Dizem que um homem pode mudar de nome quando perde a alma.
Miguel desapareceu pouco a pouco pelas ruas da Lapa.
Em seu lugar nasceu Pessanha.
Ninguém sabia ao certo quem lhe dera aquele apelido. Alguns diziam que fora um antigo capoeira. Outros juravam que nascera depois da primeira grande briga em que enfrentou três homens sozinho por causa de um comentário dirigido a Mimi.
O certo é que o nome se espalhou.
E, com ele, o medo.
Pessanha passou a dominar as madrugadas. Caminhava de chapéu de feltro inclinado sobre os olhos, terno branco impecável e um lenço vermelho no bolso do paletó. Sua presença fazia as conversas diminuírem de volume.
Os donos dos cabarés o respeitavam.
Os malandros evitavam provocá-lo.
E todos sabiam que jamais se deveria pronunciar o nome de Mimi com desdém diante dele.
Quando a noite terminava, era sempre no quarto de Mimi que ele encontrava algum sossego.
Ali, entre o perfume persistente das rosas, o brilho vacilante das velas e o vinho servido em silêncio, Pessanha deixava cair a máscara do homem temido. Conversavam até que o céu começasse a clarear, e depois caminhavam pela orla quase deserta do Rio de Janeiro.
Mimi tirava os sapatos e deixava que a espuma do mar tocasse seus pés.
— Escute... — dizia ela. — O mar nunca pergunta quem fomos ontem.
Pessanha sorria, mas dentro dele crescia uma tempestade.
Queria levá-la para longe.
Comprar uma casa.
Fugir da cidade.
Apagar o passado.
Quanto mais sonhava com essa vida, mais percebia que tentava moldar o destino de uma mulher cuja maior riqueza era justamente a liberdade.
Mimi começou a sentir medo.
Não dele.
Do amor que ardia em seus olhos.
Foi então que procurou Madame Satã.
Encontrou-o nos fundos de um pequeno cabaré, afinando um violão.
— Ele está mudando... — disse ela.
Madame Satã ergueu os olhos.
— Não. Ele apenas está mostrando quem sempre foi.
— Ele fala em casamento, em fugir, em construir outra vida...
— E você?
Mimi demorou a responder.
— Eu o amo à minha maneira. Mas não consigo viver atrás de portas fechadas. Passei a vida inteira sendo propriedade de alguém. Não quero trocar uma prisão por outra, mesmo que seja feita de carinho.
Madame Satã permaneceu em silêncio por alguns instantes.
— Então conte a verdade antes que seja tarde.
Dias depois, por insistência de uma antiga amiga, Mimi foi até um discreto terreiro escondido entre os casarões antigos da Saúde.
A fumaça das ervas subia lentamente. Velas vermelhas e negras iluminavam o pequeno salão. O cheiro de rosas misturava-se ao de pemba e defumador.
A médium incorporou uma Pombagira.
Quando abriu os olhos, parecia enxergar muito além das paredes daquele lugar.
Fitou Mimi por longos segundos.
— Você carrega perfume de rosas...
A entidade sorriu de maneira triste.
— ...e o destino de quem ama demais.
Mimi estremeceu.
— O homem chamado Pessanha cruzou seu caminho porque assim estava escrito.
Ela tentou perguntar alguma coisa, mas a Pombagira levantou a mão.
— Não fuja da verdade do seu coração. Porém saiba: o amor dele, se não encontrar limites, se transformará em sombra.
A vela mais próxima estalou.
— Vejo sangue sobre pedras antigas...
Vejo rosas espalhadas pelo chão...
Vejo uma mulher que continuará livre mesmo quando todos acreditarem que ela pertence a alguém.
Mimi sentiu um frio percorrer a espinha.
— Posso mudar esse destino?
A entidade fechou os olhos por um instante.
— Destinos podem ser desviados pelas escolhas. Mas ninguém escapa das consequências de um amor que esquece de ouvir a pessoa amada.
Quando deixou o terreiro, a madrugada ainda envolvia a cidade.
Ao longe, os primeiros acordes de um samba ecoavam pela Lapa.
Na esquina, encostado a um poste, Pessanha a esperava com um buquê de rosas vermelhas.
Ao vê-lo sorrir, Mimi compreendeu que a profecia já havia começado a caminhar ao lado deles.