, jamais enxergarás claramente.
Mas quando teu coração encontrar serenidade, verás o divino presente em cada ser vivo.
Naquele instante, Amara sentiu que a pequena chama azul em seu peito tornou-se mais intensa.
Era como se uma porta invisível estivesse se abrindo dentro dela.
Naquela noite, antes de dormir, perguntou ao velho:
— Mestre... qual é o seu nome?
Ele sorriu com ternura.
— Há muitos anos deixei meu nome às margens do rio.
Os nomes pertencem ao mundo.
A missão pertence à alma.
Por isso, basta que me chames de Mestre.
Na manhã seguinte, antes do nascer do sol, o Mestre entregou-lhe um pequeno bastão de madeira de neem e um rosário feito de sementes escuras.
— Chegou a hora de partir.
Amara ficou surpresa.
— Mas ainda tenho tanto a aprender.
— E aprenderás.
Mas não comigo.
O mundo será teu maior mestre.
Cada aldeia.
Cada criança.
Cada idoso.
Cada pessoa esquecida.
Todos eles ensinarão aquilo que nenhum livro é capaz de escrever.
O velho ergueu os olhos para o céu.
Pela primeira vez, sua expressão tornou-se séria.
— Contudo, lembra-te de uma coisa, minha filha...
Quando a luz começa a crescer, a sombra também desperta.
Há homens que temem qualquer mudança.
Há quem use a religião para conquistar poder.
E há forças que se alimentam do medo dos inocentes.
Em breve, teu caminho cruzará o deles.
E será então que descobrirás se és digna da chama que recebeste.
Amara ajoelhou-se diante do Mestre e tocou seus pés em sinal de respeito.
Quando levantou a cabeça, ele já caminhava lentamente entre as árvores.
Pouco a pouco, sua figura desapareceu na névoa da manhã, como se jamais tivesse pertencido àquele mundo.
Com o bastão nas mãos, o rosário preso ao pulso e a chama azul brilhando em seu peito, Amara deu o primeiro passo de sua peregrinação.
Sem perceber, iniciava uma jornada que faria seu nome atravessar reinos, montanhas e gerações, tornando-se uma lenda entre aqueles que buscavam esperança.
Thoughts
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PermalinkA voz prometeu o mestre ao nascer do sol, mas ela ainda anda horas pela trilha depois do primeiro raio. Ou o sol sobe devagar naquelas montanhas, ou o velho contava com o atraso.
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PermalinkDesconfio de velho que sorri antes da moça abrir a boca. Mas esse aí me ganhou no jardim, vaca ferida e cachorro sem dono deitados junto das borboletas.
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PermalinkMe prendi no que o velho dá pra ela na despedida: um bastão de madeira e um rosário. Cabem na mão, nada de livro nem de mapa. Ela sai com menos do que chegou, e me pareceu o jeito certo de mandar alguém pro mundo.
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PermalinkReparei que ela pergunta se ele estava esperando e ele responde com a mão no peito dela, sem dizer quem avisou. Essa parte ficou de fora. Tenho pra mim que volta mais na frente, visse.
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PermalinkO velho a dizer que a esperava há muitos anos foi onde parei. Ela chega sem saber para onde ir e há alguém que já sabia o dia. Aposto que na primeira aldeia ela vai querer ser essa pessoa para alguém, e sai-lhe mal.
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PermalinkGostei muito do jardim atrás da cabana, com o macaco de pata machucada bebendo do lado dos pássaros. Ali eu quis ficar mais tempo.
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PermalinkCada pessoa esquecida. 🙏
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PermalinkCara, o velho deixando o nome na beira do rio eu li duas vezes e ainda não sei se captei. Essa coisa do rudraksha e do bastão de neem vem de uma religião que você conhece de perto?
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PermalinkA tigela de água que o Mestre agita me deixou pensando. Ela vai passar a peregrinação inteira tentando manter a própria água parada enquanto o mundo joga pedra nela. Meu palpite é que o primeiro encontro com os homens que usam a religião pra ter poder é justo onde ela perde a serenidade. Me avisa quando sair o próximo sobre a Amara na primeira aldeia?
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