Gostei de ele recusar o dinheiro do carro e depois aceitar o saco de comida sem discutir. Conheço homens assim, dizem pouco e ficam.
Capítulo 7 — O Barraco de Madeira
Pensamento
Gostei de ele recusar o dinheiro do carro e depois aceitar o saco de comida sem discutir. Conheço homens assim, dizem pouco e ficam.
Conteúdo da publicação
Antes de Frederic conhecer Margareth, antes de se aproximar de Charlotte e antes de fazer parte daquela família, existia apenas um homem tentando sobreviver sozinho.
Frederic morava em um pequeno barraco de madeira construído próximo a uma ponte velha.
O lugar ficava longe do centro da cidade.
Para chegar até lá, era preciso seguir por uma estrada de terra estreita, cercada por árvores e mato alto. Quando chovia, o caminho ficava praticamente intransitável.
O barraco ficava depois da ponte.
Era pequeno, antigo e simples.
As paredes eram feitas de tábuas de madeira de diferentes tamanhos. Algumas estavam rachadas pelo tempo. O telhado tinha algumas goteiras e, durante as noites frias, o vento entrava pelas frestas das paredes.
Dentro havia uma cama de solteiro, uma mesa pequena, um fogão velho, uma pia improvisada e um armário onde Frederic guardava poucas roupas.
Não havia televisão.
Não havia luxo.
Não havia visitas.
Havia apenas silêncio.
E Frederic gostava daquele silêncio.
Ou pelo menos dizia a si mesmo que gostava.
A família que ficou para trás
Frederic não tinha nascido naquele lugar.
Sua família vivia em outra cidade.
Sua mãe, Helena, ainda morava na antiga casa da família junto com sua irmã mais nova, Elisa.
Seu pai, Augusto, havia desaparecido muitos anos antes.
Frederic nunca gostava de falar sobre ele.
Augusto era um homem difícil, ausente e explosivo. Trabalhava viajando e passava muito tempo longe de casa. Depois de uma grande discussão com Helena, simplesmente foi embora.
Nunca voltou.
Frederic tinha apenas dezessete anos.
A partir daquele dia, passou a ajudar a mãe como podia.
Começou a trabalhar cedo.
Primeiro em uma oficina.
Depois em uma construção.
Mais tarde, passou a fazer pequenos serviços: consertava portas, móveis, telhados, cercas e qualquer coisa que pudesse ser consertada com as próprias mãos.
Ele aprendeu a trabalhar com madeira justamente porque precisava.
Não estudou muito.
Não teve oportunidade de escolher uma profissão.
Aprendeu a sobreviver.
O homem que não pedia ajuda
Com o passar dos anos, Frederic se afastou cada vez mais da família.
Não porque não amasse sua mãe.
Pelo contrário.
Ele a amava.
Mas não queria que ela o visse fracassar.
Quando conseguia algum dinheiro, mandava uma parte para Helena.
Quando a irmã precisava de alguma coisa, ele tentava ajudar.
Mas quando era ele quem precisava de alguma coisa...
Frederic permanecia calado.
Era assim que havia aprendido a viver.
Não pedir.
Não reclamar.
Não demonstrar fraqueza.
E, principalmente, não contar para ninguém quando estava sofrendo.
O barraco
O barraco onde Frederic morava havia pertencido a um antigo trabalhador da região.
Quando o homem morreu, a pequena propriedade ficou abandonada.
Frederic conseguiu autorização para ficar ali em troca de cuidar do terreno e realizar alguns serviços para o proprietário.
Foi assim que acabou naquele lugar.
No começo, pretendia ficar apenas alguns meses.
Mas os meses viraram anos.
E o barraco acabou se tornando sua casa.
De manhã, Frederic acordava cedo.
Acendia o fogão.
Preparava café.
Depois pegava suas ferramentas e saía para trabalhar.
Às vezes passava o dia inteiro fazendo serviços para outras pessoas.
À noite, voltava cansado.
Colocava as ferramentas em um canto, lavava o rosto e sentava na pequena varanda.
Dali conseguia ouvir a água passando embaixo da ponte.
Era quase sempre a mesma coisa.
Água.
Vento.
Grilos.
E silêncio.
Até Margareth aparecer
Margareth entrou naquela história por acaso.
Naquele período, ela ainda não conhecia Frederic direito.
Certo dia, precisou ir até uma propriedade naquela região.
O carro em que estava acabou apresentando um problema justamente perto da ponte.
Margareth desceu.
Olhou para o motor.
Não entendia absolutamente nada.
Foi quando ouviu:
— Se continuar tentando ligar desse jeito, vai acabar piorando.
Ela se virou.
Frederic estava parado alguns metros atrás.
As mãos estavam sujas de graxa.
— Você entende de carro? — perguntou Margareth.
— Um pouco.
Ele se aproximou.
Abriu o capô.
Mexeu em algumas peças e pediu que ela tentasse ligar novamente.
O motor funcionou.
Margareth ficou surpresa.
— Quanto eu te devo?
Frederic balançou a cabeça.
— Nada.
— Tem certeza?
— Tenho.
Ele fechou o capô.
E começou a caminhar de volta para o barraco.
Margareth ficou olhando.
— Ei!
Ele parou.
— Obrigada.
Frederic apenas levantou a mão, como quem dizia que não era nada.
Mas aquele pequeno encontro não terminaria ali.
A segunda visita
Alguns dias depois, Margareth voltou àquela região.
Dessa vez, foi até o barraco.
Frederic estava sentado na varanda, consertando uma cadeira.
Quando percebeu Margareth, levantou os olhos.
— O carro quebrou de novo?
Ela sorriu.
— Não.
— Então aconteceu alguma coisa?
— Eu só vim devolver isso.
Margareth colocou sobre a mesa um pequeno saco com comida.
Frederic olhou.
— Não precisava.
— Eu sei.
Ela sentou-se.
Foi a primeira conversa de verdade entre os dois.
Margareth descobriu que Frederic tinha uma mãe, uma irmã e uma vida inteira escondida atrás daquele jeito reservado.
Frederic descobriu que Margareth estava grávida.
E descobriu também que ela estava passando por um período difícil.
Ele não fez perguntas demais.
Apenas ouviu.
Talvez tenha sido justamente isso que fez Margareth confiar nele.
Frederic não julgava.
Não pressionava.
Não exigia explicações.
Ele simplesmente escutava.
Charlotte
Certa tarde, Margareth contou:
— É uma menina.
Frederic ficou em silêncio.
— Você já escolheu o nome?
Margareth sorriu.
— Charlotte.
Ele repetiu o nome baixinho.
— Charlotte...
Foi a primeira vez que aquele nome foi pronunciado por ele.
Frederic ainda não sabia, mas aquela menina mudaria completamente sua vida.
Nos meses seguintes, ele começou a ajudar Margareth.
Às vezes levava comida.
Às vezes consertava alguma coisa.
Às vezes aparecia apenas para saber se ela estava bem.
Nunca prometeu ser herói.
Nunca disse que poderia resolver tudo.
Mas estava presente.
E, para Margareth, isso significava muito.
O homem que saiu do barraco
Frederic continuou morando no barraco por algum tempo.
A ponte continuava ali.
A estrada continuava difícil.
A madeira continuava rangendo durante as noites de vento.
Mas alguma coisa havia mudado.
Antes, quando Frederic voltava para casa, encontrava apenas quatro paredes vazias.
Agora, pensava em Margareth.
E na menina que ainda nem conhecia.
Charlotte.
Pela primeira vez em muitos anos, Frederic tinha alguém esperando por ele.
Ainda que não soubesse disso.
E talvez tenha sido naquele pequeno barraco de madeira, longe de todos, que começou uma das relações mais importantes da história de Charlotte.
Porque algumas famílias começam pelo sangue.
Outras começam por um encontro.
E algumas...
começam quando duas pessoas solitárias encontram uma na outra um motivo para não permanecerem sozinhas.
Thoughts
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PermalinkGostei de ele recusar o dinheiro do carro e depois aceitar o saco de comida sem discutir. Conheço homens assim, dizem pouco e ficam.
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PermalinkEspreitei o último parágrafo antes de tudo e fiquei a achar que a Margareth ia ser a solitária da história. Afinal o Frederic está mais sozinho que ela, com a ponte e os grilos.
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