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Capítulo 5 O dia em que as palavras sobreviveram ao amor

Raiana
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1968

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Pensamento

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Rui_Salgueiro

Naquele momento, quando ele tava falando, Eduardo ainda acreditava que era o jeito certo? Ou já sabia que tava machucando?

Naquele momento, quando ele tava falando, Eduardo ainda acreditava que era o jeito certo? Ou já sabia que tava machucando?

Conteúdo da publicação

1968

A cidade parecia respirar com dificuldade.

As ruas eram tomadas por manifestações, sirenes e soldados. Os jornais chegavam às bancas mutilados pela censura. Amigos desapareciam de um dia para o outro, e Eduardo vivia entre a redação, reuniões clandestinas e o medo constante de ser seguido.

Helena também havia mudado.

Continuava escrevendo, mas seus poemas já não falavam apenas de primavera. Havia noites, fumaça, despedidas e uma tristeza que ela não sabia nomear.

Ela sentia que Eduardo estava cada vez mais distante.

Não porque deixasse de amá-la.

Mas porque parecia carregar o peso de um país inteiro sobre os ombros.

Naquela noite de setembro, combinaram de se encontrar no pequeno apartamento dele.

Chovia.

A água escorria pelos vidros enquanto o rádio transmitia notícias em voz baixa.

Helena entrou sorrindo, trazendo um embrulho.

— Trouxe uma coisa para você.

Era um caderno novo.

Na primeira página havia apenas uma dedicatória.

"Para o homem que um dia escreverá a reportagem que fará este país olhar para si mesmo."

Eduardo leu.

Fechou o caderno.

Não sorriu.

— Você ainda acredita nessas coisas?

Ela estranhou o tom.

— Nessas coisas?

— Em dedicatórias... em símbolos... em romances.

— Claro que acredito.

— Helena...

Ele passou as mãos pelos cabelos, exausto.

— O país está pegando fogo.

Ela aproximou-se.

— Justamente por isso precisamos guardar alguma beleza.

— Beleza não impede prisões.

— Mas impede que a gente deixe de ser humano.

Eduardo caminhou até a janela.

Respirava como quem tentava conter uma explosão.

— Você não entende.

— Então me explica.

— Não dá mais para viver como se o mundo fosse um livro.

Ela respondeu com calma.

— Nunca achei que fosse.

— Achou, sim.

Ela o olhou, surpresa.

— Eduardo...

— Você sonha demais.

A frase atingiu Helena como uma rajada de vento frio.

Ela permaneceu em silêncio.

Ele continuou.

Já não falava apenas com ela.

Falava contra o medo, contra a impotência, contra tudo o que não conseguia controlar.

— Você deposita todos os seus sonhos em cima de mim.

Ela deu um passo para trás.

— Não...

— Deposita, sim.

A voz dele endureceu.

— Eu preciso de realidade.

Não de uma menina esperando que eu salve o mundo e ainda tenha tempo para viver um romance perfeito.

Os olhos de Helena se encheram de lágrimas.

— Nunca pedi que você salvasse o mundo...

— Mas espera que eu salve o nosso.

Ela balançou lentamente a cabeça.

— Eu só queria caminhar ao seu lado.

Eduardo fechou os olhos por um instante.

Poderia ter parado ali.

Poderia tê-la abraçado.

Poderia ter pedido desculpas.

Mas havia dias em que a dor procura justamente as pessoas que mais amamos.

E foi isso que aconteceu.

Ele a olhou com uma dureza que nunca existira entre os dois.

— Sabe qual é o problema?

Ela esperou.

— Esse seu lado profundo... dramático... eu não quero mais.

O silêncio que se seguiu foi maior que qualquer grito.

Helena não respondeu.

Nem conseguiu.

Sentiu como se alguém tivesse arrancado dela a parte mais bonita de sua alma.

Aquela jovem que acreditava que palavras podiam curar pessoas...

Que músicas podiam mudar dias...

Que um beijo podia atravessar décadas...

Começava a morrer ali.

Eduardo continuou, incapaz de perceber o que fazia.

— Cresça, Helena.

O mundo não precisa de sonhadores.

Precisa de gente disposta a enfrentá-lo.

Ela respirou fundo.

Quando falou, sua voz era quase um sussurro.

— E você acha que sonhar é fugir?

Ele respondeu imediatamente.

— Acho.

As lágrimas finalmente desceram pelo rosto dela.

— Então você nunca me conheceu.

Ela caminhou até a porta.

Parou apenas uma vez.

Sem se virar.

— Lembra daquela noite?

Eduardo permaneceu imóvel.

— Qual?

— Aquela em que você disse que eu era feita do mesmo barro que você.

O rosto dele perdeu a cor.

— Lembro.

— Hoje você me fez sentir como se eu fosse feita de outro.

Ela abriu a porta.

Eduardo deu um passo à frente.

Ainda havia tempo.

Bastava chamá-la.

Bastava dizer seu nome.

Mas o orgulho falou primeiro.

— Helena...

Ela esperou.

Por um instante, acreditou que ouviria as palavras que salvariam os dois.

Em vez disso, ouviu:

— O amor não basta para nada diante de um mundo errado... diante de um país preso a uma ditadura.

Ela fechou os olhos.

Naquele momento compreendeu que não estava perdendo apenas o homem que amava.

Estava perdendo o único lugar onde sempre acreditara que seus sonhos eram bem-vindos.

Sem responder, saiu.

A porta fechou-se devagar.

Eduardo permaneceu parado no meio da sala.

A chuva continuava caindo.

O caderno que Helena lhe dera permanecia sobre a mesa.

Ele não percebeu que, ao tentar salvar o mundo, acabara de destruir o coração que mais acreditava nele.

E Helena, naquela noite, deixou para trás não apenas um amor.

Deixou também a jovem que sorria para desconhecidos nos corredores da faculdade, que acreditava em poemas, em canções e em futuros luminosos.

Anos depois, ela ainda escreveria livros admirados em universidades do mundo inteiro.

Mas jamais voltaria a entregar a alguém a doçura que, naquela noite de chuva, morreu entre as palavras do homem que mais amou.

Thoughts

  • li_no_busao

    Que tristeza, cara

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  • folhaSolta

    Você acha que ela volta pra ele? Que consegue consertar o que se quebrou ali naquela noite?

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  • deixoumarca

    Ela deixou a doçura dela ali naquele quarto. A parte mais bonita. E ele nem viu o que destruiu.

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  • contoDeSexta

    Se naquele momento ele tivesse abraçado ela em vez de soltar tudo isso, as coisas mudavam?

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  • contoBreve

    Ai, não 💔

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  • atepagina50

    O problema é que ele vê uma coisa e ela vê outra completamente. Ele carrega o país inteiro e ela só queria caminhar perto dele.

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  • Simao

    Desse jeito que ele falou com ela. Jogando a coisa toda fora, sem volta. Duríssimo mesmo.

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  • Rui_Salgueiro

    Naquele momento, quando ele tava falando, Eduardo ainda acreditava que era o jeito certo? Ou já sabia que tava machucando?

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