Pelo menos a Helena soube pela boca dela dessa vez. Aposto que a Clara segura a promessa de não procurar primeiro e quem quebra é o Pedro, que já tinha decidido não esperar outro acidente.
Capitulo 5- O que o destino ainda guardava
Pensamento
Pelo menos a Helena soube pela boca dela dessa vez. Aposto que a Clara segura a promessa de não procurar primeiro e quem quebra é o Pedro, que já tinha decidido não esperar outro acidente.
Conteúdo da publicação
O que o destino ainda guardava
Contado por Clara
Encontrar Pedro novamente na oficina me fez pensar se o destino estava tentando me dizer alguma coisa.
Ou, quem sabe, estava apenas me testando.
Porque não era possível que, depois de tantos anos, bastasse um acidente para colocar aquele homem novamente no meu caminho e, poucos dias depois, fazê-lo aparecer outra vez.
Eu deveria achar tudo aquilo absurdo.
Mas uma parte de mim estava começando a achar bonito.
Talvez porque Pedro despertasse uma versão minha que eu havia esquecido.
Uma Clara que não vivia preocupada com contratos, funcionários, números, prazos e decisões.
Com ele, eu lembrava de uma menina que corria sem pensar nas consequências.
Uma menina aventureira.
Romântica.
Sonhadora.
A menina que acreditava que duas pessoas podiam crescer juntas e construir uma família.
Eu e Pedro já havíamos feito tantos planos quando éramos mais jovens.
Planos simples.
Uma casa.
Uma família.
Uma vida nossa.
Naquela época, parecia tão fácil imaginar o futuro.
Até que minha vida começou a mudar.
Minha carreira cresceu.
Vieram os negócios, as viagens, outras cidades, novas responsabilidades.
Em algum momento, decidi morar fora e seguir por um caminho completamente diferente.
E Pedro se afastou.
No começo, ainda tentamos manter contato.
Depois vieram os silêncios.
As mensagens ficaram mais raras.
Até que um dia simplesmente paramos de nos procurar.
Não houve uma grande despedida.
Não houve uma última conversa explicando tudo.
Apenas a vida acontecendo.
E nos levando para lados diferentes.
Talvez por isso aquele café tivesse sido tão especial.
Porque, por alguns minutos, parecia que o tempo tinha voltado.
Nós falamos sobre nossas vidas, nossos sonhos e tudo o que havia acontecido nesses anos.
Eu descobri que ele também estava lutando para realizar os próprios sonhos.
E aquilo me tocou.
Porque eu sabia exatamente o que era sentir vontade de desistir.
Eu também já havia chegado perto disso.
Mais de uma vez.
Talvez nossos caminhos fossem diferentes, mas algumas batalhas eram parecidas.
Quando terminamos o café, trocamos nossos telefones.
Foi algo simples.
Natural.
Mas, depois que me despedi dele, uma decisão se formou dentro de mim.
Eu não seria a primeira a procurar.
Não porque não quisesse.
Mas porque precisava entender o que estava acontecendo comigo antes de dar qualquer passo.
Eu precisava saber se estava reencontrando Pedro...
Ou se estava apenas reencontrando uma parte de mim mesma que havia ficado perdida no passado.
Durante o caminho de volta para a casa de campo, esses pensamentos ficaram indo e voltando na minha cabeça.
Ele mexia comigo.
Mais do que eu gostaria de admitir.
E talvez o pior fosse perceber que eu não sabia exatamente por quê.
Pedro não era mais o garoto da minha adolescência.
Era um homem.
E eu também não era mais aquela garota.
Eu tinha vivido.
Errado.
Acertado.
Construído.
Perdido.
Recomeçado.
Então por que bastava estar perto dele para alguma coisa antiga se movimentar dentro de mim?
Quando cheguei em casa, liguei para Helena.
Ela percebeu imediatamente que havia alguma coisa diferente na minha voz.
— O que aconteceu?
Parei por alguns segundos.
— Eu encontrei o Pedro de novo.
Ela ficou em silêncio por um instante.
— De novo?
— Na oficina.
— Clara...
Eu já conhecia aquele tom.
O tom da minha irmã quando estava prestes a dizer exatamente aquilo que eu não queria ouvir.
— Não começa.
Ela riu.
— Eu não falei nada.
— Mas vai falar.
— Só acho que você deveria aproveitar esses quinze dias.
— Aproveitar o quê?
— A vida.
Revirei os olhos.
— Helena...
— Talvez isso tenha acontecido por um motivo.
Fiquei em silêncio.
— Talvez o destino esteja colocando vocês novamente no mesmo caminho.
— Ou talvez seja só coincidência.
— Pode ser. Mas você não vai descobrir tentando controlar tudo.
Aquilo me fez sorrir.
Helena tinha esse jeito corajoso de enxergar o amor.
Ela não tinha medo de sentir.
Eu, ao contrário, sempre fui mais cuidadosa.
Talvez cuidadosa demais.
— Só não faça nada por impulso — ela completou.
— Isso eu prometo.
— E não fuja.
Desliguei o telefone ainda pensando em suas palavras.
Não fuja.
Talvez fosse justamente isso que eu sempre fiz.
Quando alguma coisa ameaçava sair do meu controle, eu corria para aquilo que sabia administrar.
Trabalho.
Responsabilidades.
Metas.
Mas sentimentos não obedeciam planilhas.
E talvez por isso fossem tão assustadores.
Naquela noite, deitei pensando em tudo o que havia conversado com Helena.
Demorei a dormir.
E quando finalmente consegui, sonhei.
Sonhei com Pedro.
Com a nossa juventude.
Com os lugares onde costumávamos ir.
Com os sonhos que fazíamos sem medo.
E, no meio daquele sonho, havia uma pequena menina correndo entre nós.
Uma filha.
Nossa filha.
Quando acordei, fiquei alguns segundos olhando para o teto.
Meu coração estava acelerado.
A imagem continuava tão viva que parecia ter acontecido de verdade.
Passei a mão pelo rosto e soltei uma pequena risada.
— Acho que estou carente demais.
Talvez fosse isso.
Talvez aquele reencontro tivesse mexido mais comigo do que eu queria admitir.
Eu precisava respirar.
Precisava de um lugar onde pudesse ficar sozinha com meus pensamentos.
E lembrei da cachoeira.
Aquele lugar fazia parte da minha infância e da minha adolescência.
Eu e Pedro costumávamos ir até lá quando éramos mais jovens.
Não era nada perigoso.
Era apenas um lugar tranquilo, cercado pela natureza, onde eu costumava sentir que o mundo ficava um pouco mais silencioso.
Decidi ir.
Precisava desacelerar.
Levei um livro, uma toalha e algumas coisas para passar algumas horas ali.
O celular ficou comigo, mais por hábito do que por necessidade.
Sentei-me perto da água e deixei o som da cachoeira preencher o espaço.
Durante alguns minutos, senti exatamente a paz que procurava.
Li algumas páginas.
Fechei o livro.
Olhei para o céu.
Respirei fundo.
Talvez Helena tivesse razão.
Talvez eu precisasse parar de tentar entender tudo.
Talvez fosse possível simplesmente viver um dia de cada vez.
Foi quando o celular escorregou da minha mão.
— Não!
Ele caiu na margem, próximo à água.
Suspirei aliviada ao perceber que não estava longe.
Ajoelhei-me para pegá-lo.
Era fácil.
Eu só precisava me inclinar um pouco mais.
Mas me desequilibrei.
Em um segundo, perdi o apoio.
E caí na água.
A sensação foi tão inesperada que fiquei alguns instantes tentando entender o que havia acontecido.
Felizmente, ali não era fundo.
Consegui me levantar rapidamente.
Meu primeiro pensamento foi:
Ainda bem.
Depois veio outro.
Imagina se acontecesse alguma coisa e eu estivesse completamente sozinha.
Saí da água e tentei recuperar o fôlego.
Foi então que percebi.
Eu não estava sozinha.
Alguns metros à frente havia uma cobra próxima à margem.
Meu corpo inteiro travou.
Meu coração disparou.
Eu não sabia o que fazer.
Olhei para ela.
Depois para a distância até a saída.
Então lembrei de todas as vezes em que eu e Pedro estivemos naquele lugar.
Ele sempre parecia saber o que fazer.
Eu ri nervosamente sozinha.
— Muito bem, Clara...
Era exatamente por isso que eu não deveria ter vindo desacompanhada.
Pedro sempre dizia que eu era impulsiva.
Talvez ele tivesse razão.
Fiquei imóvel.
Não sabia para onde olhar.
Não sabia se deveria correr.
Não sabia se deveria fazer qualquer movimento.
Até que senti uma mão firme tocar minha cintura.
Meu coração quase parou.
Antes mesmo de virar, ouvi a voz.
Uma voz que eu reconheceria mesmo no meio de uma multidão.
— Você ainda continua uma menina sapeca como sempre.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
Pedro.
Atrás de mim.
Eu não fazia ideia de como ele havia chegado ali.
Não conseguia pensar.
Só conseguia ouvir aquela voz tão próxima e sentir a segurança de saber que não estava mais sozinha.
Ele percebeu meu nervosismo.
— Não se mexe.
Assenti.
— Lembra do que a gente fazia?
Fiquei quieta.
— Esperava.
Ele falou baixo, mantendo a calma.
— Ela está no espaço dela. Nós é que invadimos.
Respirei fundo.
Ele continuou:
— Fica tranquila. Daqui a pouco ela vai embora.
Eu tentei me concentrar na cobra.
Tentei pensar na situação.
Tentei controlar o coração.
Mas havia um pequeno problema.
Aquela não era a única coisa que me deixava nervosa.
Eu conseguia sentir a presença dele ali.
E aquilo era ainda mais difícil de ignorar.
Tantos anos sem vê-lo.
Tantos anos acreditando que aquele sentimento tinha ficado no passado.
E agora ele estava ali, justamente naquele lugar que carregava tantas lembranças nossas.
Fechei os olhos por um instante.
Talvez o destino realmente estivesse querendo me testar.
Porque, entre todas as pessoas que poderiam ter aparecido naquela cachoeira naquele momento...
Tinha que ser Pedro.
E, enquanto eu tentava permanecer imóvel, uma certeza silenciosa começou a tomar conta de mim:
não era a cobra que estava fazendo meu coração bater daquele jeito.
Era ele.
E, pela primeira vez, eu tive medo de descobrir o que aconteceria quando aquele reencontro deixasse de ser apenas uma coincidência.
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