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Capítulo 4 - O Terceiro Turno

KazzTeles
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Como médico, posso afirmar que hospitais mudam depois da meia-noite.

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romanceNasCostas

A menina no corredor levantando os braços e os dedos sumindo na parede sem sangue. E a Lídia voltando pra pegar ela. Gostei muito dessa mulher.

A menina no corredor levantando os braços e os dedos sumindo na parede sem sangue. E a Lídia voltando pra pegar ela. Gostei muito dessa mulher.

Conteúdo da publicação

Como médico, posso afirmar que hospitais mudam depois da meia-noite.

Não é apenas uma questão de silêncio, embora muitas vezes o silêncio seja a melhor parte, mas durante o dia, os corredores pertencem aos familiares, aos médicos discutindo condutas, aos funcionários empurrando macas, aos telefones tocando e às pessoas perguntando quanto tempo ainda ia demorar pra eles serem atendidos.

À noite, principalmente em hospitais pequenos, o prédio parece se lembrar de que foi construído para abrigar gente doente. As luzes ficam fortes demais, os corredores longe demais e qualquer gemido vindo de um quarto vazio merece pelo menos alguns segundos de atenção.

A enfermeira Lídia Ferraz sabia disso havia doze anos e, ainda assim, nunca tivera medo de trabalhar durante a madrugada.

O Hospital Municipal São Jerônimo ficava em Xion, uma cidade quente mesmo para os padrões daquela região, durante o verão, o concreto guardava o calor até muito depois do pôr do sol, e quem entrava pela porta automática da emergência tinha a impressão de atravessar de uma estação para outra. Do lado de fora, o ar era pesado e úmido, mas do lado de dentro, o ar-condicionado antigo trabalhava sem descanso e deixava os corredores frios o bastante para que os funcionários mantivessem casacos pendurados atrás das cadeiras.

Lídia gostava do turno da noite justamente porque havia menos gente tentando mandar nela.

Começava às dezenove horas e terminava às sete. Era a enfermeira responsável pelo setor de emergência nas noites de segunda, quarta e sexta, embora qualquer funcionário do hospital soubesse que horários eram apenas sugestões quando faltava alguém. Naquela quarta-feira, por exemplo, a técnica que assumiria a ala de observação ligara dizendo que estava com febre, e Lídia já sabia que passaria boa parte da madrugada atravessando o hospital de um lado para o outro.

Às vinte e três e quarenta e oito, a emergência estava surpreendentemente tranquila.

Havia um adolescente estava esperando sutura depois de cortar a mão abrindo uma garrafa, uma senhora dormia enquanto recebia medicação para uma crise de enxaqueca e um homem bêbado ocupava uma maca do corredor porque afirmava não lembrar onde morava. A doutora Mirela Costa, única clínica de plantão naquela noite, estava sentada diante do computador tentando terminar enquanto reclamava de uma dor nas costas que já durava três plantões.

— Se chegar algum paciente grave, eu juro que vou embora. — Brincava Mirela.

— A senhora fala isso toda noite, doutora. —Retrucava Lídia enquanto arrumava os medicamentos no armário.

— Mas hoje é verdade! Se chegar algum paciente grave, eu juro que vou embora!

— A senhora falou isso anteontem também e está aqui até hoje.

— Mas anteontem eu estava mentindo. — Lídia sorriu e apontou para um relógio velho na parede. — Meia-noite! Agora é oficialmente um problema do médico do próximo dia.

— Excelente raciocínio médico... — Lídia suspirou e revirou os velhos, ela provavelmente já ouviu a mesma piada vindo de diferentes médicos.

As duas trabalhavam juntas havia tempo suficiente para transformar cansaço em conversas de humor duvidoso, talvez seja por isso que nenhuma tenha percebido de imediato algo estranho quando a ambulância chegou.

Não havia sirene.

O veículo simplesmente parou diante da emergência exatamente três minutos depois da meia-noite, um dos socorristas abriu a porta lateral e chamou por ajuda. Lídia pegou a maca e correu para até a entrada. O paciente era um homem de cinquenta e poucos anos, magro, lúcido e colaborador e bastante pálido, ele mantinha as duas mãos pressionadas contra o lado esquerdo do tórax e respirava de maneira curta, como se estivesse com medo de inspirar profundamente.

— Dor no peito? — Lídia perguntou e o socorrista assentiu.

— Paciente relatou dor súbita que se iniciou há uma hora, pressão cento e cinquenta por noventa, frequência cardíaca cento e dez, saturação noventa e seis, ECG no transporte sem supra.

— Qual o nome dele?

— Renato... — O homem respondeu antes do socorristas — Renato Vale.

— Senhor Renato, de zero a dez, o quão forte está a dor agora?

— Não é dor...

— O quê? — Lídia olhou para o socorrista, como se estivesse reclamando silenciosamente sobre a situação. — Mas o senhor não ligou pra emergência por causa da dor?

— Eu falei que era algo que eu não sabia explicar.

— Então tenta explicar agora, o que tá acontecendo? — Mirela apareceu na porta da emergência e colocou o estetoscópio ao redor do pescoço.

— Eu tô sentindo alguma coisa se mexendo...

Apesar de ser algo bizarro de se ouvir, não era uma frase incomum em uma emergência. As pessoas descrevem sintomas de maneiras muito particulares quando estão assustada, às vezes é um batimento irregular que pode parecer um animal mexendo dentro do peito e gases podem produzir sensações difíceis de traduzir. O trabalho de quem atende é justamente transformar essas descrições em sinais que possam ser investigados.

Lídia levou Renato para uma sala.

— Me diga, onde sente? — A doutora perguntou.

— Aqui. — Ele apontou para uma região abaixo das últimas costelas do lado esquerdo.

— Desde quando? Já sentiu antes?

— Começou hoje, doutora... Eu acho que nunca senti antes.

Mirela tirou o estetoscópio do pescoço e iniciou o exame físico: Ausculta cardíaca com R1 e R2 normofonéticos sem presença de sopros ou galopes, pulsos periféricos palpáveis, na ausculta respiratória o murmúrio vesicular estava conservado em ambos os espaços pulmonares, membros superiores e inferiores simétricos, normocorados, hidratado e sem presença de edema, paciente estava lúcido e colaborador, orientado em tempo, espaço e pessoa, abdome depressível e sem dor a palpação superficial, o porém é que quando palpou profundamente, Renato se contraiu.

— Dói? — Ela perguntou.

— Ele não gosta.

— Quem? — Ela então subiu um pouco mais e pressionou novamente, vendo Renato se contraindo mais ainda. — A médica esperou uma resposta, mas Renato parecia embaraçado. Ela olhou para Lídia com uma cara confusa.

Pediu um novo eletrocardiograma, exames laboratoriais e radiografia de tórax, e enquanto aguardavam, Lídia continuou fazendo algumas perguntas sobre antecedentes patológicos pessoais, mas Renato não tinha cirurgias anteriores, tinha uma vida bastante ativa e usava apenas uma medicação para hipertensão, que fazia uso uma vez por dia, e negava o uso de drogas. Quando perguntado sobre o seu atual trabalho, ele disse que trabalhava como vigia noturno de um depósito de materiais de construção.

— O senhor mora onde? — Lídia perguntou enquanto preenchia a história clínica.

— Rua Padre Carmo, cento e dezoito, bairro... — Renato parou um pouco e tentou lembrar o nome do seu bairro. — Bairro Santa Irene.

Lídia franziu a testa, ela conhecia Xion suficientemente bem para saber que naquela cidade não havia um bairro chamado Santa Irene, muito menos uma rua chamada Padre Carmo.

— Fica perto de onde? — Perguntou.

— Do Mercado Velho.

— Mercado Municipal?

— Não, do Mercado Velho.

— Qual? — Lídia insistiu e viu o homem olhar pra ela como se a sua pergunta não fizesse nenhum sentido para ele.

— O Mercado Velho.

Lídia se irritou e preferiu não insistir, talvez fosse um nome popular para alguma área que ela não conhecia ou ele poderia estar começando a ficar desorientado. Quando os exames chegaram não explicaram nada: o eletrocardiograma continuava praticamente normal e as enzimas cardíacas estavam dentro dos valores esperados. Mirela solicitou uma radiografia por causa da localização da dor.

À uma e quinze, um técnico apareceu na emergência, ele se chamava Igor, era jovem, tinha o hábito de mascar chiclete durante o trabalho e costumava tratar quase tudo com uma indiferença que Lídia invejava, e naquela noite não parecia indiferente.

— Doutora... — Ele disse. — Dá uma olhada nisso.

Ele inseriu um pen drive no computador e virou a tela para a doutora, Lídia se aproximou, ela não era radiologista, mas doze anos trabalhando em emergência ensinavam o suficiente para reconhecer quando alguma coisa simplesmente não deveria estar onde estava: havia uma sombra abaixo do coração, não parecia massa pulmonar e nem parecia hérnia, era oval, relativamente bem delimitada e ocupava parte do espaço entre o diafragma e a região posterior do tórax.

— Que porcaria é essa? — Mirela ampliou a imagem.

— Eu achei que tinha dado artefato. — Disse o homem.

— Repetiu a imagem?

— Sim, duas vezes. — Ele abriu uma outra imagem e a estrutura continuava ali.

Lídia olhou para o paciente através da pequena janela da sala, Renato estava sentado na maca, olhando para o próprio peito.

Mirela chamou o cirurgia de sobreaviso.

Doutor Álvaro chegou cerca de quarenta minutos depois, ainda com marcas do travesseiro no rosto, examinou a imagem, reclamou da qualidade do aparelho e pediu uma tomografia. O Hospital São Jerônimo possuía um tomógrafo relativamente novo, embora o aparelho tivesse a capacidade especial de apresentar defeito nos momentos mais inconvenientes, naquela noite funcionou perfeitamente.

Às duas e dez, os quatro estavam diante do monitor, mas ninguém conseguiu falar nada durante alguns segundos. A tomografia mostrava algo que não aparecia em nenhum livro de anatomia, era possível observar que a estrutura ficava atrás e um pouco abaixo do coração, comprimido entre o diafragma e a coluna, tinha aproximadamente oito centímetros de comprimento, superfície lisa e uma vascularização própria ligada a pequenos ramos que pareciam sair da circulação local, não era simplesmente câncer, era bem mais organizado.

— Isso só pode ser malformação... — Álvaro ampliava a imagem. — Só pode ser alguma variante congênita, não é possível que ele tenha tido uma vida tão normal assim...

— Variante de que? — Mirela perguntou, mas Álvaro ficou em silêncio.

Lídia se aproximou do monitor e percebeu que aquilo possuía cavidades internas, que pareciam câmaras.

— Se isso tem sangue circulando... Significa que tá vivo? — Perguntou.

— Todo órgão é vivo, Lídia. — O técnico brincou.

Mas ela claramente sabia disso, a pergunta dela não estava errada, apenas tinha saído da maneira errada, o que ela queria saber era outra coisa: Aquilo era algo funcional?

Álvaro pediu contraste e a nova sequência tornou o problema ainda menos compreensível, a estrutura recebia sangue e devolvia sangue, ela possuía três cavidades maiores e várias menores conectadas entre si, em determinados cortes, algumas fibras lembravam musculatura.

— Me parece um coração... — Mirela encostou os dedos nos lábios.

— Não parece. — Álvaro a respondeu quase que imediatamente.

— Mas eu não disse que é um coração, eu disse que me parece um coração.

— E eu estou respondendo que não parece, não tem anatomia cardíaca, então logo, não estamos lidando aqui com um segundo coração.

— Mas perceba: tem câmaras e músculo, eu disse que parece... — Ela olhou para Álvaro e notou que ele estava irritado porque também não sabia o que estava vendo, então chamaram o radiologista, ele acessou as imagens de casa e resolveu ir ao hospital demorando quase quinze minutos para chegar.

— Nunca vi algo assim. — Foi a resposta dele.

Renato continuava consciente e relativamente estável, quando explicaram que havia encontrado uma estrutura incomum no tórax, ele não pareceu surpreso.

— Senhor Renato, alguma vez algum médico encontrou isso antes? — Perguntou o radiologista.

— Não doutor, eu não sou de fazer exames regularmente.

— Nunca fez radiografia? — Mirela se sentou diante da maca.

— Não que eu lembre, talvez tenha feito quando criança.

— Você tem irmãos? — Mirela viu o homem balançando a cabeça em negação. — E seus pais? Ainda são vivos?

— Bom... — Renato demorou com a resposta. — Minha mãe morreu nova, mas eu não sei o motivo da morte dela, e meu pai... Eu nunca conheci meu pai...

Lídia verificava a pressão quando sentiu alguma coisa sob sua mão e conseguiu observar a pele do Renato se mover, não muito, uma pequena contração abaixo das costelas, no susto ela retirou a mão.

— O que foi? — Renato olhou para ela. — Eu lhe falei... Ele não gosta.

Lídia tocou novamente o local, esperou, e dessa vez ela sentiu claramente uma pulsação, mas comparando com o pulso teve a certeza que não correspondia a pulsação do coração. Ela chamou Mirela para tocar e a médica ficou imóvel, depois de alguns segundos ela chamou Álvaro, que tocou também, mas ninguém falava nada.

— Doutores, façam ele parar... — Renato começou a chorar, e os doutores sentiam a segunda pulsação ficar mais forte.

A equipe decidiu mantê-lo internado em observação até que pudessem discutir o caso com um serviço de referência em Shambala, cidade das proximidades, pela manhã. Não havia indicação imediata de cirurgia, e abrir o tórax de um paciente estável para investigar algo desconhecido seria muito mais perigoso do que aguardar algumas horas.

Pouco depois das três, Renato adormeceu, e o hospital voltou ao silêncio habitual.

Lídia tentou continuar trabalhando, mas sua cabeça permanecia presa às imagens, ela já tinha visto tumores estranhos, malformações, corpos contendo coisas que alguém jamais esperaria encontrar. A medicina é cheia de exceções, e qualquer profissional experiente aprende a respeitar isso. O que incomodava era o pulso, um órgão desconhecido poderia existir, uma estrutura com vascularização própria também, mas alguma coisa dentro de Renato tinha um ritmo diferente de todo o restante do corpo.

Às três e quarenta e sete, o homem começou a gritar de dor, Lídia correu para o quarto e viu Renato sentado na beira da cama, rasgando seu pijama hospitalar.

— Está apertando! Ele quer sair!

— Onde? — Mirela entrou logo em seguida. — Renato, olha pra mim!

— Tira logo isso de mim! — Ele gritava.

Lídia verificou os sinais vitais, a frequência cardíaca estava cento e vinte, o segundo pulso podia ser visto a olho nu e a pele abaixo das costelas se elevava discretamente a cada contração. Mirela pediu analgesia, mas quando Lídia iria aplicar a medicação, Renato segurou o braço dela.

— Por favor, não... Não deixa...

— Não deixa o que?

— Ele aprender.... — Ele olhou diretamente nos olhos dela.

— Aprender o quê? — Lídia sentiu um arrepio quando Renato a soltou.

Ele não respondeu, ela aplicou o analgésico e, depois de algum tempo, voltou a dormir. Porém, às cinco e vinte, ele estava morto. Não houve deterioração progressiva, o monitor havia disparado, mas quando chegaram, Renato estava em parada cardiorrespiratória. Eles iniciaram ressuscitação imediatamente,  por vinte e seis minutos, tentaram recuperar atividade cardíaca, não conseguiram.

— Parem... — Álvaro havia percebido e segurou o ombro de Mirela que continuava as compressões.

— Ainda temos—

— Para um segundo, Mirela. — Ele a puxou, ambos olharam para o monitor que mostrava linha reta.

Eles ficaram em silêncio até que conseguiram escutar.

Toc. Toc. Toc.

Um som abafado que vinha de dentro do tórax, mas era nítido que a estrutura continuava pulsando. Lídia olhou para a barriga do paciente e percebeu que a pele se elevava lentamente.

Toc. Toc. Toc.

Não era o coração, Renato estava realmente morto, mas era nítido que aquela coisa estava viva. Mirela viu aquilo se mexendo e aproximou seu estetoscópio daquilo.

— Está... Batendo... — Ela entregou o estetoscópio para Álvaro ele também notou.

— Isso não faz sentido... — Ele soltou sem percebeu.

A frase dele não ajudou ninguém, e durante onze minutos após a constatação da morte, o órgão continuou funcionando, até que de repente, parou. O corpo de Renato foi levado ao necrotério. O hospital não possuía patologista de plantão, e uma autópsia seria realizada apenas no dia seguinte, Álvaro solicitou que ninguém manipulasse o cadáver antes da avaliação.

Lídia terminou o turno às sete e vinte, e estava cansada demais para pensar em qualquer coisa. Antes de ir embora, passou pela recepção e viu Mara, a funcionária do cadastro, discutindo com um sistema que aparentemente se recusava a aceitar alguma informação.

— Algum problema, Mara?

— O endereço daquele paciente que morreu, tá dando como endereço inexistente, não é possível que ele tenha mentido. —  Mara deu um chute na mesa.

— Ah sim, o bairro Santa Irene.

— Isso também não existe!

— Talvez ele tenha falado errado, acontece as vezes. — Lídia suspirou fundo.

— E outra, eu liguei pro número dele que estava cadastrado e deu número inexistente.

— Tudo bem, Mara. — Lídia começou a sentir o cansaço aumentar. — Depois a gente resolve isso. — Ela arrumou sua mochila e foi para casa, dormindo quase sete horas, e quando voltou ao hospital naquela noite, havia três pacientes novos na emergência, todos reclamavam de dor no peito.

Lídia soube desses pacientes antes mesmo de guardar a bolsa no armário, no corredor estava Mirela com uma expressão de preocupação.

— Lídia, você vai achar que eu estou brincando, mas são três...

— Três o quê? — Lídia franziu a testa e encarou a doutora, mesmo não obtendo a resposta, pôde entender o que estava acontecendo.

Os pacientes não haviam chegado juntos. Havia uma mulher de quarenta e três anos e fora atendida durante a tarde, um homem de sessenta anos chegou às dezessete horas e o outro, de trinta e nove, pouco antes das dezenove horas. Os três descreviam uma pressão abaixo da costela, diziam senti alguma coisa se mexendo e os três possuíam a mesma estrutura.

Lídia viu as tomografias e notou que ambas eram semelhantes, na verdade, eram iguais, possuíam o mesmo tamanho, as mesmas cavidades, mesma posição e a mesma vascularização.

— Isso é um surto? Infecção? — Lídia perguntou e viu Mirela balançando a cabeça.

— Surto de órgão novo? Acorda pra vida, Lídia! Infecção nenhuma constrói um órgão novo assim do nada, um órgão não nasce assim do nada! Não estamos falando de alguma parasitose, mas também não tenho ideia do que está acontecendo!

Na verdade, Lídia sabia, ela só estava tentando produzir alguma resposta automática enquanto o silêncio tornada aquele absurdo ainda pior.

— Eles se conhecem? Ou moram perto? — Ela perguntou.

— Dizem que não, mas dá uma olhada nisso. — Mirela pegou algumas pastas e entregou à Lídia.

Lídia pegou as pastas e comparou o ambas, mas percebeu algo curioso, ambas as 3 pessoas moravam no mesmo endereço: Rua Padre Carmo, 118, porém nenhuma delas se conhecia ou já haviam se encontrado. Ela largou as pastas em cima da mesa e correu para o arquivo, buscava o documento de óbito de Renato e lá estava: Rua Padre Carmo, 118.

— Não é possível... — Ela sentiu um arrepio subindo pelas costas. — É o mesmo endereço do Renato, a Mara deve estar escrevendo errado.

— Não. — Interrompeu a médica. — Eu mesma perguntei pra todos eles, e eles me confirmaram que moram no mesmo endereço, mas nenhum deles se conhece.

Lídia pegou a ficha da mulher, chamava-se Sônia Barreto, ela foi até o quarto e se deparou com a mulher sentada na maca enquanto usava o celular.

— Dona Sônia? — Lídia perguntou enquanto abria a ficha.

— Sim, eu mesma.

— Só preciso confirmar algumas informações, pode ser? Acredito que preencheram sua ficha errada.

— É sobre o endereço? — Sônia franziu a testa e largou o celular ao lado. — Já vieram me perguntar várias vezes, e eu já confirmei que moro na Rua Padre Carmo, 118, Bairro Santa Irene.

— Tudo bem, é claro... — Lídia deu um falso sorriso. — Mas não era sobre isso. — É lógico que se tratava disso. — A senhora mora com alguém? Há quantas pessoas na sua casa além de você?

— Moro sozinha há uns nove anos.

— Entendi... — Lídia sentiu a boca ficar seca. — Conhece algum homem chamado Renato vale? Ou Agenor Mota?

— Não, nenhum desses homens.

— E Sérgio Navar? — Lídia percebeu que estava incomodando, então decidiu fazer uma nova pergunta. — A senhora sabe me dizer como chega até sua casa?

— Bom, eu pego a Avenida Central, viro depois do Mercado Velho e sigo até Santa Irene.

— Que Mercado Velho?

— Ora... O Mercado... Velho... — Sônia apontou vagamente.

Era exatamente a mesma resposta dada por Renato na noite passada, Lídia chamou Mirela e ambas conversaram com os outros dois pacientes, as instruções eram quase idênticas, nenhum deles sabia fornecer um ponto de referência que existisse, a Avenida Central existia, mas depois do local onde afirmavam virar não havia nenhum mercado, ou bairro Santa Irene, ou Rua Padre Carmo. Lídia decidiu então voltar ao quarto onde estava Sônia.

— Sônia, desculpe. — Ela pegou o próprio celular, abriu um mapa digital e entregou para Sônia. — Poderia me dizer onde fica a sua residência?

Sônia olhou para a tela, moveu o mapa diversas vezes, dava zoom próximo a Avenida Central, fechava o aplicativo, abria novamente e repetiu o feito por alguns minutos.

— Que estranho... — Disse Sônia confusa. — Isso aqui tá errado.

— O quê?

— O mapa, esse mapa da desatualizado?

— Me mostra onde deveria estar sua casa? — Lídia se sentou ao lado de Sônia e puxou o celular para si.

— Aqui ó. — Sônia apontou para uma região próxima à margem sul da cidade, mas ali havia um terreno vazio próximo de uma antiga linha ferroviária. — Tá descampado, mas não é descampado.

— Dona Sônia, eu conheço essa região e não existe nenhum bairro chamado Santa Irene nesse lugar.

— Como não? Eu moro lá! — Sônia começava a parecer irritada.

Lídia percebeu que não conseguiria avançar na conversa e decidiu encerrar por ali. Pouco antes da meia-noite, mais dois pacientes chegaram com os mesmos sintomas e com o mesmo endereço. Um deles era uma menina de dezessete anos e o outro era um motorista de ônibus de cinquenta e dois anos.

Cinco pessoas viviam sozinhas na mesma casa.

Cinco pessoas que não se conheciam.

À uma da madrugada, Lídia decidiu que iria até o endereço, buscou sua mochila e quando estava prestes a sair do hospital, Mirela se colocou a sua frente.

— Você está em horário de serviço! O que pensa que tá fazendo? — Mirela segurou o braço da enfermeira.

— Eu preciso ver se o endereço realmente existe, o mapa diz que não, mas cinco pessoas dizem que sim.

— E se você sumir? Se acontecer alguma coisa eu não vou ter como te ajudar! Tem noção do quanto isso é perigoso? — A voz de Mirela tremia, o medo em sua voz era nítido.

— Eu te mando foto. — Lídia puxou o braço, pegou as chaves do seu carro e saiu do hospital.

A área indicada pelos pacientes ficava a menos de quinze minutos do hospital. Lídia dirigiu pela Avenida Central, passou pelo trecho onde os pacientes afirmavam existir o Mercado Velho e encontrou apenas uma oficina fechada, decidiu continuar até a linha ferroviária e se deparou com um terreno vazio, mas não completamente.

Havia mato, algumas árvores e resto de fundação de construções demolidas muitos anos antes, a iluminação pública terminava alguns metros antes, e Lídia precisou usar a lanterna do celular para enxergar adiante. Após minutos procurando, ela encontrou uma placa caída, estava enferrujada, as palavras RUA PADRE CARMO não faziam sentido para ela, ela fotografou e seguiu pela antiga rua.

Não havia pavimento, apenas terra seca e vegetação, começou a contar os números presentes nos restos das fundações — Casa cento e quatorze, cento e dezesseis, casa cento e dezoito. — Na verdade não havia casa, havia restos da parede com o número e um enorme buraco, ele não parecia recente, tinha aproximadamente seis metros de largura e estava parcialmente escondido pelo mato, Lídia aproximou-se com cuidado e iluminou o interior, mas não era possível enxergar o fundo.

Lídia se aproximou ainda mais, pegou uma pedra a jogou, esperou o som e ele não veio, parecia que o buraco era fundo demais. Pegou outra pedra e lançou, ficou esperando pelo som, mas o que subiu foi o cheiro de algo que ela conhecia, era o cheiro do hospital, não o cheiro da limpeza, mas o cheiro da carne em estado de necrose, foi então que ela escutou um som peculiar vindo do fundo:

Toc. Toc. Toc.

Lídia permaneceu imóvel, até que vieram  mais três batidas.

Toc. Toc. Toc.

— Meu Deus... — Lídia rapidamente pegou o celular e ligou pra Mirela. — Eu achei! Eu achei a casa! Quer dizer... Não a casa, mas eu achei o endereço deles.

— Como assim? — A voz de Mirela tremia do outro lado da linha.

— Tem os restos de uma fundação, o número 118, mas ao invés da casa, tem um buraco e alguma coisa lá embaixo, ele tá batendo alguma coisa.

— Lídia, volta pra cá! — Era uma ordem, Mirela não conseguia esconder que estava temendo pela vida da sua amiga.

— Mirela.. Isso tá batendo, escuta! — Lídia afastou o celular, colocou no viva-voz e aguardou as batidas recomeçarem. — Escutou?

— Volta pra cá!

Lídia obedeceu, quando chegou ao hospital encontrou uma grande confusão: Dois pacientes tinham piorado e Sônia estava apresentando dor intensa e sua frequência cardíaca começava a cair, o segundo pulso, entretanto, aumentava. Lídia verificou os sinais vitais e notou que enquanto um diminuía o outro acelerava. Álvaro, o cirurgião, havia acabado de chegar e conversava com Mirela sobre uma possível cirurgia.

— Se esperarmos muito, ela pode parar. — Ele dizia.

— E você pretende retirar o quê? Não percebe que isso é perigoso? Retirar seja lá o que for sem saber vascularização completa? — Mirela retrucava.

— Perceba que ela tá piorando! — Quando Álvaro gritou, Sônia começou a vomitar.

A equipe vendo aquela cena decidiu levá-la para a sala de cirurgia, foi uma decisão tomada mais por desespero do que por certeza, algo que acontece com mais frequência na medicina do que qualquer profissional gosta de admitir.

Às duas e quarenta e cinco, Sônia entrou no centro cirúrgico, dentre os profissionais estava Lídia, pela falta de profissionais. Álvaro realizou o acesso lentamente e quando conseguiu visualizar a estrutura, ninguém na sala conseguiu fingir que se tratava apenas de uma malformação, ele era um órgão, tinha uma superfície avermelhada, vasos próprios e uma membrana fina envolvendo-o e se contraía regularmente, mas havia outra coisa, pequenos filamentos saíam dele, não pareciam ser nervos ou vasos, pareciam raízes muito finais. Algumas subiam em direção ao coração e outras seguiam pelo diafragma.

Álvaro decidiu aproximou a pinça e tocou levemente o órgão, que se contraiu e fez o monitor cardíaco disparar.

— Não toca! — Gritou Mirela.

O cirurgião retirou a mão e o ritmo voltou ao normal, Mirela olhou para o monitor cardíaco e depois para o cirurgião.

— Isso parece sentir.

— Pare de loucura, Mirela, a paciente está completamente sedada.

— Então me explica, Álvaro! Me explica!

Álvaro não deu ouvidos a Mirela e decidiu colher uma pequena amostra da membrana, quando a tesoura encostou no órgão, Sônia abriu os olhos – isso não deveria acontecer – Sônia estava completamente anestesiada, mas mesmo assim abriu os olhos completamente. O anestesista verificou as medicação e confirmou para ambos os médicos na sala que ela realmente estava sedada.

— Por favor, não corta... — Sônia olhou para Álvaro e começou a chorar.

— Aumenta a dose. — Álvaro pediu e o anestesista cumpriu o pedido, aumentando a dosagem, mas Sônia continuava acordada.

— Não corta... — A voz de Sônia não parecia alterada pela medicação, era como se ela nem estivesse medicada. — Não corta... Ele tá aprendendo...

— Sônia, você tá me ouvindo? — Perguntou Lídia. — Ele tá aprendendo o quê?

— A permanecer aqui... — Sônia fixou os olhos em Lídia, e se coração parou.

Lídia congelou e sentiu suas pernas ficarem cada vez mais fraca, todos ali perceberam que o órgão começou a pulsar mais rápido, mas o coração de Sônia estava completamente parado, mas todos podia ver aquela estrutura funcionando perfeitamente, o sangue ainda continuava circulando, Álvaro olhou para o monitor cardíaco e viu que a pressão arterial da paciente estava setenta por quarenta, mas não deveria.

— O órgão. — Disse Lídia. — O Órgão está bombeando o sangue pro corpo inteiro, ele tá assumindo o controle da função.

— Eu vou tirar. — Álvaro fechou a mão ao redor da pinça e começou a aproximar o bisturi.

— Espera. — Mirela segurou o braço do cirurgião. — Se isso estiver mantendo a circulação no corpo, parar assim de repente vai mat—

— E você quer deixar isso dentro dela? — A resposta de Álvaro apareceu antes que Mirela conseguisse terminar de formular a frase, ele pressionou o bisturi e abriu o órgão.

Não há maneira melhor de explicar o que todos ali daquela sala puderam ver, o órgão estava aberto e uma das cavidades se separou no centro, revelando uma fenda estreita, era como uma boca, dentro havia dentes, não eram dentes humanos, mas era pequenas estruturas brancas, numerosas e irregulares. Álvaro com o susto largou os instrumentos e recuou, a coisa se contraiu e a fenda se fechou, então Sônia soltou uma alta inspiração, mas seu coração continuava parado.

— Fecha, Álvaro... — Mirela olhou para Álvaro e notou que ele estava nitidamente assustado com o que acabara de ver. — Fecha isso agora mesmo! — E ele obedeceu.

Sônia foi levada à unidade de terapia intensiva improvisada do hospital, ela continuava sem atividade cardíaca, mas permanecia viva, pelo menos segundos os critérios mais básicos: pressão arterial presente, respiração espontânea, pupilas responsivas. Às quatro da manhã ela abriu os olhos e viu que Lídia estava ao seu lado, em seguida olhou para o teto, e fez um som de respiração alto que assustou Lídia.

— Eu estou em casa? — Perguntou pra enfermeira.

— Não, dona Sônia, ainda continua no hospital.

— Não... — Ela virou lentamente pra Lídia. — A gente está em casa.

— Quem? — Lídia sentiu um leve desconforto. — Quem está em casa?

— Todos nós.

Na emergência, os outros quatro pacientes apresentavam a mesma inversão, seus corações desaceleravam e os novos órgãos aceleravam. Às quatro e vinte, chegou o sexto paciente; às quatro e trinta e cinco, chegou o sétimo; às quatro e cinquenta, uma ambulância trouxe três pessoas ao mesmo tempo, e todos da Rua Padre Carmo, 118. Mirela ligou para os hospitais de referência, mas nenhum conhecia quadro semelhante; tentou se comunicar com a vigilância epidemiológica, mas apenas prometiam que enviariam uma equipe para investigar.

Lídia já esgotada sentou ao lado de Mirela e começou a mexer nas fotos que havia tirado do local, encontrou a foto com as ruínas do terreno e mostrou pra Mirela.

— Olha. — Lídia apontou para uma placa de metal na imagem, na placa havia uma data gravada: 1908. Pesquisaram nos arquivos municipais e descobriram que a Rua Padre Carmo existira, assim como o Bairro Santa Irene que havia sido demolido em 1961, oficialmente, a região fora evacuada após um deslizamento de terra que comprometera várias casas.

Lídia encontrou também uma matéria antiga:  DESABAMENTO DEIXA 34 DESAPARECIDOS EM SANTA IRENE. O principal ponto do desastre era o número 118, aquela casa havia afundado inteira e nunca recuperaram os moradores.

Elas continuaram pesquisando e encontraram outra noticia: Uma sema antes do desabamento, moradores relataram tremores subterrâneos. Outra reportagem mencionava o desaparecimento de alguns animais da região, e uma pequena nota, quase irrelevante, afirmava que pacientes do bairro haviam procurado o Hospital São Jerônimo relatando “palpitações no peito de causa desconhecida”

— Então isso já aconteceu antes... — Mirela ampliou o texto. — Sessenta e cinco anos atrás... E por quê parou?

— Se tivesse continuado, alguém com certeza saberia. — Lídia se levantou e caminhou até a porta e ficou olhando para a sala de internação, onde os pacientes estavam. — Ou talvez não...

Lídia voltou para o computador e começou a pesquisar o nome dos pacientes na internet, foi nesse momento que perceberam que os prontuários estavam mudando, Renato Vale não aparecia mais no sistema, ela procurou pelo nome diversas vezes, mas não encontrava nada.

— Eu juro que cadastrei aquele paciente. — Ela se levantou e foi atrás de Mara, a funcionária do turno anterior, mas ela já tinha ido embora. Procuraram por Sônia e encontraram o prontuário de Renato Vale com ela, mas o endereço do paciente estava diferente: agora constava apenas Rua Padre Carmo, 118, mas sem bairro, nenhum telefone, nenhum contato de emergência.

Um dos pacientes afirmava ser casado, quando ligaram para o número fornecido, uma mulher respondeu.

— Senhora Navar? — Perguntou Lídia.

— Sim, pode falar. — A voz respondeu do outro lado da linha.

— Somos do Hospital São Jerônimo.

— Aconteceu alguma coisa?

— Seu marido, Sérgio Navar, está internado.

— Bom... — A mulher ficou em silêncio, e soltou um suspiro. — Poderia repetir? Quem está internado?

— Seu marido, Sérgio Navar.

— Eu não sou casada. — Respondeu após uma longa pausa. — Eu não conheço nenhum Sérgio Navar.

— A senhora tem certeza?

— Amiga. — A voz interrompeu, era possível sentir o incômodo em sua voz. — Eu não sei que tipo de trote é esse, mas não estou gostando da brincadeira! Passar bem. — E a ligação encerrou.

Lídia ficou olhando para o telefone, jamais havia vivenciado algo parecido antes, mas sentiu a impressão desconfortável de que em algum momento da sua vida, já havia passado por algo assim. Às cinco e dezessete, as luzes do hospital piscaram, o gerador ligou por alguns segundos e depois a energia voltou. Quando os monitores reiniciaram, todos os pacientes apresentavam exatamente o mesmo ritmo secundário, todos com setenta e dois batimentos, mesmo aqueles de idades e condições diferentes, Lídia passou pelos leitos e notou que pareciam sincronizados, foi então que ela escutou:

Toc. Toc. Toc.

Não vinha de nenhum paciente, parecia vir do hospital, as estruturas batiam ao mesmo tempo e o som atravessava paredes e macas, olhou para trás e percebeu a expressão de medo no rosto de Mirela, que estava parada no corredor.

— Isso não pode estar acontecendo. — Lídia olhou pro chão e sentiu uma vibração sob os pés, era o mesmo ritmo, retirou o sapato e tocou o chão com o pé descalço e notou o mesmo ritmo presente nos monitores: setenta e dois por minuto.

— O hospital está tremendo? Será que também vai desabar? — Mirela perguntou.

— Não... — Lídia se ajoelhou e colocou a palma da mão no piso, e notou que ele pulsava, olhou para Mirela, que também havia se abaixado para tocar o chão. — Tem alguma coisa se movendo debaixo da cidade.

— Não começa, Lídia. — Mirela se levantou. — Pode ser o encanamento.

— Eu ouvi as mesmas batidas lá naquele buraco, como explicaria sons em um buraco de uma casa que afundou sessenta anos atrás?

— Eu não sei.

— Então vamos parar de fingir que não é nada, porque nitidamente tem algo acontecendo aqui.

Mirela não respondeu à afirmação de Lídia, apenas saiu do corredor para ir verificar Sônia, mas ao entrar na sala do leito notou que ela não estava mais lá, não havia fugido ou levantado da cama, ela simplesmente não estava mais lá. Lídia havia entrado na sala para verificar os sinais vitais há minutos atrás, e ela ainda estava lá, porém agora os lençóis estavam vazios, o acesso venoso permanecia conectado e o tubo terminava sobre o colchão, mas não havia sangue e a porta estava fechada.

Foram até a sala das câmeras e o guarda mostrou algo estranhamente curioso: às cinco e vinte e nove, Sônia estava deitada, a imagem falhou por dois segundos e quando voltou, a cama estava vazia. O guarda saiu e procurou no hospital inteira, mas não encontrou nada. Poucos minutos depois, as luzes piscaram novamente e outro paciente desapareceu, e depois outro, e depois outro, sempre após uma breve falha nas câmeras.

Os funcionários começaram a entrar em pânico, um técnico decidiu que iria embora, mas quando se aproximou da porta automática da emergência, ela não abriu. Tentaram abri-la manualmente, mas não conseguiram, parecia travada assim como a saída dos fundos. O sistema de incêndio não respondia e as janelas que deveriam abrir facilmente estavam emperradas.

— Droga, o que está acontecendo? — Perguntou Álvaro.

Ninguém sabia responder aquela pergunta, foi então que começaram a ouvir uma risada alta vindo do quarto dos leitos, a risada vinha de um dos pacientes, era Agenor Mota, sessenta anos, ele estava deitado em seu leito.

— Vocês construíram bem em cima! — Ele começou a gritar. — Construíram bem em cima da casa!

Lídia correu até a sala de leitos e sentiu um arrepio tomar seu corpo, suas mãos tremiam e suas pernas fraquejavam, ela sentia que algo estava acontecendo, seu coração parecia saber, mas ela não queria acreditar.

— Como assim? — Ela gritou para Agenor. — A casa fica a quilômetros daqui!

— Não... — Ele sussurrou e fixou seu olhar em Lídia, seu rosto era humano, mas seu sorriso era distorcido o suficiente para Lídia afirmar que aquilo fugia da anatomia humana. — A casa é imensa... Ela é grande!

— Agenor... — Lídia sentiu coragem. — O que tem na casa de número 118?

— Todos nós

— E quem são vocês? — Mirela chegou ao quarto e perguntou.

— Eu ainda não sei. — Ele colocou a mão sobre o peito. — É por isso que ele precisa da gente.

Lídia instantaneamente lembrou da frase dita por Renato no dia anterior, de que aquilo estava aprendendo alguma coisa. Nesse momento Agenor começou a tossir e sangue apareceu em sua boca, o monitor cardíaco mostrava zero batimentos, mas o órgão ainda pulsava a exatas setenta e duas batidas. A pele abaixo das costelas começou a se abrir, não eram rasgos, era como se a pele estivesse se separando, como se uma linha já existisse ali.

As duas deram um passo para trás e  notaram a fenda crescendo, por baixo havia uma membrana úmida, Agenor permanecia acordado e tentando olhar para a fenda que se abria abaixo das costelas.

— Olha... Nem dói mais... — Disse ele.

A abertura começou a aumentar até permitir ver o órgão, ele pulsava enquanto uma fenda se abriu na superfície onde se notava pequenos dentes brancos, aquilo fenda se movia como uma boca tentando falar, mas produzia um som estranho de cordas vocais, não vinha da garganta de Agenor, o som vinha de dentro do tórax dele, foi então que elas escutaram: — Lídia.

— Falou seu nome. — Mirela olhou para Lídia e notou que a enfermeira estava congelada de medo.

— Lídia Ferraz. — O órgão se contraiu novamente.

— Eu sinto muito, moça. — Agenor colocou a mão sobre o rosto e começou a chorar copiosamente.

— Como você sabe meu nome? — Lídia deu um passo a frente e ficou encarando a fenda.

— Você veio até mim. — O órgão respondeu. — Você veio até a casa, você me chamou.

— O que é você? — Perguntou.

— O Terceiro. — A coisa ficou em silêncio e Agenor começou a tremer, a fenda se fechou e as luzes apagaram.

Quando as luzes voltaram, o leito estava vazio, Agenor havia desaparecido, elas se aproximaram do leito e o tocaram, percebendo que ele permanecia quente. Às seis da manhã, restavam apenas poucos pacientes, o céu começava a clarear e a equipe da vigilância epidemiológica. As portas do hospital voltaram a abrir sozinhas, ninguém pôde compreender o porquê, mas no momento em que abriram os funcionários saíram imediatamente. Lídia deveria ter ido embora, mas não foi, caminhou pelo hospital e encontrou Mirela na sala médica olhando os prontuários.

— O terceiro... — murmurou Lídia.

— Sim. — Mirela assentiu. — Eu pensei nisso também.

— Será que é um terceiro coração?

— Não acho que seja isso. — Mirela virou o monitor do computador e mostrou uma planta antiga do hospital. — O hospital São Jerônimo atual foi construído em 1984, mas antes dele havia um outro prédio.

— Onde?

— Aqui. — Mirela apontou, era a mesma localização. — O segundo hospital de Xion.

— O segundo?

— Sim. — Mirela abriu outro arquivo e mostrou o primeiro hospital municipal, que fora construído em 1912 e fechado em 1947 depois de um incêndio em larga escala. O segundo hospital, foi inaugurado em 1950 e parcialmente destruído por problemas estruturais em 1962, um ano depois do desastre de Santa Irene. — E esse que estamos é o terceiro. — Mirela afirmou.

— O terceiro.. — Lídia sentiu frio apesar do ar-condicionado estar desligado.

— Perceba. — Mirela continuou pesquisando, mostrou que o primeiro hospital construído naquele terreno possuía um outro nome: Casa de Saúde Santa Irene.

As duas permaneceram em silêncio e Mirela ampliou a imagem e o que elas viram fez o estômago de Lídia embrulhar.

— Não faz sentido. — Disse Lídia. — A casa fica do outro lado da cidade.

— Hoje. — Mirela ampliou a imagem dos mapas antigos. Em 1912, a Rua Padre Carmo atravessava uma região muito maior, o número 118 ficava exatamente onde hoje estava o Hospital São Jerônimo, mais tarde, a numeração fora modificada, então buraco encontrado por Lídia não era o local original, era outro 118.

Isso era impossível até para as regras confusas daquela noite, dois endereços iguais, mas dois pontos diferentes em diferentes anos, mas a mesma casa. Lídia saiu correndo a área no subsolo, Mirela tentou acompanhá-la, mas alguém chamou pela emergência, então Lídia entrou sozinha. O subsolo do hospital guardava arquivos velhos, materiais de limpeza e equipamentos quebrados. No final havia uma porta metálica que ela conhecia, embora raramente precisasse abrir.

Atrás da porta ficava a antiga área de máquinas, ela entrou e notou o chão completamente úmido, ela acendeu a lanterna e pôde ouvir que o som das batidas era mais forte ali — Exatas setenta e duas por minuto. — Aproximou-se da parede dos fundos e notou uma rachadura, mas não lembrava dela, ela colocou a mão e a parede parecia quente e pulsando, Lídia afastou a mão e ouviu um ruído vindo de uma prateleira, o som de alguma coisa caindo.

Era um tijolo.

Ele não pertencia à parede atual, parecia muito mais antigo. Atrás dele havia um espaço escuro, Lídia aproximou a lanterna e viu madeira, uma parede interna de madeira atrás do concreto. O hospital havia sido construído por cima de alguma coisa coisa, ou ao redor de alguma coisa, Lídia retirou outro pedaço solto e encontrou uma espécie de papel de parede com flores azuis, depois uma moldura, parte de uma fotografia onde homens e mulheres estavam diante de um prédio, ela retirou a imagem e virou, ali havia uma anotação: Equipe do Terceiro Turno – Santa Irene,1936.

A escrita fez o coração de Lídia acelerar, havia sete pessoas na fotografia: um médico, três enfermeiras, dois auxiliares e um homem não identificado. Uma das mulheres parecia com ela, não era exatamente ela, mas suficientemente parecida com ela, no verso também haviam nomes, dentre eles: Enf. Lígia Ferraz.

Lídia quase deixou a fotografia cair, não era Lídia Ferraz, era Lígia Ferraz, possuíam o mesmo sobrenome, então tentou pensar em alguma parente, mas a sua família não era de Xion, ou pelo menos era isso que lembrava, pegou o celular e ligou para a mãe, chamou muitas vezes até que finalmente foi atendido.

— Alô, mãe? — disse.

— Oi filha, tá tudo bem? — A mãe de Lídia possuía uma voz calma e doce, aquele tipo de voz que você escuta e sente calma na hora.

— Mãe. — O alívio em ouvir a voz de sua mãe, quase a fez chorar. — A gente tinha algum parente em Xion?

— Como assim, filha?

— Nossa família, eu estou perguntando sobre a nossa família. A gente tinha alguma parente aqui em Xion com o nome Lígia Ferraz?

— Filha. — veio silêncio. — Quem te falou sobre ela?

— Então realmente tínhamos. — Lídia apertou o telefone. — Mãe, quem é ela?

— Onde você ouviu esse nome? —  A mãe de Lídia esperou por uma resposta, mas percebeu que Lídia não falaria nada. — Ela era irmã da minha avó, acho que era enfermeira em um hospita.

— O hospital Santa Irene?

— Não sei.

— A senhora sabe sim!

— Filha, apenas saia do hospital!

— O quê? — Lídia sentiu um calafrio tomar seu corpo, seu rosto estava tão pálido que parecia que o sangue havia saído dele. — Como a senhora sabe que eu estou no hospital?

— Hoje é quarta-feira, você sempre trabalha na quarta-feira. — A mãe de Lídia começou a chorar. — Eu te implorei para não trabalhar aí.

— A senhora nunca pediu.

— Eu pedi sim, no dia em que você conseguiu a vaga.

— Mãe, o que aconteceu com a Lígia?

— Eu não sei. — Ela soluçava. — Ela desapareceu, não sei o ano.

— 1936? — Lídia ouviu silêncio novamente, era o suficiente. — O que aconteceu com ela?

— Minha avó dizia que a Lígia trabalhava pela madrugada no hospital, um dia saiu para trabalhar e nunca mais retornou.

— O corpo foi encontrado? Ela dizia sentir algo estranho? E o hospital?

— Vamos parar de falar sobre isso.

—Mãe!— Lídia sentiu suas pernas fraquejarem e se apoiou na parede.

— Sua avó dizia que a Lígia vinha reclamando de alguma coisa, ela dizia que a família tinha alguma coisa errada no peito, mas eu nunca soube o que era.

— E por quê nunca me contou?

— Ninguém nunca acreditou nela, eu também nunca acreditei nela.

Lídia ouviu três batidas, mas agora elas não vinham de dentro da parede, elas vinham de dentro do seu próprio corpo, o susto foi tão grande que ela permaneceu imóvel e em silêncio por alguns minutos, enquanto sua mãe não parava de falar no telefone.

— Lídia? — A mãe percebeu o silêncio. — Tá tudo bem, filha?

Lídia sentiu mais três batidas por detrás de suas costelas, ela colocou a mão sobre o lado esquerdo e percebeu que seu coração batia rápido, mas havia alguma outra coisa pulsando lentamente, há exatas setenta e duas batidas.

— Mãe. — Lídia fechou os olhos. — Acho que entendi o porquê ela nunca voltou pra casa. — Ela deixou o telefone cair no chão e sentiu a dor vir de uma vez. Ela se ajoelhou e sentiu alguma coisa se contraindo atrás do coração, mas havia alguma sensação familiar, não parecia que ela surgiu naquela madrugada

Esse talvez fosse o aspecto mais assustador.

Não parecia alguma coisa aparecendo dentro dela, parecia algo que sempre estivera ali finalmente se tornando impossível de ignorar. Lídia vomitou no chão. Tentou alcançar o telefone enquanto as batidas continuavam, ela levantou a camisa, mas sua pele parecia normal, pressionou e sentiu:

Toc. Toc. Toc.

Foi então que se lembrou de Renato dizendo que nunca fazia exames, mas ela fazia. Ela fazia radiografias, tomografia uma vez, anos antes, depois de um acidente, mas nada nunca aparecera. Lídia tentou lembrar do exame, mas não conseguia, as memórias pareciam incompletas. Após alguns minutos Mirela desceu ao subsolo e encontrou Lídia no chão próxima ao vômito.

— Lídia?

— Mirela, faz uma tomografia. — A enfermeira se sentou contra a parede e colocou a mão sobre o peito.

— Não—

— Faz! Por favor!

Mirela chamou um segurança e ele a ajudou a carregar Lídia, fizeram o exame e a imagem confirmou, o órgão estava lá: onze centímetros, três cavidades maiores e diversas pequenas, mesma vascularização, mas dessa vez havia uma diferença.

— O seu órgão parece maior, os outros eram oito. — Confirmou Mirela, enquanto ampliava a imagem no computador. — Mas por quê?

— Talvez esteja dentro de você a mais tempo. — Álvaro apareceu atrás da tela. — Há quanto tempo você trabalha aqui no hospital?

— Doze anos. — Respondeu Lídia. — Trabalho aqui há doze anos.

Apesar de ninguém dizer, Mirela entendeu o que Álvaro queria afirmar, todos os pacientes tinham alguma ligação com Santa Irene, inclusive a enfermeira Lídia, ou seja, a coisa não havia começado naquela mesma noite, apenas havia aguardado um ponto específico. — O terceiro turno. — Mirela exclamou. — O terceiro turno era como chamavam o turno da madrugada.

— Eu conversei com a minha mãe. — Lídia interrompeu a médica. — Minha mãe disse que eu tive uma parente distante que trabalhava aqui no hospital e que desapareceu durante uma madrugada, há noventa nos atrás.

— E também os pacientes moram num endereço que não existe que era o endereço do primeiro hospital, talvez realmente exista algo pulsando debaixo do prédio. — A fala saiu sem que Mirela percebesse, então todos permaneceram em silêncio.

— Isso não é um surto. — Lídia olhou para a tomografia. — Talvez seja apenas um novo turno começando de novo.

Às seis e cinquenta, os pacientes restantes levantaram ao mesmo tempo, mas não deveriam conseguir por causa da sedação, mas mesmo assim, ficaram de pé. Eles saíram dos seus quartos e foram em direção ao subsolo, os funcionários tentaram impedí-los, mas não conseguiram, eles não demonstravam força sobre-humana, mas simplesmente continuavam andando sem reagir a dor ou comando, Lídia e Mirela viram aquilo e saíram correndo atrás, em determinado momento, Mirela puxou o braço de Lídia e a lançou para trás.

— Você não vai! — Gritou para Lídia.

— Eles parece que sabem onde é que fica a casa. — Lídia olhou para os pacientes e notou os quatro descendo até a antiga casa de máquinas, até que pararam diante da parede.

Toc. Toc. Toc.

A parede parecia responder à presença deles, uma rachadura se abriu e separou-se, atrás dela havia um corredor com papel de parede com flores azuis, Lídia conhecia aquele padrão da fotografia. O corredor não poderia caber sob o o hospital, seguia por dezenas de metros numa direção onde deveria haver apenas fundação e terra.

 Os quatro pacientes entraram, Lídia empurrou Mirela para trás e correu para os acompanhar, Mirela foi atrás mesmo dizendo que não iria, estava preocupada com Lídia. O ar foi ficando mais quente, até que em determinado momentos as paredes se tornaram de madeira antiga com portas aparecendo dos dois lados, em cada porta havia um número: 112; 113; 114; 115; 116; 117; A porta 118 estava aberta.

  Lídia entrou e notou que era uma enfermaria com dezenas de camas espalhadas, algumas estavam vazias e outras estavam ocupadas por pessoas deitadas que usavam roupas de diferentes épocas: um homem vestia algo que parecia uniforme antigo de trabalhador ferroviário, uma mulher usava camisola hospitalar moderna, um menino parecia dormir usando roupas de muitas décadas antes, e todos tinham uma elevação abaixo das costelas e pulsavam no mesmo ritmo. O som das três batidas voltou a aparecer e Lídia encontrou Renato, ele estava deitado de olhos abertos.

— Você veio. — Renato, virou seu rosto na direção de Lídia e deu um sorriso. — Eu sabia que viria.

— Você! — Lídia gritou. — Você morreu!

— Somente uma parte de mim morreu. — Renato olhou para o teto. — Olhe, estamos em casa.

— Isso não é uma casa.

— Pra ele é. — Ele suspirou.

— E quem é ele? — Perguntou Mirela.

— Ainda não tem nome, mas está aprendendo a construir um corpo baseado nos nossos, ele está aprendendo. — Ele olhou para Mirela. — Mas você não é bem-vinda aqui, você não foi chamada por ele.

Uma porta se abriu no fundo da enfermaria e uma mulher saiu, ela usava uniforme antigo de enfermaria, parecia ter aproximadamente trinta anos e Lídia reconheceu-a pela fotografia, se tratava de Lígia Ferraz, a mulher parou e olhou para as duas.

— Você demorou, Lídia. — Ela disse, mas Lídia não conseguia responder.

— Você é quem? — Perguntou Mirela.

— Eu era. — Lígia se aproximou de Lídia. — Você realmente não deveria ter vindo trabalhar aqui, devia ter ouvido a sua mãe quando ela tentou te impedir de trabalhar aqui. — Lígia colocou a mão sobre o próprio peito. — Eu descobri que a nossa família ouve as batidas primeiro.

— Isso é hereditário? — Lídia perguntou.

— Não, apenas fomos escolhidas a dedo antes mesmo de nascermos.

Lídia sentiu vontade de vomitar novamente, colocou a mão sobre a boca e impediu o líquido de sair.

— Ele não entende o tempo como nós humanos. — Lígia olhou para as camas.

Antes que Lídia pudesse perguntar mais, alguma coisa se moveu sob o piso, a enfermaria inteira se inclinou levemente, e todos os pacientes acordaram. Lígia pegou Lídia pelo braço e tentou levá-la para fora da enfermaria.

— Você precisa sair daqui! — Disse ela.

— Mas por quê? E você? — Lídia perguntava várias vezes.

— Eu não consigo mais voltar, eu já fui usada por ele. — Lígia colocou a mão sobre seu peito. — Ele precisou de mim pra aprender a respirar.

O chão vibrou, e ao longe, alguma coisa inspirou, não de uma maneira humana, parecia grande demais. Mirela pegou o braço de Lídia e começou a recuar para fora da enfermaria.

— Vamos sair. — Ela tentou puxá-la, mas Lídia não se moveu.

— E eu estou ensinando o quê pra ele? — Lídia perguntou.

— A memorizar. — Lígia respondeu imediatamente, enquanto observava ao redor. — Ei, vai embora! Você precisa acordar pra vida e ir embora!

Lídia não entendeu imediatamente, mas logo percebeu que o órgão conhecia  seu nome, conhecia Renato, conhecia Santa Irene e conhecia pessoas de décadas anteriores, cada hospedeiro acrescentava alguma coisa diferente: circulação, respiração, memória, talvez digestão e talvez visão, era um corpo sendo montado aos poucos, através de muitas pessoas.

— Agora vai! — Lígia empurrou Lídia em direção à porta. — Vai embora, no momento que isso acabar, ele vai subir!

            longo e as portas se abriram enquanto passavam, atrás de cada uma havia quartos de casas, enfermarias, cozinhas, salas, lugares de décadas diferentes, onde pessoas observavam elas correndo. Algumas tinham o peito aberto e outras pareciam completamente normais. Elas finalmente chegaram na rachadura e atravessaram, Lídia de repente escutou uma voz infantil: — Enfermeira! — Era uma pequena garotinha no corredor, ela levantou os braços para Lídia e pediu ajuda.

— Lídia! — Mirela agarrou a mão de Lídia e saiu correndo dali enquanto o corredor parecia se contrair, as paredes se moviam para dentro, como se a madeira se tornasse tecido.

As flores azuis do papel pareceram se desfazer em pequenas veias e Lídia voltou e puxou a menina, Mirela recuou e conseguiu agarrar o braço de Lídia. Por alguns segundo, as três ficaram presas na abertura, então alguma coisa começou a puxá-las do lado de dentro do corredor. A menina gritou enquanto Lídia a segurava, mas a mão da garota escapou, não porque estivesse molhada, seus dedos simplesmente desapareceram, a menina parecia ter sido absorvida pela parede, não havia sangue ou ferimento, como se nunca houvesse diferença entre seus corpos e aquela superfície.

Lídia gritou pensando ser a próxima, mas Mirela conseguiu a puxar para fora antes da rachadura se fechar, agora só havia concreto e nada mais. As duas permaneceram no chão da casa de máquinas enquanto o hospital começava a despertar para o turno da manhã.

Passos começaram a surgir no corredor acima, funcionários chegavam, telefones tocavam, pacientes reclamavam do café amargo, a vida parecia continuar.

Elas subiram e explicaram o ocorrido, mas os seguranças não conseguiam encontrar a passagem e as câmeras do hospital haviam parado de funcionar durante quase duas horas. Os pacientes desaparecidos não constavam mais no sistema, apenas ela e Mirela lembravam. Estranhamente ninguém mais lembrava dos pacientes daquela noite.

Lídia procurou novamente os arquivos e notou que a fotografia de 1936 continuava lá, mas agora mostrava apenas seis pessoas, não havia Lígia. A família de Lídia negava que tivesse existido qualquer mulher com esse nome, sua mãe foi a única exceção, quando Lídia telefonou, a mulher chorou.

— Você viu ela? — A mãe perguntou apavorada.

— Vi sim, ela estava jovem e viva.

— E ela estava bem?

Lídia não sabia responder, talvez “bem” não significasse nada naquele lugar onde ela se encontrava.

A equipe de vigilância chegou às dez da manhã, encontrou apenas um hospital cansado depois de uma noite incomum, as tomografias dos pacientes haviam desaparecido do servidor, exceto a de Lídia, o órgão continuava visível.

Lídia foi afastada do trabalho e encaminhada para a cidade de Saraiva, especialistas examinaram minuciosamente as imagens e nenhum conseguiu identificar aquela estranha estruturas. Realizaram novos exames, biópsias indiretas e testes genéticos, mas todos os resultados eram inconclusivos. Nenhum médico aceitava remover o órgão, a estrutura passada perto demais de vasos importantes e da coluna. Além disso, Lídia estava aparentemente saudável, seu coração funcionava normalmente, e apesar do segundo pulso continuar, ela aprendeu a ignorá-lo. Isso pode parecer impossível, mas o corpo humano é excelente em transformar os horrores constantes em rotina. Pessoas aprendem a conviver com a dor, zumbidos, cicatrizes, doenças e lembranças dolorosas. Lídia aprendeu a dormir sentindo uma coisa desconhecida batendo dentro do peito.

Voltou para Xion seis meses depois, mas decidiu não retornar ao Hospital São Jerônimo, pediu transferência para uma clínica pequena do outro lado da cidade, Mirela continuou no hospital e ambas conversavam pouco sobre aquela noite, não porque tivessem esquecendo, mas porque lembrar não produzia nenhuma solução.

 E então, dois anos se passaram, o órgão não cresceu e Lídia começou a acreditar que talvez aquilo tivesse terminado.

Em uma terça-feira, recebeu uma mensagem de Mirela: Preciso que você venha aqui! Lídia respondeu que não voltaria ao hospital e Mirela prontamente encaminhou uma fotografia de uma tomografia onde havia três estruturas: uma abaixo do coração, outra próxima ao fígado e uma terceira atrás do estômago. Lídia ligou imediatamente.

— De quem é isso? — Ela perguntou

— Um bebê, oito meses de idade e mora adivinha onde? Rua Padre Carmo.

— Não existe nenhuma Rua Padre Carmo. — Lídia parecia confusa.

— Agora existe, olha no seu celular.

Lídia abriu o mapa da cidade e o aplicativo do mapa revelou um bairro chamado Santa Irene, com praça, mercado, escola e centenas de casas, a Rua Padre Carmo atravessava o centro e no número 118 havia um edifício que fez Lídia gelar: Hospital Municipal São Jerônimo - Unidade Santa Irene.

Ela ligou para a prefeitura e perguntou quando Santa Irene havia sido criado. A funcionária que a atendeu pareceu confusa demais com as perguntas feitas por Lídia.

— Criado? Santa Irene é um dos bairros mais antigos de Xion, minha senhora! A senhora precisa vir algum dia para conhecer.

Lídia desligou o telefone e o lançou contra a parece, foi até a janela e onde antes havia terrenos vazios, agora existiam prédios antigos, árvores altas e telhados desgastados, como se sempre tivessem estado ali.

O telefone tocou novamente.

— Lídia, tem mais uma coisa — disse Mirela. — Fizeram um levantamento das crianças nascidas nas últimas três semanas no São Jerônimo.

— Quantas?

— Quarenta e sete.

— E o que elas têm?

Mirela respirou fundo.

— Três órgãos adicionais.

O segundo pulso dentro do peito de Lídia acelerou, então, por alguns segundos, milhares de pequenas contrações atravessaram a cidade de Xion, copos vibraram, cães começaram a latir e algumas pessoas olharam para o chão sem saber por quê, mas depois tudo cessou. Lídia colocou a mão sobre o peito.

— Mirela, fecha a maternidade — disse Lídia.

— Não posso, sabe que não é assim que as coisas funcionam!

— Fecha logo essa maternidade... Porque ele não está mais aprendendo com pessoas doentes, ele está aprendendo com quem está chegando aí.

Naquela noite, vinte e três partos aconteceram no São Jerônimo e os bebês pareciam perfeitamente saudáveis, mas as tomografias revelavam os mesmos três órgãos. Durante a madrugada, os exames começaram a desaparecer e pouco antes das quatro, Mirela ligou.

— Lídia, acho que estou esquecendo alguma coisa. — A voz de Mirela parecida confusa e trêmula. — Não sei porque, mas sinto que tem algo acontecendo.

— Sobre os bebês? — Lídia perguntou.

— Que bebês?

Lídia sentiu o corpo gelar, ela não esperava ouvir aquela resposta vindo da amiga com quem viu aqueles horrores no subsolo do hospital, e então ouviu três batidas.

Toc. Toc. Toc.

— Você escutou? — Mirela parecia ter escutado as batidas também. — Está vindo do hospital, algo na minha cabeça está pedindo para eu ir para o subsolo, mas o hospital não tem subsolo, tem? — Ela estava claramente confusa.

— Mirela, me escuta! Sai do hospital! — Lídia começou a procurar pelas chaves de sua moto, mas não estava conseguindo encontrar, em determinado momento escutou o som de ondas do mar quebrando nas areias de uma praia. — Mirela? O que tá acontecendo?

— Eu desci as escadas... Tá chovendo. — A voz de Mirela ficava cada vez mais distante. — O mar está muito alto, e a montanha está cada vez maior...

— Mirela! — Lídia gritava. — Pega esse maldito telefone sai já daí! Xion fica longe demais do mar, você tá alucinando!

— Lídia, tem uma porta no meio da água.

— Não abre! — Lídia escutou o som de maçaneta se abrindo e tudo ficou em silêncio até que a ligação caiu.

Na manhã seguinte, Lídia foi ao hospital, no endereço antigo havia apenas uma rua, mas Santa Irene ainda existia. Na rua Padre Carmo, 118, encontrou um hospital São Jerônimo muito maior do que aquele que conhecia. Ninguém a reconhecia e Mirela não existia nos registros de funcionários e havia desaparecido até das fotografias. No fim da emergência, um elevador se abriu sozinho, Lídia lentamente se aproximou e notou que o painel tinha um botão de subsolo que Lídia nunca viu antes, ela sem esperanças entrou e desceu.

No subsolo encontrou um corredor cheios de portas, pessoas que reconhecia e, ao fundo, Mirela diante de um quarto. Dentro havia uma criatura enorme coberta por lençóis hospitalares, tubos saíam de seu corpo e atravessavam as paredes e todos pulsavam no mesmo ritmo. Antes que a porta fechasse, Lídia viu uma pequena parte da pele, a pele da criatura parecia a de um recém-nascido, apenas grande demais. Quando o elevador fechou, uma voz surgiu pelo alto-falante: Lídia Ferraz.

— Diz logo! O que você quer! — ela gritou.

— Eu preciso apenas me lembrar, mas ainda não, ainda está cedo. Eu preciso de você vivendo sua vida para que eu possa te alcançar no dia escolhido! — A voz era uma mistura das vozes de Mirela e de Lígia.

A porta do elevador novamente se abriu, e Lídia correu para sair dali, deixando para trás a sua amiga presa em dos quartos. Lídia deixou Xion semanas depois e se mudou para outra cidade onde tentou seguir a sua vida.

Quase um ano depois, acordou durante a madrugada sentindo uma pulsação atrás do coração, depois outra, próxima ao estômago, e então uma terceira, muito mais baixa, ela notou que seu telefone havia desbloqueado sem que ela o fizesse, se levantou da cama e foi até ele. Ela que estava aberto no aplicativo de mapa e que uma nova rua atravessava o seu bairro: Rua Padre Carmo. O número 118 estava exatamente sobre seu prédio.

Lídia largou telefone e correu para a janela, observando enquanto novas ruas pareciam surgir ao seu redor, sem que as pessoas ali pudessem enxergar, foi então que ela escutou:

Toc. Toc. Toc.

Três batidas vindas da parede, depois no teto e em seguida sob o chão. Lídia estranhamente se lembrou das memórias de alguém chamado Amaro Velloso, que também havia passado por uma situação parecida.

Lídia pegou um caderno e escreveu tudo o que ainda lembrava, temendo que até aquelas memórias desaparecessem em algum momento. Quando terminou deixou o caderno ao lado do telefone e escutou o choro de vários bebês recém-nascidos no apartamento acima, embora soubesse que ali morava apenas um casal de idosos. Ela sentiu uma sensação fria sob os pés e percebeu que por debaixo das frestas da porta estava escorrendo água, mas não deveria haver água ali.

Ela olhou para a janela novamente e pode observar a silhueta de uma enorme montanha no horizonte, e o mar engolindo lentamente a cidade. Correu novamente e pegou o seu caderno e começou a escrever: O terceiro turno não começa quando morremos, ele começa quando aquela coisa decide que já aprendeu o suficiente conosco. Sob suas costelas, os três órgãos bateram ao mesmo tempo.

E então a porta do apartamento abriu.

Thoughts

  • romanceNasCostas

    A menina no corredor levantando os braços e os dedos sumindo na parede sem sangue. E a Lídia voltando pra pegar ela. Gostei muito dessa mulher.

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  • rascunhoeterno

    Terminei isso às duas da manhã e agora vou dormir com a mão em cima das costelas contando as três batidas. Obrigado por nada!

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  • linhaTorta

    Juntando a ordem das coisas: o Renato chega três minutos depois da meia-noite, morre às cinco e vinte, e onze minutos depois do coração parar aquilo ainda batia. Depois vêm três pessoas do mesmo endereço, mais duas, e a Lídia é a única que vai olhar. A Mirela segurou o braço dela na porta pra ela não ir, e no fim foi a Mirela quem sumiu. Depois do segundo capítulo eu já esperava a casa de volta, mas não como buraco.

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  • lcavalcanti93

    Um deu circulação, outro deu respiração, a Lídia está dando memória. Se ele está montando um corpo por partes, os quarenta e sete bebês já nascem com tudo pronto e aí ninguém mais precisa de hospital.

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  • fsantos1307

    O Agenor a chorar e a pedir desculpa à enfermeira enquanto aquilo falava por dentro dele. Ainda pede desculpa, e já nem é dono do corpo.

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  • conto84

    Na segunda passada pelo texto, a ligação da mãe muda de tamanho: ela diz que implorou pra Lídia não trabalhar ali no dia em que saiu a vaga, e ninguém nunca acreditou na Lígia. A família sabia e escolheu calar por duas gerações. Aposto que a bisavó também ouviu as batidas e morreu sem falar nada. Pra mim o que assusta mesmo é a casa toda saber e deixar a menina ir trabalhar lá doze anos.

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  • cadernoPreto

    As setenta e duas batidas iguais em todo mundo e depois no chão do corredor. Eu já passei noite inteira ouvindo prédio velho estalar e achando que era coisa viva, mas prédio nenhum bate junto com sete pessoas.

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  • nativo_visionart

    que é o que muda? a energia?

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  • brunocosta

    A Mirela já não se lembrar dos bebés ficou-me atravessado, ela esteve lá a noite toda. Aposto que a Lídia já desconfiava disso antes de telefonar.

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  • Ovid

    O detalhe de que o prontuário do Renato some do sistema e só a Lídia e a Mirela lembram dele me fez pensar que essa coisa não come só gente, come também o registro de que a pessoa existiu. Aposto que a maternidade no fim é onde isso deixa de ser assunto de hospital e vira assunto da cidade.

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