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Pertencimento - Parte 3

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Kan e Gris procuravam uma maneira de vencer Theo e Ceres.

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Kan e Gris procuravam uma maneira de vencer Theo e Ceres.

Separá-los seria pior.

Quanto mais descobriam, mais percebiam que havia algo estranho naquela dupla. Havia poderes que eles não conheciam, acontecimentos dos quais não tinham todas as informações, mas conseguiam perceber que aquilo era grande.

Se era grande, então para que se preocupar?

Eles deveriam se preocupar com o óbvio.

No futuro, todos seriam devorados pela Mãe.

Todos teriam uma função.

Todos teriam um destino.

Mas Theo e Ceres pareciam estar acima disso.

Kan e Gris saíram da sala fechada da biblioteca e entraram no corredor.

Alunos entravam e saíam.

Todos caminhavam para algum lugar.

Todos seriam devorados ali.

Todos tinham destinos selados por algum propósito.

Mas havia alguma coisa no ar.

A Mãe estava mudando.

Era perceptível.

Os dois haviam sido convidados por ela.

Cada um recebera um recado dentro de um envelope cinza-escuro.

Era impossível não perceber quem havia recebido aqueles envelopes.

Gris não entendia aquilo como um castigo.

Era algo maior.

Algo que mexeria com as estruturas da Cidade de Ceres.

Theo, como Kan havia observado, parecia não estar nem aí.

Era como se quisesse perder tudo.

E nem sequer parecia ser liberdade.

Era outra coisa.

Como se Theo já soubesse onde iria estar.

Aquela arrogância firme não se abalava, por pior que fosse a situação.

Ceres era diferente.

Parecia uma rainha.

Às vezes, parecia acreditar que era a própria Mãe apenas por carregar aquele nome.

Era estranho.

Ceres era a cidade.

Mãe Ceres era a Mãe.

E Ceres era uma garota.

Um nome incomum para uma cidadã.

Gris pensava nisso enquanto caminhava.

Kan também.

Os dois seguiram para o refeitório.

Alguns alunos se afastavam quando os dois passavam.

Peixes pequenos.

Peixes que não conseguiam comer pedaços grandes.

Por isso fugiam.

Eram lentos.

Mas aquilo também podia ser um defeito.

Comer demais engorda.

Acomoda.

Os peixes pequenos poderiam comer os pedaços grandes.

Ficar mais fortes.

E competir.

O chumbo havia contaminado todos os alunos.

Todos entendiam aquele ambiente.

Assim como Mãe Ceres entendia o mundo ao seu redor.

Primeiro, Omni Opus havia caído diante de um ridículo milagre.

A ignorância deles procurava significado em deuses vazios.

Procuravam uma Mãe.

Agora canonizada como Nossa Senhora da Fome.

A fome havia devorado a fé deles.

Um aluno se escondeu apenas porque Gris e Kan olharam em sua direção.

Os peixes pequenos.

Tenham cuidado.


No refeitório, era possível brigar.

Era possível arrancar sangue.

Mas não era possível jogar comida no chão.

Aquilo era blasfêmia.

E significava detenção.

O refeitório era um setor vulnerável.

Todos precisavam comer.

E quando alguém está com fome, qualquer coisa pode irritá-lo.

A batalha começava no estômago.

Kan e Gris entraram.

Passaram entre as mesas.

Não procuravam apenas Theo e Ceres.

Estavam estudando o ambiente.

Quem se afastava.

Quem observava.

Quem provocava.

Quem obedecia.

Quem parecia não se importar.

Gris olhou diretamente para Ceres.

As duas se conheciam.

Sentiram que alguma coisa estava por vir.

Como animais dentro de uma jaula.

Kan olhou para Theo.

Theo nem sequer reagiu.

Não sentia ameaça.

Ana observou Gris com uma expressão que dizia tudo:

Eu já derrotei você uma vez.

Foi tão fácil que você saiu do colégio.

Gris não sentiu pressão.

Ela já havia reunido informações.

Fofocas.

Conversas.

Relatos da última disputa.

E havia presenciado como Ana se comportava diante de Ceres.

Inferior.

Ana havia ficado fraca por causa dela.

Gris sabia.

Daime nem sequer ligava para a liderança.

Não precisava.

E nem dava para levá-lo a sério.

Ele mastigava tranquilamente.

Então olhou para Ana e mostrou a comida na boca.

Ana ficou enfurecida.

Que moleque do caralho.

Insuportável.

Daime continuava com seu humor oco.

Cors e Vanks estavam em outra mesa.

Dois patetas desengonçados.

Mais fígado do que cérebro.

Tudo na força.

Podiam ser grandes.

Mas eram grandes idiotas.

Do outro lado do refeitório, Dark estava sentado ao lado de Dru.

Dark era um psicopata.

Não demonstrava sentimentos.

Mãe Ceres o tratava como alguém especial.

Era como se soubesse que havia alguma coisa nele.

Nem a detenção funcionava.

A Mãe simplesmente mudava Dark de jaula.

Parecia ter planos para ele.

Dru, por outro lado, permanecia ao lado dele como um cachorrinho.

Dark sequer parecia se importar.

Dru tratava Dark como se ele fosse um boneco.

Falava por ele.

Respondia por ele.

Conversava sozinha enquanto os dois comiam.

Dark apenas observava.

Parecia comer sozinho.

Até que Dru parou.

— Cala a boca. Você fala demais.

Silêncio.

Dark continuou comendo.

Garota insuportável.

Havia uma coisa que Gris gostava de lembrar.

Ceres havia batido muito em Dru quando ela salvou Dark de ser morto por Theo, depois da morte de Tycho.

Dark havia dito coisas terríveis.

Coisas que Gris conseguia entender por que Theo havia reagido daquela maneira.

Ceres, como vingança, quase fizera Dru engolir suas próprias moedas.

Socos nas costelas.

Afogamentos no banheiro.

Coitada da Dru.

Mas, pelo menos, durante algumas semanas, ela ficou calada.

Gris quase sorriu ao lembrar.

Kan e Gris continuaram andando entre as mesas.

Observavam cada um.

Não precisavam perguntar nada.

Não precisavam provocar.

Era aquilo que estavam fazendo.

Estudando o ambiente.

Cada pessoa.

Cada fraqueza.

Cada vínculo.

Cada medo.

Cada arrogância.

Cada lugar ocupado dentro daquela engrenagem.

Eles não estavam procurando apenas uma maneira de vencer Theo e Ceres.

Estavam tentando entender como aquela jaula funcionava.

E, quanto mais observavam, mais percebiam uma coisa:

Talvez ninguém ali fosse realmente livre.

Mas alguns pareciam nem sentir necessidade de escapar.

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Thoughts

  • Ovid

    Uma cidade que canoniza Nossa Senhora da Fome e depois trata comida no chão como blasfêmia me fez pensar em como toda religião nova começa pela regra da mesa. Aposto que o Dark vai acabar sendo a peça que a Mãe tanto guarda, justamente por não sentir nada. Fiquei curioso pelo envelope da Gris!

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  • mariinha

    Daime 😂😂

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